Coisas do outro mundo








1. No momento da morte de Steve Jobs, lembro-me de ler um obituário em que a Apple era tratada como uma igreja. Isso era visível nas pequenas coisas –o símbolo da empresa, por exemplo– e nas grandes coisas –as aparições do homem sempre que havia uma boa nova para anunciar aos fiéis. 

Sobre o símbolo, a metáfora da maçã trincada é óbvia: Jobs apresentava-se como o paladino do conhecimento –e o conhecimento humano só começou quando Adão não quis desiludir a sua amada, comendo o fruto proibido.

E sobre as aparições, enfim, será preciso recordá-las? Jobs, em ambiente escurecido, com uma luz celestial sobre a cabeça, falando do palanque como um pastor fala ao seu rebanho.

Pois bem: foi-se Steve Jobs, mas as encenações sacras continuam. E os últimos dias foram dominados por um novo iPhone que mereceu as atenções da mídia. Disse "iPhone"?

Peço desculpa pela falta de respeito. A forma como o novo brinquedo foi apresentado, testado, comentado e comparado não é coisa racional; é um fenômeno transcendental, como se alguém tivesse descoberto a relíquia de um santo, prometendo milagres que a humanidade jamais experimentou. 

Enganam-se os que pensam que o declínio das religiões tradicionais no Ocidente libertou os homens de qualquer crença.

A reverência do mundo pelos produtos da Apple é um exemplo de adoração infantil que reproduz, em tom pícaro, a peregrinação dos crentes aos lugares sagrados.



Folha de S. PauloCoutinho 
em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2014/09/1516260-coisas-do-outro-mundo.shtml

As 28 deficiências da inteligência humana

pelo pedagogo romeno Reuven Feuerstein. (uma dica de Olavo de Carvalho)


 pedagogo romeno Reuven Feuerstein.



Vou tentar traduzir, se alguém quiser corrigir sinta-se a vontade.

As deficiências resultantes da falta de aprendizagem mediada são antes periféricas do que centrais, e refletem atitude e motivação deficientes, falta de habitos de trabalho e esquemas de aprendizagem ao invés de incapacidades estruturais e de elaboração. Evidências da reversibilidade do fenômeno tem sido encontrado em trabalhos clínicos e experimentais - especialmente através da avaliação dinâmica - (Dispositivo de Avaliação do Potencial de aprendizagem - "Learning Potential Assessment Device" - LPAD). O LPAD também nos capacitou a estabelecer um inventório de funções cognitivas subdesenvolvidas, pobremente desenvolvidas, ou debilitadas. Estas nós categorizamos como níveis de Input, Elaboração e Output.

Funções cognitivas debilitadas afetando o nível de Input incluem debilidades quantitativas e qualitativas dos dados recolhidos pelo indivíduo, quando confrontado por um problema, objeto ou experiência. Incluem:

  1.  Percepção confusa.
  2.  Comportamento investigativo não-sistemático, impulsivo e equivocado.
  3.  Falta de, ou debilidade, de ferramentas verbais capazes de discriminar (ex. objetos, eventos, relações, etc. não possuem nomes apropriados).
  4.  Falta de, ou debilidade, de orientação espacial; a falta de sistemas estáveis de referencia debilitam o estabelecimento de uma organização topológica e Euclidiana do espaço.
  5.  Falta de, ou debilidade, de conceitos de tempo.
  6.  Falta de, ou debilidade, de conservação de constantes (tamanho, forma, quantidade, orientação) através da variação dos fatores.
  7.  Falta de, ou deficiência, de precisão e acuidade dos dados recolhidos.
  8.  Falta de capacidade de considerar duas ou mais fontes de informação (ou hipóteses) de uma vez; isto reflete que os dados são tratados de forma isolada, ao invés de fatos organizados em um todo.

A severidade da debilidade no nível de Input também pode afetar o funcionamento dos níveis de Elaboração e Output, mas não necessariamente.
Funções cognitivas debilitadas afetando o nível de Elaboração incluem aqueles fatores que impedem uma avalição eficiente da informação e das dicas ou sugestões.

  1.  Percepção inadequada ao definir um problema existente.
  2. Incapacidade de selecionar aspectos relevantes e não relevantes não definição de um problema.
  3. Falta de um comportamento comparativo espontâneo, ou limitação na sua aplicação.
  4. Campo psíquico tacanho, mediocre.
  5. Compreensão parcial da realidade.
  6. Falta de, ou debilidade, na necessidade de perseguir evidências lógicas.
  7.  Falta de, ou debilidade, de interiorização.
  8.  Falta de, ou debilidade, no pensamento hipotético-inferitivo, pensamento "E se...?".
  9.  Falta de, ou debilidade, nas estratégias de testar hipóteses.
  10.  Falta de, ou debilidade, na habilidade de estruturar um comportamento adequado para solucionar um problema.
  11.  Falta de, ou debilidade, no planejamento.
  12.  Não-elaboração de certas categorias cognitivas porque os conceitos verbais necessários não fazem parte do indivíduo, ou não são mobilizados em um nível expressivo.

Pensar normalmente se refere a elaborar sugestões. Estas sugestões podem ser originais, criativas, e ainda que corretamente elaboradas podem gerar respostas erradas, porque foram baseadas em informações inadequadas e inapropriadas no nível de Input.

Funções cognitivas debilitadas afetando o nível de Output incluem aqueles fatores que levam a uma inadequada comunicação das soluções encontradas. Note que informações corretamente percebidas e elaborações apropriadas podem ser expressadas incorretamente.

Deve-se notar que, mesmo dados e elaborações corretas podem ter sua solução expressa incorretamente, se existirem dificuldades nesse nível.

  1.  modalidades egocêntricas de comunicação.
  2.  Dificuldades na projeção de relações virtuais.
  3.  Bloqueios.
  4.  Tentativas inadequadas de responder.
  5.  Falta de, ou debilidade, de ferramentas para comunicar adequadamente as respostas elaboradas.
  6.  Falta de, ou debilidade, na necessidade de precisão e acuidade na comunicação das respostas.
  7.  Deficiência na transposição visual.
  8.  Comportamento impulsivo.

Os três distintos níveis foram concebidos de forma a trazer alguma ordem à matriz de funções cognitivas deficientes em situações de carência cultural. No entanto, há a interação que ocorre entre os níveis, que é de importância vital para compreender a extensão e a penetração da disfunção cognitiva.



fonte: http://educacaodialogica.blogspot.com.br/2013/07/as-28-deficiencias-da-inteligencia.html

Black Blocs: A origem da tática que causa polêmica na esquerda


publicado em 8 de outubro de 2013

 

Foto da página do Black Bloc SP
“O balancê, balancê. Escute o que vou te dizer. Geraldo fascista, vai se foder e leva o Cabral com você.” (Cantado por manifestantes em São Paulo)

Black blocs, lições do passado, desafios do futuro

Por Bruno Fiuza*

Especial para o Viomundo


Uma das grandes novidades que as manifestações de junho de 2013 introduziram no panorama político brasileiro foi a dimensão e a popularidade que a tática black bloc ganhou no país.
Repito: dimensão e popularidade – pois, ao contrário do que muita gente pensa, esta não foi a primeira vez que grupos se organizaram desta forma no Brasil, e muito menos no mundo.
Aliás, uma das questões que mais saltam aos olhos no debate sobre os black blocs no Brasil é a impressionante falta de disposição dos críticos em se informar sobre essa tática militante que existe há mais de 30 anos.

É claro que ninguém que conhecia a história da tática black bloc quando ela começou a ganhar popularidade no Brasil esperava que os setores dominantes da sociedade nacional tivessem algum conhecimento sobre o assunto.

Surgida no seio de uma vertente alternativa da esquerda europeia no início da década de 1980, a tática black bloc permaneceu muito pouco conhecida fora do Velho Continente até o fim do século XX.
Foi só com a formação de um black bloc durante as manifestações contra a OMC em Seattle, em 1999, que as máscaras pretas ganharam as manchetes da imprensa mundial.

Natural, portanto, que muita gente ache que a tática tenha surgido com o chamado “movimento antiglobalização” e tenha se baseado, desde o início, na destruição dos símbolos do capitalismo.
O que realmente assusta é a ignorância e a falta de disposição de se informar sobre o assunto demonstradas por certos expoentes e segmentos da esquerda tradicional brasileira.

O desconhecimento e a falta de informação levaram grandes representantes do pensamento crítico brasileiro ao extremo de qualificar a tática black bloc de “fascista”.

Ao se expressarem nesses termos, esses grandes lutadores, que merecem todo o respeito pelas inúmeras contribuições que deram à organização da classe trabalhadora no Brasil ao longo de suas vidas, caíram na armadilha de reproduzir o discurso da classe dominante diante de toda forma de contestação da ordem vigente que não pode ser imediatamente enquadrada em categorias e rótulos familiares.

Ao não compreenderem a novidade do fenômeno tentaram enquadrá-lo à força em esquemas conhecidos.

Fetichização


Essa incompreensão aparece, de cara, na própria linguagem usada tanto pela mídia conservadora quanto por certos setores da esquerda tradicional para se referir à tática black bloc.

Em primeiro lugar, usam um artigo definido e letras maiúsculas para se referir ao objeto, como se “o Black Bloc” fosse uma organização estável, articulada a partir de algum obscuro comando central e que pressupusesse algum tipo de filiação permanente.

Ora, tratar um black bloc desta forma seria o mesmo que tratar uma greve, um piquete ou uma panfletagem como um movimento.

Talvez a melhor forma de começar a desfazer os mal-entendidos sobre os black blocs seja combater a fetichização do termo.

Como chegou ao Brasil por influência da experiência americana, essa tática manteve por aqui seu nome em inglês, mas não é preciso muito esforço para traduzir a expressão.

Por mais redundante e bobo que possa parecer, nunca é demais lembrar que um “black bloc” (assim, com artigo indefinido e em letras minúsculas) é um “bloco negro”, ou seja: um grupo de militantes que optam por se vestir de negro e cobrir o rosto com máscaras da mesma cor para evitar serem identificados e perseguidos pelas forças da repressão.

Fazer isso não significa se filiar a uma determinada organização ou movimento. Da mesma forma que operários que decidem fazer um piquete para impedir a entrada de outros trabalhadores em uma fábrica em greve não deixam de fazer parte de seus respectivos sindicatos para ingressar em uma misteriosa sociedade secreta.

Eles apenas optaram por uma determinada tática de luta. É exatamente o que fazem os militantes que decidem formar um bloco negro (leia-se, “black bloc”) durante uma manifestação.

Não há dúvida de que a opção pelo anonimato e a disposição para o enfrentamento com a polícia são peculiaridades que diferenciam profundamente o bloco negro de outras táticas, mas nem por isso a opção por esse tipo de ação dá margem para confundi-la com um movimento.

Aí entramos em um segundo ponto fundamental para a discussão da tática black bloc: seus métodos. De cara, é preciso esclarecer que os próprios métodos dos black blocs mudaram ao longo do tempo e por isso é fundamental conhecer o contexto histórico, político e social em que nasceu e se desenvolveu essa tática.

A origem

Os primeiros black blocs surgiram na então Alemanha Ocidental, no início dos anos 1980, no seio do movimento autonomista daquele país.

Como o movimento autonomista europeu é muito pouco conhecido no Brasil (para não dizer completamente desconhecido), quem quiser se informar melhor sobre o assunto pode recorrer a um ótimo livro sobre o tema escrito pelo militante e sociólogo americano George Katsiaficas: “The Subversion of Politics – European Autonomous Social Movements and the Decolonization of Everyday Life”, disponível para download no site do autor (http://www.eroseffect.com).

Surgido a partir da experiência da autonomia operária na Itália dos anos 1970, o autonomismo se espalhou pela Europa ao longo das décadas de 1970 e 1980.

Um dos países onde o movimento mais se desenvolveu foi na Alemanha. Fiel ao espírito revolucionário original do marxismo, mas renegando o fetiche pelo poder das burocracias sindicais e partidárias, o autonomismo se desenvolveu como um conjunto de experimentos sociais organizados por setores que optaram por se manter à margem do modo de vida dominante imposto pelo capitalismo e criar focos de sociabilidade alternativos no seio das próprias sociedades capitalistas, mas pautados por valores e práticas opostos aos dominantes.

Na Alemanha Ocidental, o movimento autonomista surgiu no fim dos anos 1970, quando grupos começaram a organizar ações diretas contra a construção de usinas nucleares no interior do país por meio da criação de acampamentos nos terrenos onde as centrais seriam erguidas.

O mais famoso deles foi a República Livre de Wendland, um acampamento criado em maio de 1980 na cidade de Gorleben, na região de Wendland, no norte da Alemanha, onde estava prevista a construção de uma usina nuclear.

Enquanto os acampamentos antinucleares surgiam no interior da Alemanha Ocidental, em grandes cidades, como Berlim e Hamburgo, grupos de jovens e excluídos começaram a ocupar imóveis vazios e transformá-los em moradias coletivas e centros sociais autônomos.

Assim nasceram os primeiros squats alemães, inspirados pela experiência de grupos que já faziam isso havia anos na Holanda e na Inglaterra.

A mobilização contra a construção de usinas nucleares no interior e as ocupações urbanas nas grandes cidades se tornaram os dois pilares do movimento autonomista alemão.

Para os envolvidos nesses processos, a criação de espaços autônomos era uma forma de questionamento da ordem capitalista na prática, por meio da criação, no interior da própria sociedade capitalista, de pequenas ilhas onde vigoravam relações sociais opostas às vigentes no entorno dominante.

Obviamente, quando acampamentos e squats começaram a proliferar pelo país, o governo da República Federal Alemã se deu conta de que era preciso cortar pela raiz aquela agitação social.
Em 1980, lançou uma grande ofensiva policial contra acampamentos antinucleares e squats em diferentes partes do país.

A República Livre de Wendland foi desarticulada em junho, e os squats de Berlim sofreram um violento ataque policial em dezembro.

Diante da ofensiva policial, os militantes alemães se organizaram para resistir à repressão e proteger seus espaços de autonomia. Desse esforço nasceu a tática black bloc.

Durante a manifestação de Primeiro de Maio de 1980, em Frankfurt, um grupo de militantes autonomistas desfilou com o corpo e o rosto cobertos de preto, usando capacetes e outros equipamentos de proteção para se defender dos ataques da polícia.

Por causa do visual do grupo, a imprensa alemã o batizou de “Schwarzer Block” (“Bloco Negro”, em alemão).

Desse momento em diante, a presença de blocos negros se tornou um elemento constante nas ações dos autonomistas alemães, e sua função original era a de servir de força de autodefesa contra os ataques policiais às ocupações e outros espaços autônomos.

Um relato em alemão sobre o surgimento dos black blocs pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.trend.infopartisan.net/trd0605/t370605.html.

O caminho para Seattle

Da Alemanha, a tática se difundiu pelo resto da Europa, e, no fim dos anos 1980, chegou aos Estados Unidos, onde o primeiro bloco negro foi organizado em 1988, para protestar contra os esquadrões da morte que o governo americano financiava em El Salvador.

Uma ótima fonte sobre a história dos black blocs nos Estados Unidos é o livro “The Black Bloc Papers”, editado por David Van Deusen e Xavier Massot e disponível para download em http://www.infoshop.org/amp/bgp/BlackBlockPapers2.pdf.

Ao longo dos anos 1990, outros black blocs se organizaram nos Estados Unidos, mas a tática permaneceu praticamente desconhecida do grande público até que um bloco negro se organizou para participar das manifestações contra a OMC em Seattle em novembro de 1999.

Graças à ação desse black bloc, a tática ganhou as páginas dos grandes jornais no mundo inteiro, principalmente porque, a partir de Seattle, os black blocs passaram a realizar ataques seletivos contra símbolos do capitalismo global.

A mudança se explica pelo contexto em que se formou o black bloc de Seattle. A década de 1990 foi a era de ouro das marcas globais, quando os logos das grandes empresas se transformaram na verdadeira língua franca da globalização.

Nesse contexto, o ataque a uma loja do McDonald’s ou da Gap tinha um efeito simbólico importante, de mostrar que aqueles ícones não eram tão poderosos e onipresentes assim, de que por trás da fachada divertida e amigável da publicidade corporativa havia um mundo de exploração e violência materializado naqueles logos.

Ou seja: o black bloc de Seattle inaugurou uma dimensão de violência simbólica que marcaria profundamente a tática a partir de então.

Daquele momento em diante, os black blocs, até então um instrumento basicamente de defesa contra a repressão policial, tornaram-se também uma forma de ataque – mas um ataque simbólico contra os significados ocultos por trás dos símbolos de um capitalismo que se pretendia universal, benevolente e todo-poderoso. Foi nesse contexto que a tática chegou ao Brasil.

Os primeiros black blocs no Brasil

Os acontecimentos de Seattle levaram grupos de militantes brasileiros a se articular em coletivos para construir no país o movimento de resistência mundial à globalização neoliberal. Assim surgiram os núcleos brasileiros da Ação Global dos Povos, uma rede de movimentos sociais surgida em 1998 que criou os Dias de Ação Global, articulações mundiais para organizar protestos simultâneos em várias partes do planeta contra as reuniões das instituições internacionais que sustentavam a globalização neoliberal.

O primeiro Dia de Ação Global que contou com ações no Brasil foi 26 de setembro de 2000, marcado contra a reunião do FMI em Praga. Neste dia, em São Paulo, um grupo de manifestantes atacou o prédio da Bovespa, o que gerou confronto entre policiais e ativistas. Na época, o incidente não ganhou destaque na imprensa e o termo “black bloc” não foi mencionado, mas a lógica da ação desses militantes, em sua maioria ligados ao movimento anarcopunk de São Paulo, seguia a lógica da tática black bloc.

O segundo Dia de Ação Global que contou com atos no Brasil foi 20 de abril de 2001. Em São Paulo, foi organizada uma manifestação na Avenida Paulista como parte dos protestos convocados em todo o mundo contra a Cúpula das Américas, reunião realizada na cidade de Quebec, no Canadá, na qual líderes dos países do continente discutiram a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Esta foi a primeira vez que uma manifestação contra a globalização neoliberal realizada no Brasil ganhou as manchetes da imprensa nacional.

Em São Paulo, um grupo entre os manifestantes adotou a mesma tática do black bloc de Seattle, em 1999, e atacou símbolos capitalistas na Avenida Paulista, como uma loja do McDonald´s. Mais uma vez, a imprensa nacional não fez referência ao termo “black bloc”, mas a tática utilizada na Paulista foi claramente a dos blocos negros. O curioso é que a mesma edição de 21 de abril de 2001 da Folha de São Paulo que noticia o protesto na Paulista traz uma matéria do enviado do jornal ao Canadá sobre o “bloco de preto” que atuou em Quebec.

O debate sobre a violência

Mas se nessa época a imprensa brasileira não usava o termo “black bloc” na cobertura dos protestos no país, ele já era bem conhecido da mídia internacional, principalmente da europeia e da norte-americana.

E ganhou ainda mais projeção durante as manifestações contra a reunião do G8 realizada em Gênova, na Itália, em julho de 2001.

O Dia de Ação Global marcado para 20 de julho de 2001 foi a maior mobilização do gênero até então e nesse dia as ruas de Gênova foram tomadas por mais de 300 mil pessoas, entre as quais marchou o maior black bloc organizado até então.

O grau de confronto com a polícia atingiu um novo patamar e um jovem italiano que fazia parte daquele black bloc, chamado Carlo Giuliani, foi morto pela repressão com um tiro na cabeça.
Gênova marcou um divisor de águas para a tática black bloc e para o chamado “movimento antiglobalização” como um todo.

Assim como acontece hoje no Brasil, o debate sobre o uso da violência nas manifestações – mesmo que apenas contra lojas e outros objetos inanimados – criou uma divisão entre ativistas “violentos” e “pacíficos” que contribuiu muito para a desmobilização do movimento como um todo dali para frente.

A semelhança do debate sobre o black bloc na época e agora é impressionante.

Quem quiser conhecer um pouco das discussões e das respostas de adeptos da tática black bloc na época pode encontrar uma boa seleção de textos de ativistas reunidos na coletânea “Urgência das ruas – Black block, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global”, organizada por um anônimo que se identifica como Ned Ludd (referência a um dos líderes do Movimento Ludita na Inglaterra do século XIX) e publicada no Brasil pela editora Conrad.

Com o fim dos grandes protestos contra a globalização neoliberal, o debate sobre os black blocs saiu das manchetes da grande imprensa internacional e brasileira.

A tática continuaria a ser adotada em manifestações na Europa e nos Estados Unidos nos anos seguintes, e militantes libertários no Brasil certamente sabiam muito bem o que eram os black blocs, mas o tema nunca repercutiu fora dos meios militantes.

E assim foi até que começaram as manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô convocadas pelo Movimento Passe Livre em junho de 2013.

As manifestações de junho

Assim como os black blocs, o MPL estava longe de ser uma novidade no Brasil, mas, pela primeira vez, ambos começaram a ganhar um protagonismo inédito conforme as manifestações cresciam.
Até o dia 13 de junho, aquela era uma mobilização muito parecida com as que o MPL vinha organizando desde 2004.

Era um movimento restrito a um núcleo militante que reunia ativistas do próprio MPL, integrantes de partidos e coletivos libertários – alguns dos quais formaram black blocs durante os atos.
A violência policial contra a marcha do dia 13 de junho em São Paulo, no entanto, mudou tudo.
Os ataques contra jornalistas e jovens da classe média e da elite indignaram uma parcela da população normalmente avessa à militância política.

O choque diante da brutalidade da PM de São Paulo e a simpatia por uma causa que se tornou quase uma unanimidade – barrar o aumento das tarifas do transporte público na cidade – “levaram o Facebook para a rua”, para usar a feliz expressão que o jornalista Leonardo Sakamoto usou para definir a marcha de 17 de junho.

De repente, centenas de milhares de brasileiros se deram conta de que podiam, de alguma forma, usar as ruas para expressar sua insatisfação com algum aspecto da política brasileira.

Em um desses raros momentos da história nacional, o cidadão comum percebeu que a política não é propriedade privada dos políticos profissionais, e se deu conta de que ela se faz no dia a dia, na rua, em vários lugares. De vez em quando, até no Congresso.

As manifestações de 17 de junho abriram a caixa de Pandora, e gente de absolutamente todas as tendências políticas foi para a rua. Por um breve momento, a elite mais reacionária marchou ao lado do militante mais revolucionário. Mas em algum momento a contradição teria de aparecer.

As contradições de junho

A partir de agora, minhas observações se restringem ao que aconteceu na cidade de São Paulo, pois foi o único lugar onde acompanhei as manifestações in loco, e não acho que os movimentos nas várias partes do Brasil possam ser analisados sob uma única perspectiva.

Em cada cidade ou região teve especificidades que não sou capaz de avaliar.

Quem esteve na Paulista no dia 18 de junho já podia farejar, de certa forma, o que aconteceria no dia 20.

Aquilo era a Revolução Francesa. As reivindicações mais contraditórias conviviam nos cartazes empunhados por grupos sociais muito diferentes entre si, muitos deles antagônicos.

O pessoal das bandeiras verde-amarelas e dos slogans moralistas era claramente uma elite que tinha pouco ou nada a ver com os anarquistas e trotskistas que circulavam com palavras de ordem anticapitalistas.

A direita, a extrema-direita e a extrema-esquerda já estavam ali. Faltava a esquerda moderada, dos partidos no poder. E, quando ela apareceu, a bomba-relógio explodiu.

Pode-se acusar o PT de muitas coisas por ter convocado sua militância a ir para a Paulista no dia 20 de junho, mas uma coisa é certa: aqueles militantes tinham todo o direito de estar lá.

O problema é: vai explicar isso para a elite raivosa que, estimulada pelas mobilizações, passou a expor em praça pública seu ódio pelo PT…

Olhando em retrospecto, o ataque fascista aos militantes partidários no dia 20 de junho parece um desdobramento natural do que vinha acontecendo: com a revogação do aumento das tarifas, a única bandeira que unificava aquela multidão de opostos deixou de existir.

Sem o elemento unificador, apareceram as profundas contradições que já existiam entre os inúmeros grupos que saíram às ruas.

A elite queria a cabeça do governo do PT, a extrema-esquerda queria a revolução social, e, espremida entre os dois extremos, sobrou para a esquerda moderada o papel de defender o status quo, sobrou para a esquerda moderada a posição conservadora – no mais literal sentido da palavra.

Os meses seguintes só vieram confirmar a tendência que apareceu pela primeira vez no 20 de junho em São Paulo.

A grande mobilização que prometia unificar todos os setores da esquerda para responder ao ataque fascista virou um ato dominado pelas centrais sindicais e seus militantes profissionais, no dia 11 de julho, que foi incapaz de atrair o cidadão comum que saíra às ruas em junho.

As convocatórias da direita contra a corrupção se tornaram pequenos atos isolados, dissipando o medo de alguns militantes da esquerda de que as manifestações de junho pudessem abrir caminho para uma escalada fascista.

Por fim, a extrema-esquerda se deu conta de que o mar humano que saiu às ruas em junho não era tão anticapitalista assim, e passou a organizar também seus atos isolados.

Essas três tendências ficaram claras nas manifestações do 7 de setembro em São Paulo.
Pela manhã, marcharam os movimentos sociais ligados à esquerda moderada, que, em sua maioria,
continuam defendendo o governo do PT.

À tarde, duas convocatórias distintas dividiram o vão livre do Masp: de um lado, um grupo formado pela elite de direita e extrema-direita, que era, supostamente, contra todos os partidos, mas que destilava seu ódio de classe contra o PT; do outro, um black bloc que também se dizia contra todos os partidos, mas que mirava prioritariamente no governo Alckmin, do PSDB.

Os black blocs no Brasil de hoje

Isso nos traz de volta ao nosso tema central: os black blocs.

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese para falar do Rio de Janeiro, pois este foi o único lugar em que os protestos de fato continuaram com força depois da revogação do aumento das passagens.

Acontece que, além da tarifa, lá havia outra bandeira que unificava o movimento: a oposição ao governador Sérgio Cabral.

E talvez seja por isso mesmo que lá os black blocs tenham se tornado mais fortes e atuado de forma mais coerente.

Vale lembrar que o movimento contra Sérgio Cabral girou em torno de uma ocupação urbana – o acampamento montado em frente à residência do governador – e, não por acaso, os black blocs cariocas desempenharam um importante papel de autodefesa do movimento contra a repressão policial.

Ou seja: justamente no momento em que caiu na boca do povo no Brasil, a tática black bloc estava voltando às origens, atuando como uma organização popular de defesa dos movimentos sociais.

Na minha opinião, a situação no Rio ajuda a explicar porque em São Paulo os black blocs nunca chegaram a contar com o apoio que tiveram na capital fluminense.

Em São Paulo, a partir do fim de julho os black blocs se formaram como uma força isolada, inicialmente em solidariedade aos cariocas, e depois lançando uma campanha contra o governador paulista, Geraldo Alckmin.

Ao se voltar contra Alckmin, os black blocs paulistas poderiam se articular com a esquerda moderada, por terem um inimigo comum, mas a incompreensão mútua impossibilitou a aproximação.

E aqui chegamos ao x da questão: a desconfiança mútua entre duas culturas militantes distintas, mas que compartilham muitos objetivos, está acabando com as possibilidades de aproveitar a incrível energia social gerada pelas manifestações de junho para construir novos espaços de debate e mobilização que poderiam abrir perspectivas inéditas de ação política no Brasil.

Não se trata aqui de querer apagar as diferenças entre a cultura de militância partidária – baseada na hierarquia, na centralização e na estabilidade – e a cultura libertária que está na base da tática black bloc – horizontal, descentralizada e instável – mas de propor que, apesar de suas diferenças, estes dois setores podem trabalhar juntos em prol de causas que os unem.

Por uma assembleia das ruas

O ponto de partida para essa aproximação é o diálogo aberto entre as partes, reconhecendo as diferenças e os equívocos de parte a parte, mas buscando achar formas de cooperação que respeitem as especificidades de cada um.

Os momentos em que os black blocs foram mais fortes foram justamente aqueles em que atuaram no seio de movimentos mais amplos, que englobavam grupos com táticas muito diferentes, todos lutando por causas comuns.

E esta é, na minha opinião, uma das fraquezas dos black blocs hoje (pelo menos em São Paulo): uma certa fetichização da tática, tomando a formação de blocos negros como um fim em si mesmo.

Olhando para a história dos black blocs, me parece que os melhores momentos dessa tática foram quando ela serviu de instrumento para um movimento mais amplo.

E esses momentos foram marcados por avaliações de que tipo de ações serviam mais aos fins buscados.

Por exemplo: a condenação, a priori, da destruição de propriedade privada corporativa me parece absurda por parte de qualquer um que sonhe com uma sociedade mais igualitária.

No entanto, cabe questionar, sim, se essa tática é a mais acertada em um determinado momento da luta.

O ataque contra símbolos das grandes corporações globais promovido pelo black bloc de Seattle fazia todo sentido no seio de um grande movimento que desafiava, justamente, o poder dessas grandes corporações.

Mas será que o simples ataque a agências bancárias e concessionárias de carros de luxo faz sentido em mobilizações que não passam de algumas centenas de pessoas sem uma bandeira clara, em uma São Paulo cuja população tende a repudiar esse tipo de ação? Para que serve essa ação?

Os black blocs têm força social suficiente para sustentar uma mobilização sem buscar apoio de outros setores? Na minha opinião, a resposta para todas essas perguntas, hoje, é “não”.

Por outro lado, as organizações tradicionais da esquerda, como partidos e sindicatos, claramente não estão conseguindo se sintonizar com as pessoas que saíram às ruas em junho justamente por insistirem em restringir suas mobilizações aos seus próprios quadros, olhando com desconfiança para qualquer um que não seja filiado a uma organização formal.

Ao fazerem isso, reproduzem no nível da rua a mesma lógica de quem está no poder: a ideia de que a política é um assunto para iniciados e especialistas, da qual só podem participar aqueles devidamente credenciados por organizações estabelecidas, sejam elas partidos, sindicatos ou movimentos sociais.

Ora, foi justamente isso que levou as pessoas às ruas em junho: a revolta contra o distanciamento entre aqueles que formulam a política e aqueles que apenas sofrem suas consequências.

Os gritos histéricos de “sem partido” podiam ter uma conotação fascista em alguns casos, mas eles também expressavam esse mal-estar profundo de uma política que se vê como cada vez mais autônoma do resto da população.

O grito de junho foi, acima de tudo, um grito contra o autismo da política institucional no Brasil – e nesse autismo se incluem absolutamente todos os partidos com alguma representação parlamentar (com exceção, talvez, do PSOL, cujos militantes estavam nas ruas desde o começo).

Foi um grito contra o abismo que existe entre a política institucional e o cidadão comum, criado por políticos profissionais (de todos os partidos) que colocam o jogo da politicagem acima da defesa de bandeiras concretas de interesse da população.

Nesse sentido, mesmo o combate à corrupção, que em geral tem um viés claramente conservador, se torna parte de uma crítica mais ampla a um sistema representativo que, cada vez mais, é ditado apenas pelos interesses dos representantes, e não dos representados.

Ao insistir em mobilizações restritas aos iniciados, as organizações tradicionais da esquerda reproduzem a barreira que afasta o cidadão comum da política, e por isso são hostilizadas por aqueles que se sentem excluídos da política.

Os black blocs, por outro lado, oferecem justamente o contrário: a possibilidade de qualquer cidadão participar da mobilização política sem necessidade de filiação prévia.

Enquanto partidos e sindicatos são vistos como uma porta fechada para os não iniciados, os black blocs são vistos como uma porta aberta para a política.

Disso decorre, em grande parte, a atração que vem exercendo sobre muitos jovens que estão saindo às ruas pela primeira vez na vida.

Muitas vezes essa distinção leva alguns a se apegarem a um fetiche que opõe “velhas” e “novas” formas de organização, como se fossem irreconciliáveis.

A pergunta mais importante hoje, na minha opinião, é: seria possível romper com essa visão binária e criar espaços onde as diferentes lógicas pudessem dialogar?

Acredito sinceramente que sim. Até porque isso já aconteceu no passado.

Em Gênova, por exemplo, o black bloc optou por marchar ao lado dos Comitês de Base (Cobas) dos sindicatos italianos; na Alemanha, os black blocs muitas vezes marcharam ao lado dos sindicados no Primeiro de Maio; e, aqui mesmo no Brasil, lembro perfeitamente de militantes do PSTU que participavam das reuniões da Ação Global dos Povos para a organização dos atos em São Paulo.

Ou seja: o que nos falta são espaços de articulação que abram espaço para o diálogo entre culturas
militantes distintas, mas que compartilham certos objetivos.

O que nos falta é um fórum de lutas, uma assembleia das ruas.

Um espaço assim, que não fosse controlado por nenhuma organização, mas que estivesse aberto aos militantes de qualquer organização e a quem não é filiado a nenhuma delas, poderia servir de convite à participação dos não iniciados e agregar a experiência dos iniciados, abrindo a possibilidade de diminuir a desconfiança mútua e abrir caminho para uma cooperação entre grupos que adotam táticas distintas, mas que podem ser complementares.

Outra condição fundamental para que um espaço assim pudesse florescer é que não se pautasse pela lógica eleitoral.

Uma das razões do desgaste da política institucional no Brasil (e em várias outras partes do mundo) é a necessidade de reduzir todas as discussões ao calendário eleitoral.

Uma verdadeira assembleia das ruas seria um espaço de discussão e formulação de um projeto popular para a cidade, para o estado e para o país, que articulasse seus integrantes em torno de bandeiras comuns, mas que não se colocasse a serviço de campanhas eleitorais de A,B ou C.

Um espaço que pudesse se tornar um poder constituinte da multidão, definindo o que o povo quer do seu governo. Caberia ao governo de turno, a partir daí, lidar com essas demandas.

Os zapatistas, no México, já nos forneceram um modelo desse tipo de organização ao lançarem, em 2006, sua “Outra campanha”, uma mobilização nacional que pretendia ir além do calendário eleitoral e formular um verdadeiro projeto popular independente das ambições dos partidos da ordem.

É claro que em um espaço como esse a participação de militantes partidários e sindicais seria mais do que bem vinda, mas sempre como indivíduos, e não como representantes de suas organizações, o que exigiria daqueles mais acostumados com as formas tradicionais de militância um esforço para abrir mão da ambição de ditar a linha política a ser seguida por todos os participantes dessa articulação.

Por outro lado, exigiria dos adeptos da tática black bloc um esforço para coordenar suas ações com as dos demais grupos, muitas vezes se abstendo de realizar ataques ao patrimônio público e privado quando esse tipo de ação puder comprometer outros grupos que adotam táticas distintas.

Acredito, sinceramente, que a criação de um espaço plural como este poderia diminuir o fosso entre a “velha” e a “nova” esquerda e abrir novas e estimulantes perspectivas para a luta popular no Brasil.

Mas, para isso, seria preciso um exercício de compreensão mútua que fosse além dos preconceitos e buscasse aprender a respeitar a diferença e a diversidade, vendo nela não uma fraqueza, mas uma força do movimento.


*Bruno Fiuza é jornalista, historiador e mestrando em História Econômica na Universidade de São Paulo

Os cafetões de minorias




Alexandre Borges


Se você quer ser famoso, esqueça o Big Brother e vá cursar Ciências Sociais. Parte da imprensa do país agora acredita que sociólogos e afins são entes superiores de razão ou oráculos da vida moderna. Alguém precisa avisar Tatá Werneck que há um caminho mais curto para Valdirene chegar ao estrelato.

De preço de ingressos na Copa às UPPs, do Bolsa Família até o sumiço do Amarildo, da condenação de mensaleiros até meia dúzia de peitos caídos na praia, é ligar a tevê e ver um cientista social ou historiador dando ares supostamente científicos à má poesia engajada dos candidatos a Bertold Brecht que, como poetas de esquerda, não superam nem Tarso Genro.

Faço um convite aos analistas de rolezinhos: se você ainda não foi, vá a um shopping center num bairro de periferia e surpreenda-se ao descobrir que são locais iguais aos que você conhece e que são frequentados por, veja você, moradores da periferia. Se você diz na imprensa que impedir 6 mil adolescentes de invadir um shopping ao mesmo tempo em Itaquera, no ponto extremo da Zona Leste de São Paulo, é “discriminação”, está simplesmente mentindo. E não é uma mentira qualquer.

Se houvesse uma preocupação legítima com a “inclusão” desses jovens, que melhor exemplo no país do que os shoppings? Em seus espaços privados, eles abrem as portas gratuitamente para a população ter opções de lazer, alimentação e consumo totalmente voluntários, num ambiente seguro,
confortável, livre e democrático. Já os governos que obrigam esses mesmos cidadãos a trabalhar até cinco meses do ano apenas para pagar impostos são incapazes de dar algo remotamente parecido.

E a quem interessa transformar um evento que seria naturalmente descartado com o tempo pelos próprios jovens em passe livre para arrastão, vandalismo e saques ao som de palavras de ordem? Se há crime, nesse caso de lenocínio ideológico, de cafetinagem sociológica, é preciso identificar os proxenetas do rolezinho alheio.

Política é feita de narrativas e a esquerda viu no rolezinho uma oportunidade de criar má poesia ou sociologia de pé-quebrado com eles, vendo em jovens que frequentaram shoppings a vida inteira supostos excluídos que não poderiam entrar nestes mesmos shoppings, na tentativa de fabricar factoides para proselitismo político em ano eleitoral. Segundo uma pesquisa recente, 71% dos paulistanos são contra os rolezinhos e, apesar da tentativa de doutrinação sistemática nos meios de comunicação, o eleitor ainda não comprou a cascata.

As manifestações do ano passado pegaram a esquerda de surpresa, sem uma narrativa pronta para vender aos vassalos de sempre na academia e na imprensa, mas os rolezinhos forneceram um material dramático melhor aos roteiristas partidários. Se 6 mil jovens não podem entrar num shopping ao mesmo tempo, gritam “preconceito!” e energizam a combalida militância pós-mensaleira, tão desesperada em busca de um discurso para chamar de seu.

O Brasil teria neste ano uma oportunidade histórica de apear do poder a esquerda e suas narrativas orwellianas, mas infelizmente ainda não há o que colocar no lugar. Caso consigam mais quatro anos, que esse tempo seja usado diligentemente pela sociedade para a construção de uma real e sólida alternativa política para que o Brasil deixe de fazer apenas rolezinho entre as nações mais desenvolvidas do mundo.



Alexandre Borges, publicitário, é diretor do Instituto Liberal.

Princesa D. Maria contando a História da Independência



A Princesa Dona Maria Teresa de Orleans e Bragança participou do Projeto Alecrim, que busca preservar a cultura e as tradições do Brasil entre brasileiros que vivem no exterior. O Projeto é focado nas crianças, com apresentações lúdicas e pedagógicas.

Sua Alteza Real contou sobre seu tetravô, o Imperador Dom Pedro I do Brasil, na sede do Projeto Alecrim em Bruxelas, capital da Bélgica.

"Eu vim aqui para contar para vocês a história do meu tataravô, o Dom Pedro I. Ele é o pai, do pai, da minha bisavó. A princesa Isabel. Ele nasceu quase 200 anos atrás.

O nome completo dele era: Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. 16 nomes! Mas Pedro era suficiente! Esta é uma tradição de família, é o nome pessoal, mais o nome dos padrinhos e madrinhas, seguido o nome dos arcanjos protetores da criança. Eu mesma tenho 9 nomes!



Princesa Dona Maria Teresa
Ele era o filho do rei de Portugal que se chamava D. João VI e a mãe dele era a Dona Carlota Joaquina. Quando ele tinha 9 anos, ele e a família real tiveram que sair de Portugal devido a invasão de Napoleão à Portugal.

Nesta época só tinha navios, barcos, cavalos e carruagens. Como ele tinha que atravessar todo o oceano Atlântico, eles foram em enormes navios para o Brasil. A viagem de navio até o Brasil durou vários meses. Foi super difícil e desconfortável. Imagine você ficar o tempo inteiro num navio cheio de gente, com muitas pessoas com enjoo por causa das ondas... Foi nesta viagem que cresceu o fascínio de Pedro pelos navios. A construção de navios foi uma atividade que ele se dedicou muitas horas quando adulto.

O Pedro era um menino que teve uma educação muito religiosa, rezava, ia a missa, e lia muito, e tudo em latim. Ele gostava muito de praticar esportes, como a equitação, e tinha especial prazer pela música, sendo o compositor do então Hino Nacional de Portugal até 1920 e do atual Hino à Independência do Brasil. Quando ele chegou ao Brasil, ele ficou maravilhado. Tinha tanta coisa legal no Brasil. O Brasil é um país mais quente; dava para brincar o “ano inteiro” no jardim, tinha muitas árvores, muitas frutas... E quando a família real chegou ao Brasil, ainda não tinha nenhum palácio todo chique e cheio das coisas, com todo o rigor como Pedro tinha em Portugal. Por isso eles ficaram morando provisoriamente numa das casas grandes e bonitas que já existia no Brasil. Que era ótima para as pessoas ricas que moravam nesta época, mas não muito apropriada para os reis segundo as tradições de Portugal. Para Pedro, agora, era muito fácil sair da casa e “passear” um pouco pelas ruas, o que normalmente não acontecia aos filhos dos reis na Europa. Os filhos dos reis nesta época, ou seja, os pequenos príncipes, eram superprotegidos dentro dos castelos. Mas vivendo no Brasil, e não tendo que morar num palácio, o Pedro tinha muito contato com a natureza e o povo brasileiro.

Quando ele completou 18 anos ele casou com a filha do imperador da Áustria, a Dona Leopoldina. Antes de casar, eles só se conheciam por pinturas!!!

Quando o pai do Pedro teve que voltar para Portugal, ele assumiu a regência do Brasil. Ou seja, ele ficou o responsável pelo Brasil em lugar do pai: o Pedro era então o “príncipe regente”. Pedro gostava tanto do Brasil que ficou feliz em poder ficar no Brasil mesmo que os seus pais fossem embora. Como o Pedro, agora conhecido como D. Pedro I, não precisava mais pedir a permissão do pai para tudo, ele mesmo podia decidir algumas coisas sozinho, ele começou a “melhorar” algumas coisas no Brasil. E cada vez ele ia fazendo mais, mais e mais e cada vez menos ia perguntando para o pai. Um ano depois, o pai dele escreveu uma carta que o Pedro deveria voltar para Portugal porque o Pedro não podia continuar fazendo todas as coisas que ele queria fazer, sem nunca consultar ao pai. Mas o Pedro não quis ir embora. Ele queria ficar no Brasil, ele adorava o Brasil e o povo brasileiro gostava muito dele também, porque o D. Pedro I estava melhorando muito o Brasil. No dia que ele recebeu a carta do pai, D. Pedro I disse na frente de todo mundo e bem alto:

'Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico'.


Este é o famoso dia do fico, em janeiro de 1822. E ele ficou no Brasil e não voltou para Portugal.

O pai dele, D. João VI, quando soube que o filho estava desobedecendo, ficou furioso, mas muito furioso. E mandou uma carta com um monte de 'castigos' para o filho e para o povo brasileiro (que tinha influenciado o filho).

D. Pedro estava viajando a cavalo ao lado do rio Ipiranga, quando chegou o mensageiro para entregar a carta do pai, o rei de Portugal. Vocês nem imaginam como o Pedro ficou 'bufando' de raiva ao ler a carta. E ele pensou: 'eu não vou obedecer, eu e o meu povo brasileiro não vamos nos sujeitar a isso, nós já somos fortes e não precisamos mais de Portugal'. Então, ele pegou a espada dele, ameaçou assim para o céu, e gritou bem alto:

'Independência ou morte!'.


E desde esse dia, o Brasil não mais dependeu de Portugal, é um pais independente. E a gente diz que neste dia, Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil."

A Princesa Dona Maria Teresa do Brasil nasceu em Jundiaí do Sul, Paraná, no dia 14 de julho de 1959, é a décima primeira filha do Príncipe Dom Pedro Henrique (1909-1981), Chefe da Casa Imperial, e da Princesa Dona Maria Elizabeth (nascida Princesa da Baviera; 1914-2011). Sua Alteza Real tem uma irmã gêmea, a Princesa Dona Maria Gabriela de Orleans e Bragança.

Formada em Desenho Industrial pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a Princesa renunciou a seus direitos Dinásticos em 30 de outubro de 1995. Em 4 de novembro do mesmo ano, ela se casou, no Rio de Janeiro, com Johannes Hessel de Jong (nascido em 1954), membro da Nobreza Neerlandesa. O casal teve dois filhos: Johannes Pedro e Maria Pia de Jong (nascidos em 1997 e 2000, respectivamente).

Sua Alteza Real reside em Bruxelas, com o marido e os filhos.

A Igreja Católica e Conversão


Por Dale Ahlquist
Tradução: Pedro Erik Carneiro
Tradução do original The Catholic Church and Conversion [Lecture 49], disponível no site Chesterton.org


Pode ser surpresa para alguns saber que Chesterton foi criado como Unitário. A descoberta da “ortodoxia” Cristã (como descrito no seu livro “Ortodoxia”) o levou para ser adepto da Igreja Anglicana em 1901, mais tarde ele diria que isso foi apenas sua conversão incompleta ao Catolicismo. Antes de se tornar Católico, Chesterton reconheceu o fato de que ele estava conduzindo muitas pessoas para a Igreja Católica sem que ele mesmo tivesse ingressado. Mas ele continuava conduzindo-as. Apenas em 1922, com a idade de 48 anos, Chesterton foi recebido dentro da Igreja Católica Romana. Isto foi um choque para muitos. Muitos observadores ficaram surpresos pois achavam que ele já era Católico, uma vez que tinha defendido a Igreja durante muitos anos. Mas muitos outros que o conheciam mais de perto, amigos e oponentes, achavam que isso nunca iria acontecer. George Bernard Shaw atirou uma carta dizendo: “Gilbert, isto foi longe demais”.

Cinco anos depois de fazer parte da Igreja, Chesterton escreveu The Catholic Church and Conversion (A Igreja Católica e Conversão). Ele disse que embora todos os caminhos levem a Roma, cada peregrino é tentado a dizer que todos os caminhos são como o dele. “A Igreja é uma casa com cem portas; e dois homens não entram exatamente pelo mesmo ângulo.” Mas ele não precisava ter se preocupado em fazer uma declaração tão pessoal. Quase todo convertido reconhecerá os três estágios para conversão que Chesterton descreve: O primeiro estágio é Dedicar Atenção à Igreja. O segundo é Descobrir a Igreja. E o terceiro é…Fugir da Igreja.

O convertido entra no primeiro estágio quase sem perceber quando ele decide ser justo com a Igreja Católica. Ele não pensa que a religião de Roma é verdadeira, mas, pela primeira vez, ele também não acha que as acusações contra a Igreja sejam verdadeiras. Este é um passo importante que o leva para o longo e agradável segundo estágio, no qual é completamente fascinante aprender o que a Igreja Católica realmente ensina. Chesterton disse que esta é a parte mais agradável da trajetória, “mais fácil que entrar na Igreja e muito mais fácil que tentar viver uma vida Católica. É como descobrir um novo continente cheio de flores estranhas e animais fantásticos, mundo selvagem, mas hospitaleiro.” Mas então a partir daí o convertido de repente, em estado de choque, se dá conta que ele não pode ficar mais imparcial em relação à Igreja Católica.

É impossível ser justo com a Igreja Católica. No momento em que o homem cessa de atacá-la, ele sente uma atração em direção a ela. No momento em que ele cessa de gritar, ele começa a ouvi-la com prazer. No momento em que ele tenta ser justo ele começa a admirá-la.

Mas então chega o estágio final: medo. “Uma coisa”, diz Chesterton, “é concluir que o Catolicismo é bom e outra é concluir que é o certo. Uma coisa é concluir que é certo, outra é concluir que é sempre certo”. Neste estágio delicado, Chesterton observa que não são mais os inimigos da Igreja que não permitem a entrada do convertido, mas “apenas a palavra de um Católico pode mantê-lo fora do Catolicismo. Uma palavra estúpida de um membro da Igreja faz mais estrago que cem palavras estúpidas de pessoas de fora da Igreja.” Ele aponta para um problema que ainda assola a Igreja: Católicos que não apenas fazem um péssimo trabalho em apresentar a fé Católica, mas também afastam pessoas que estão querendo entrar na Igreja.

Todo Católico deveria ler este livro de Chesterton. Pois além de ficar mais preparado para lidar com convertidos, eles apreciarão fortemente a fé na qual eles desejam entrar. Especialmente a percepção que a Igreja, como disse Chesterton, “é maior de dentro que ela é de fora.”

Toda era tenta criar uma nova religião, algo que se adapte melhor com o momento, mas novas religiões são apenas adaptadas para aquilo que é novo. E o que é novo fica velho logo. Chesterton argumenta que a Igreja Católica tem todo o frescor de uma nova religião, mas ela é também rica como uma religião velha. É uma religião que amarra os homens a moralidade mesmo quando eles não estão com vontade de usar a moral. A Igreja algumas vezes tem de ir na contramão do mundo. Ela pregou reconciliação social para facções raivosas e agressivas que preferiam destruir uns às outras. Ela pregou caridade para velhos pagãos que não acreditam nisto, assim como ela prega hoje castidade para novos pagãos que não acreditam nisto.

Nós não precisamos de uma religião que está certa quando nós estamos certos. O que nós precisamos é de uma religião que está certa quando nós estamos errados.

Chesterton já tinha provado que era um defensor da tradição contra modismos, mas ele deixou claro para céticos e detratores que uma das razões para se tornar Católico era que a Igreja Católica “é a única coisa que salva um homem da escravidão degradante de ser uma criança na idade dele.” Ele descobriu que tudo o mais era mais estreito e mais restritivo. Na Igreja, ele viu liberdade. Liberdade alucinante, ele disse. Se isto não é surpresa o bastante, deve ser sóbrio se não estonteante para qualquer leitor honesto de Chesterton considerar que este gigante intelectual encontrou um lar para sua mente na Igreja Católica. Não é um lar meramente para descansar, mas um lugar de grande excitação e atividade. Isto está revelado em um das frases mais desafiadoras que Chesterton já disse: “Se tornar um Católico não é deixar de pensar, mas aprender a pensar.”

Tudo que seu professorzinho do méqui não lhe ensinou sobre... negritude, escravidão e racismo





O brasileiro médio jamais para para refletir a questão "por que negros foram escravizados no intervalo de tempo entre os séculos XV e XIX?" e a lacuna deixada pela inexistência dessa reflexão é ocupada na mente dessas pessoas por uma gosma disforme de significados extraídos de discursos que não fazem absolutamente nenhum sentido, mas são criados apenas para colocar seus receptores em um estado emocional específico. Esse simulacro de raciocínio é construído pela mídia impressa, pelas novelas da rede Globo, pelas instituições ditas "de ensino", todas elas instâncias dominadas por esquerdistas (aqui cabe lembrar que a mente é como um pedaço de terra fértil, se não for jardinado todos os dias, se seu dono não fizer valer todos os dias seu direito de escolha do que pode e do que não pode crescer em seu pedaço de terra, rapidamente toda a extensão do terreno — e da mente — será ocupada por erva daninha).

O pathos geral aceito pela sociedade é que pessoas oriundas do continente africano foram escravizadas no Brasil porque tinham a pele escura. O que é, obviamente, um disparate completo. É muito fácil desmontar essa mendacidade, basta se reportar à História anterior ao século XV. Durante milênios de registros históricos há várias ocorrências de nações inteiras que foram escravizadas e A GRANDE MAIORIA DELAS ERA COMPOSTA POR PESSOAS DE PELE BRANCA. Judeus brancos foram escravizados por egípcios, "ucranianos" bárbaros foram escravizados por romanos, gregos e persas escravizaram vários povos e todos eles eram compostos de indivíduos de pele BRANCA. A própria História da humanidade é a História de grupos humanos lutando para dominar ou se libertar do domínio de outros grupos.

A ditadura do politicamente correto, ao repetir o mantra "os negros foram vítimas da escravidão", sem deixar claro, por exemplo, que a maioria dos negros que foram tornados escravos foi escravizada por OUTROS NEGROS, trabalha para estabelecer um consenso social no qual a consequência lógica de que, SE "os negros" foram "vítimas", ENTÃO "os brancos" foram os "algozes". Ninguém nunca vai ouvir o movimento negro ou a mídia dizer "ALGUNS negros foram vítimas da escravidão, mas OUTROS TANTOS lucraram com ela". Muito menos "se houve negros que foram escravizados, quão maior não foi o número de brancos que foram IGUALMENTE escravizados". A ideia é repetir o enunciado "os negros foram vítimas da escravidão" até que as mentes se aprisionem em uma realidade paralela na qual "negros são vítimas dos brancos, porque o fato de alguém ter a pele negra o torna, automaticamente, inocente e bom, ao passo que possuir a pele branca é motivo para tornar alguém pervertido e mau".

Esse tipo de "raciocínio", além de ser pernicioso em si mesmo, principalmente por se basear em falseamentos da realidade, induz a outros erros de raciocínio, ao tomar como pressuposto uma mentalidade COLETIVISTA. Para ficar mais claro o que estou afirmando nesse ponto, usarei um dos comentários que foram feitos ao lado da imagem publicada na página para abordar a questão da escravidão. Um cidadão, cuja massa encefálica foi visivelmente liquefeita pelo sócio construtivismo, se utilizando de ironia barata, escreveu: "Tão bonzinho o homem branco". Percebam que tal comentário é exatamente a materialização de todos os processos que foram descritos até aqui. Uma colocação desse tipo, obviamente, não faz nenhum sentido (nem mesmo o sentido que seu autor imagina estar emitindo), uma vez que o coletivo "homem branco" não pode ser nem "bonzinho" nem "mauzinho", exatamente porque é composto de uma infinidade de INDIVÍDUOS, entre os quais alguns são bons e outros são maus.

De uma forma ou de outra, não há nenhuma relação de continuidade entre a fibra moral de um individuo e a cor de sua pele. Essa relação é apenas uma mera falácia espertamente construída por intelectuais orgânicos, para fazer a massa ignorante aceitar a agenda esquerdista. Além disso, antes que alguém se permita fazer um julgamento moral tão infeliz, é preciso compreender que a ideia de "humanidade", como a instância superior que abarca TODOS os grupos humanos é relativamente recente. Ideias como a de que um ser humano possui determinados direitos apenas por ser um ser humano são mais recentes ainda. Se nos livrarmos da mentalidade moderna e olharmos para a História entendendo as vicissitudes que assombravam os homens de épocas anteriores, poderemos compreender que, em um mundo primitivo, sem as instâncias sociais das quais gozamos hoje (e sem o desenvolvimentismo da política internacionalista moderna), o ato de escravizar chegava a ser uma necessidade de sobrevivência de cada grupo. Uma vez que se o grupo não fosse capaz de impor sua estrutura de poder ao grupo com que ele se relacionava, com certeza sofreria a imposição da estrutura de poder dele.

Nesse contexto, ao longo do primeiro milênio de nossa época, o cristianismo estabeleceu uma espécie de "cimento cultural" que, de certa forma, pacificou a Europa. Como todos os grupos oriundos do continente europeu partilhavam o lastro de sua própria cultura (a religião cristã), a compreensão que esses grupos tinham por "nós" se expandiu para comportar os grupos imediatamente próximos a eles. Não que as guerras tivessem cessado de uma hora para outra, mas a criação de determinadas estruturas sociais fizeram com que não mais fizesse sentido que um cidadão de uma cultura cristã escravizasse o cidadão de outra cultura igualmente cristã. Dito de outra fora, em dado momento, o entendimento que os povos europeus tinha da ideia de "nós" que antes significava "nós que pertencemos a uma tribo de 1.000 indivíduos" se expandiu até alcançar o tamanho de "nós que somos europeus cristãos". Os habitantes do resto do mundo ainda eram os "eles", ainda não era reconhecidos pela cultura dominante como "semelhantes em humanidade".

Assim, desde o fim do Império Romano que a prática da escravidão havia entrado gradualmente em desuso na Europa. Mas, ao alcançar a África subsaariana, os europeus encontraram um continente no qual o cristianismo não havia penetrado, ou seja, no qual as tribos guerreavam entre si e se escravizavam umas às outras. No que diz respeito ao que hoje nós chamamos de "Direitos Humanos", a África estava culturalmente atrasada milênios em relação à Europa. Como a concepção de "nós" do europeu não abarcava os povos não-cristãos e como esses povos se escravizavam uns aos outros, então pareceu perfeitamente cabível à maioria dos europeus que eles poderiam lançar mão da instância "escravidão humana" (que, de uma forma ou de outra, já estava sendo praticada no continente africano) para servir a seus próprios interesses.

A compreensão dos processos acima descritos faz cair por terra a outra coluna de sustentação da mentalidade mantida pelo brasileiro médio sobre a questão da "negritude, escravidão e racismo", que é a ideia de que o povos africanos foram escravizados porque possuíam a pele negra. NÃO HÁ NENHUMA relação de continuidade entre o fato desses povos terem a pele negra como fato deles terem sido escravizados pelos povos de pele branca. É trivial e fortuita a condição de que povos de diferentes continentes tenham cores de pele diferentes. Os motivos que levaram os europeus a escravizarem os africanos foram:
1) O estado de desenvolvimento da mentalidade dos povos europeus, na época, não os fazia reconhecer povos não cristãos como "nós" (e não há nenhum problema nisso, uma vez que se observarmos globalmente, podemos perceber que todos os outros grupos humanos tinham seu próprio conceito de "nós" e todos eles eram ainda mais restritos do que o conceito alcançado pelo europeu do século XV).

2) Os povos asiáticos eram culturalmente e tecnologicamente tão desenvolvidos quanto os europeus, o que obrigou os europeus a respeitá-los em um grau que a primitividade tecnológica dos africanos e americanos não permitiu. Sobretudo no que diz respeito aos africanos (com a exceção do norte da África, que tinha sido aculturada pelos muçulmanos) todas as línguas ao redor das quais seus grupos humanos se organizavam eram ÁGRAFAS, ou seja, eram línguas sem escrita. A escrita é a condição necessária para que haja desenvolvimento tecnológico. É a escrita que permite que haja acumulo de conhecimento pelo processo do legado civilizacional. Embora houvesse na África subsaariana impérios capazes de gerar até mesmos concentrações populacionais relativamente volumosas ("cidades grandes" — como é o caso, por exemplo, do Mali e do Dahomé), a cultura desses impérios era primitiva, eles não possuíam literatura, nem filosofia, e tecnologia menos ainda. Eram impérios erguidos em cima de culturas tribais que vivam no "tempo circular da oralidade". O europeu, de forma completamente compreensível, via o homem proveniente de tais culturas como inferior. Portanto, porque não se aproveitar do trabalho mecânico deles, da mesma forma como se aproveitavam da força mecânica do gado que gira o moinho? (lembre-se que as travas que nos impedem de fazer isso hoje simplesmente não existiam na mente dos europeus, portanto não se trata de uma discussão moral, já que os parâmetros morais com os quais atualmente julgamos a instância "escravidão" ainda não tinham sido desenvolvidos).
Há casos de um ou outro japonês que, na época, tenha sido trazido, por europeus, para a América, como escravos, mas o próprio grau do desenvolvimento cultural e tecnológico desses povos impedia que o número de indivíduos escravizados oriundos dessas culturas fosse comparável ao número de africanos. Portanto, se os africanos foram escravizados, tal processo não foi induzido pela cor de sua pele. Se os africanos foram escravizados em massa por europeus o motivo pelo qual isso aconteceu foi o mesmo motivo que provocou a escravidão de TODOS os povos que foram escravizados na História da humanidade: o povo escravizado era culturalmente, tecnologicamente e/ou militarmente INFERIOR ao povo escravizador.

O que é e como surge o racismo

Feitos os esclarecimentos acima, finalmente podemos ter mais clareza sobre uma questão que é uma das mais deturpadas pela burrice que reina absoluta nas caixas cranianas dos brasileiros, o chamado "racismo". Segundo a versão vendida a granel nas novelas da rede Globo o racismo é uma espécie de deformidade moral causada pela maldade subjacente ao ser humano de pele branca e da qual as únicas vítimas são os seres humanos de pele negra, os quais possuem uma bondade inerente que lhes impossibilita de praticar qualquer tipo de discriminação baseada na cor da pele, mas apenas estão sujeitos a sofrer esse tipo de discriminação. Afora o caráter maniqueista dessa falácia, trata-se de um raciocínio fruto de confusão e que causa mais confusão ainda. Para sermos capazes de desatar tal nó, precisamos antes entender o que é "discriminação" e o que é "preconceito".
1) Discriminação é a ação de diferenciar. A discriminação nasce da capacidade que o ser humano tem de fazer ESCOLHAS. Uma pessoa que, na hora do almoço, opte por não se servir de churrasco, mas coloque no prato um pedaço de tofú praticou a DISCRIMINAÇÃO contra o churrasco. Discriminar não é uma atitude imoral, pelo contrário, é uma atitude inerente ao ser humano. Durante o curso de nossas vidas, estamos constantemente discriminando, inclusive pessoas. Afinal, é humanamente impossível nos relacionar com TODAS as pessoas do planeta, então nós escolhemos algumas pessoas com as quais nos relacionaremos (as que ficaram de fora dessa escolha foram discriminadas) e mesmo dentro desse grupo, nossa atenção é repartida de forma desigual. Algumas pessoa pelas quais guardamos maior predileção recebem mais atenção e outras menos, na proporção direta dos nossos valores, daquilo que consideramos importante ou daquilo que nos agrada (isso também é discriminar). A palavra discriminação foi tão martelada pela mídia nos últimos anos que ganhou uma conotação pejorativa, mas conforme pode compreender quem entendeu a explicação acima não há nada de errado em discriminar.

2) Preconceito é o conceito que temos sobre determinado objeto, fato ou situação de forma prévia ao momento em que experimentamos esse objeto, fato ou situação. Todos nós temos preconceitos e, sem eles, a vida seria simplesmente impossível. Alguém que nunca tenha experimentado comer peixe cru pode ter uma reação de ojeriza ao mero pensamento de fazê-lo, sem nem mesmo ser capaz de imaginar o gosto que tem a iguaria e, portanto, sem de fato saber se esse gosto agrada ou não ao seu paladar. Essa é uma reação de preconceito. Cada ser humano tem seu próprio limite em relação a experimentar o novo e esse limite tende a ser mais restrito à medida que envelhecemos. Aquilo que não experimentamos enquanto novos vai se tornando cada vez mais difícil que experimentemos enquanto vamos avançando nos anos. Os preconceitos são gerados a partir de experiências que nossa estrutura psicológica considera "semelhantes" à experiência sobre a qual estabelecemos um conceito prévio ou por determinadas ideias com as quais entramos em contato e que as acatamos como justas, pertinentes ou verdadeiras. Sobre o preconceito gerado por experiência semelhante, podemos dar o exemplo da situação em que um indivíduo não queira viajar para o Mato Grosso. Em dado momento da vida dele, ele esteve em uma cidade desse estado, foi destratado e ele acredita que a situação vai se repetir se ele retornar lá. Assim, com base em uma experiência passada, ele diz "mato-grossenses são mal-educados". Percebam que a experiência humana não é capaz de reagir de forma independente a cada uma dos elementos do conjunto "mato-grossenses", até porque nenhum ser humano é capaz de conferir por si só o grau de educação de cada mato-grossense que existe. Assim, resta se reportar à experiência passada e extrair dela o pathos geral que será atribuído às possíveis ocorrências futuras da mesma experiência. Da mesma forma que a palavra "discriminar" a palavra "preconceito" sofreu todo tipo de deturpação semiótica, não há nada de errado com aquilo à qual ela se refere e, na verdade, a vida seria inviabilizada se só pudêssemos formular conceitos a posteriori.

Os mecanismos envolvidos na ação de discriminar e os "conceitos prévios" (pré-conceitos) são a base do chamado "racismo". Racismo é a ação de discriminar alguém com base no critério de raça. Embora a lei escrita afirme que o racismo é proibido, de fato o que é proibido é a "comunicação do racismo". É simplesmente IMPOSSÍVEL impedir que as pessoas se baseiem no critério de raça para estabelecer suas escolhas pessoais, porque não somos capazes de saber em qual critério alguém se baseou para estabelecer uma repulsa a um objeto, fato, circunstância ou outra pessoa. Alguém pode considerar que pessoas negras são feias e passar a vida toda sem namorar com nenhum negro (o PT ainda não criou uma lei que obrigue que cada brasileiro destine uma percentagem do número de relacionamentos que ele teve na vida para ser preenchida por relacionamentos com pessoas negras, embora eu não devesse estar apontando essa lacuna aqui, para não dar a ideia). Alguém que não se sinta atraído por pessoas de uma determinada cor da pele e, por conta disso, não estabeleça enlaces amorosos com pessoas desse tipo está, de fato, praticando o racismo, mas é um tipo de prática de racismo que (sem a lei imaginada acima) simplesmente não pode ser punido. Contudo, se essa pessoa confessasse esse "movimento interno de sua alma" (que considera que pessoas de determinada cor de pele não são atraentes) em um texto impresso em um jornal de grande circulação, com certeza receberia algum tipo de punição do Estado. Da mesma forma, um gerente de R.H. poderia tranquilamente não contratar alguém com base na própria aversão por pessoas negras, desde que esse motivo não fosse comunicado e ficasse restrito ao seu mundo interno, ou compartilhado apenas com pessoas de sua confiança. Se esse gerente de R.H., no entanto, for responsável por uma equipe maior do que 10 pessoas, e não tiver nenhum negro na equipe, nesse caso correira o risco de ser acusado por algum movimento negro de "discriminação", pois o movimento alegaria que o fato da composição étnica da equipe de trabalho não refletir a proporção da composição étnica da população brasileira não é fruto do acaso, mas sim fruto do racismo de quem realiza o processo de seleção.

Aqui, entramos no cerne da questão do racismo: por que alguém haveria de não gostar de negros? De onde nasceria a "concepção prévia" (preconceito), existente na cabeça de um gerente de R.H., que o levasse a acreditar que uma pessoa negra não possua habilidades tão bem desenvolvidas quanto uma pessoa branca? Esse preconceito tem origem no mesmo ponto que origina TODOS os preconceitos que existem no mundo: as experiências anteriores, mas no caso do preconceito contra negros há alguns pormenores. Vamos esclarecê-los:

Em todos os lugares do mundo há preconceito contra imigrantes. Em geral, os grupos que já estavam em determinada localidade tendem a torcer o nariz para os grupos que chegam depois. Isso acontece porque uma pessoa não deixa a localidade na qual estão suas raízes, a não ser que esteja passando por dificuldades. A título de ilustração, vamos estudar o preconceito de sulistas contra nordestinos. A parcela da população nordestina que deixa o nordeste e migra para o sul é, por definição, aquela que está fragilizada, em situação de miséria. A elite da sociedade do nordeste está bem instalada e protegida, raramente deixará seu local de origem para morar no sul. 

Assim, toda vez que um sulista vê um imigrante nordestino, ele vê alguém que, necessariamente, pertence ao grupo dos menos instruídos, menos cultos, menos educados dos nordestinos. A repetição dessa experiência leva a mente dos sulistas (aqueles que sejam tacanhos o suficiente para desconhecer a vasta colaboração que muitos nordestinos deram para a cultura do país) a associar o próprio sotaque do nordeste à falta de cultura, de instrução e de escolaridade (esses sulistas, ignorantes a seu próprio modo, simplesmente desconhecem que há milhares de pessoas no nordeste que falam com o sotaque típico da região E concordam o número do artigo com o plural do substantivo). Esse é, em linhas gerais, o processo de onde nasce o preconceito contra imigrantes. Dependendo da situação inicial, esse tipo de preconceito pode sobreviver por décadas ou até mesmo séculos dentro de uma cultura. E é um processo tão poderoso que não respeita a condição econômica. Para ilustrar isso, podemos citar o preconceito que a família Kennedy, apesar de riquíssima, sofria dentro da sociedade americana, por conta de sua origem irlandesa. Como havia (embora tenha enfraquecido, ainda há) um forte preconceito na sociedade americana (em sua maioria protestante) contra os irlandeses (católicos), mesmo detendo o poder econômico, os integrantes da família Kennedy não conseguiam adentrar determinados grupos sociais. (Espero que o leitor já tenha se dado conta de que todos os sofrimentos vendidos pelo mimimi do movimento negro como fruto da perseguição de brancos contra negros, na verdade, acometem muito democraticamente a diversos grupos humanos e não respeita nem cor de pele, nem situação econômica).
Obra do pintor orientalista austríaco,
Ludwig Deutsch (1855 - 1935),
retratando um soldado de um dos
 reinos da África moura. 

No caso dos negros, eles não vieram para o Brasil em busca de uma vida melhor, mas foram obrigados por instâncias de poder superior. O mero fato de, na qualidade de imigrantes (forçados, que seja), não dominarem a língua local e outros aspectos culturais, é suficiente para gerar um processo de discriminação e preconceito nos moldes do que foi explicado acima. Mas havia o agravante de que a grande maioria dos negros que aqui aportavam eram oriundos (conforme já foi dito) de sociedades que, de fato, eram culturalmente e tecnologicamente muito inferiores à sociedade brasileira. Aqui cabe um parentese para abordar o preconceito que havia entre os próprios negros. Como o norte da África foi invadido pelos muçulmanos, as sociedades dessa localidade receberam uma injeção muito grande de cultura e tecnologia proveniente do legado civilizacional mouro. Muitos negros oriundos do norte da África detinham conhecimentos como por exemplo matemática, de agrimensura, técnicas avançadas de plantio etc. Além disso, tinham uma facilidade maior para aprender o português. Esses eram chamados de "negros malês" e costumavam custar mais de cinco vezes o preço de um escravo "normal". Como custavam muito caro, eram tratados à pão-de-ló. Não dormiam na senzala, mas sim na casa grande e, de uma maneira geral (até porque aprendiam português mais rápido do que os outros negros) tinham mais proximidade com a família do dono das terras (tomando as fazendas como unidades de produção, os negros malês ocupavam cargos que hoje seriam chamados de "gerentes"). Esses negros, cientes de sua superioridade cultural em relação aos negros ignorantes (a grande maioria saídos do subsolo das pirâmides sociais das tribos e reinos da África), costumavam praticar a discriminação contra os outros negros (isso mostra o quanto a prática da discriminação é natural do ser humano e não depende necessariamente de cor de pele). Ao mesmo tempo, era muito comum que os integrantes do topo das pirâmides sociais de certos reinos africanos viessem para o Brasil para estudar. Eram nobres e reis africanos que aqui eram tratados com toda reverência pela população local branca, a qual lhes atribuía o prestígio compatível com a posição social que eles ocupavam em sua terra natal.

No entanto, o grau de alienação imposto pela repetição dos mantras do politicamente correto é tão grande, que as pessoas passam a se basear em situações que não existem em nenhum lugar fora da cabeça delas para fazer inferências sobre a realidade atual. Por exemplo, certa feita eu estava em uma palestra sobre "negritude", cujo palestrantes era desses negros militontos (que usam camisa com motivos gráficos de uma cultura africana idealizada por brancos) e, com muita enfase e dispêndio de energia, ele bradava que a opção do Ministério da Educação de cobrar as línguas inglesa e espanhola como segunda língua do vestibular era fruto de um plano maquiavélico da elite branca para prejudicar os negros. Ele dizia ainda que os negros deveriam lutar para que tivessem a opção de serem cobrados, no lugar do inglês e espanhol, conhecimentos de iorubá (esse é o nome de um dos mais importantes dialetos que eram falados na África subsaariana quando do período da escravidão). Afora o evidente devaneio de que hoje há uma quantidade significativa de negros brasileiros capazes de se expressar em iorubá (situação que só existe na cabeça dele), eu tive que interromper a palestra para pedir que ele citasse somente UM ÚNICO livro de importância para a cultura mundial que tivesse sido escrito em iorubá, e do qual os negros seriam privados se não conhecessem tal idioma (dialeto). Diante da pergunta, o militonto gaguejou, balbuciou, fez cara de paisagem e mudou de assunto. Claro, nenhum livro (nem importante, nem desimportante) jamais foi escrito em iorubá, pelo simples motivo de que o iorubá é uma língua ÁGRAFA. Esse episódio é muito ilustrativo do grau de devaneio da militância do movimento negro que coloca sua ideologia negrista acima da própria realdade factual.

Para finalizar, acredito que o que foi dito até aqui é suficiente pelo menos para começar a quebrar o gelo da mentalidade idiotizada construída pela desinformação e pelos agentes da agenda politicamente correta. Como se vê, a realidade é um milhão de vezes mais complexa do que a simplificação repetida ad nauseam pelo movimento negro e outros braços da esquerda, com o objetivo de colocar o povão ignorante em um transe hipnótico o qual eles possam explorar para alcançar poder político. Quando se entende como funciona o mecanismo que gera o racismo fica fácil notar que a ÚNICA atitude que se pode ter para que ele diminua é IGNORÁ-LO. Pessoas inteligentes, independente de cor da pele, percebem isso muito rápido. Acontece que a proposta de ignorar o racismo não pode ser aproveitada para gerar dividendos políticos. Assim, devemos nos preparar e manter sempre à mão uma cartela de Engove para tomarmos quando surgir à nossa frente um militante da ideologia negrista, defendendo agora não mais as cotas para negros, mas a reparação de uma dívida histórica inexistente através do lecionamento obrigatório na rede de ensino nacional do dialeto irorubá.





fonte:

Meu professor de História mentiu pra mim: Tudo que seu professorzinho do méqui não lhe ensinou sobre... negritude, escravidão e racismo

o Dia do Professor




Dom Fernando Arêas Rifan*


Hoje, dia 15, dia de Santa Teresa de Jesus, grande mestra da vida espiritual, e exatamente por isso, é comemorado o dia do professor. Deixo aqui consignada a minha saudação e gratidão a todos os que se dedicam a essa nobre e benemérita carreira, difícil, mas nem sempre reconhecida e condignamente gratificada. Mais do que uma profissão, educar é uma arte, uma vocação e uma missão: formar, conduzir crianças, jovens e adultos no caminho da verdade, sugerindo opiniões conscientes, aconselhando e tornando-se amigos e irmãos dos seus alunos. Que Deus os abençoe e lhes dê coragem, paciência e perseverança.

Ser professor é ser educador e mestre. E ser mestre é muito mais do que ensinar matérias, como bem escreveu o nosso ilustre poeta Antônio Roberto Fernandes, de saudosa memória: “Ser mestre não é só contar a história/ de um certo Pedro Álvares Cabral/ Mas descobrir, de novo, a cada dia,/ um mundo grande, livre, fraternal. - Ser mestre não é só mostrar nos mapas/ onde se encontra o Pico da Neblina/ Mas é subir, guiando os alunos,/ à montanha da vida que se empina... Ser mestre é ser o pai, a mãe, o amigo,/ mostrando sempre a direção da luz,/ pois a palavra Mestre – sobretudo –/ também é um dos nomes de Jesus.”


A melhor definição de educação nós a encontramos no Direito Canônico, conjunto de normas da Igreja (cânon 795): é a formação integral da pessoa humana, dirigida ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem comum da sociedade, de modo que as crianças e jovens possam desenvolver harmonicamente seus dotes físicos, morais e intelectuais, adquirir um sentido mais perfeito da responsabilidade e um uso correto da liberdade, preparando-se para participar ativamente da vida social. Que missão nobre, sublime e difícil a do professor-educador! Indicando aos alunos o sentido da vida, ele vai ajudá-los a dominar seus instintos e a dirigi-los pela razão, a desenvolver o conjunto de suas faculdades, a combater as más paixões e desenvolver as boas, a adquirir o domínio de si e a orientar seus sentimentos, levando em conta as diversas fases da vida e as características do seu temperamento, formando assim sua personalidade e seu caráter. Sendo assim, o mestre é cooperador da Graça de Deus, que, como Pai, só quer o bem dos seus filhos.


Mas, será que vale a pena tanto esforço por tão pouco reconhecimento e tão pouco salário? “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Se o professor trabalha por vocação, sentir-se-á recompensado pelos frutos do seu trabalho, mesmo que não apareçam imediatamente.
 

A você, portanto, caro professor e querida professora, a nossa homenagem por ter recebido de Deus tão nobre e importante missão e a nossa gratidão reconhecida pelo seu trabalho, que não se mede pela produção imediata, mas por frutos, muitas vezes escondidos, que só vão aparecer ao longo da vida e que estarão escritos no livro da eternidade. “Os que educaram a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,3).


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/
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