CHICO E O COMUNISMO

Percival Puggina

 
Chico Buarque ocupou durante algum tempo funções privilegiadas na minha geração. Namoramos ao som de Chico. Amamos com Chico. Dançamos Chico. Mal, mas dançamos. Chico enternecia corações, a virtude trepidava, a gente era feliz. E sabia. Éramos sócios remidos no clube da eterna juventude e bebíamos cada lágrima nos olhos tristes de Carolina. Quantas vezes passei braço nos ombros de Pedro Pedreiro e caminhei com ele, penseiro das mesmas divagações! Há um enorme repertório, produzido por seu talento poético e musical que, a cada reprodução, me arrasta pelos pés se for preciso à minha juventude e à Porto Alegre dos anos 70.

Foi nessa época, também, que se tornou conhecido o engajamento político de Chico e seu alinhamento com o partidão (PCB). Para ele e para muitos outros, foram tempos de interditos e censuras que tinham, cá entre nós, a marca do mau gosto. E de um inexplicável medo da música. Medo da música? Quem pode ter medo da música? Parodiando Stalin - quantas divisões tem um compositor que não sejam as dos compassos de sua canção? E a música de Chico, convenhamos, nunca produziu frêmitos revolucionários. Não, censurar Chico e tantos outros foi um erro. Mas não é essa a minha pauta. Quero falar do Chico engajado, sempre pronto a assinar qualquer mensagem de apoio ao comunismo e ao regime cubano. Resistiu e resiste até a última vilania dos ditadores vermelhos. Aquilo que nem Saramago suportou, a execução dos três negritos e a prisão de 75 periodistas e intelectuais independentes, ele engoliu com bom uísque e foi em frente. Ante o que levou Rigoberta Menchú à deserção, Chico deu de ombros. A mais do que cinquentenária ditadura castrista continua a lhe merecer incondicional reverência.

A polêmica disputa jurídico-legislativa entre o grupo Procure Saber (formado por celebridades musicais como Chico, Caetano, Milton Nascimento, Djavan, Erasmo e Gil) e a Associação Nacional de Editores de livros reabre a discussão sobre o direito de escrever e o direito de não ser objeto da escrita alheia. E aí, queiram ou não os membros do Grupo Saber, entra a questão da censura, muito mal vista por todos enquanto estiveram sob seu infausto escrutínio. Não há como desfrutar, simultaneamente, as vantagens da celebridade e os benefícios do anonimato.

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Berthold Brecht, com brutal franqueza, ensinava que a solitária virtude de quem luta pelo comunismo é a luta pelo comunismo. Quaisquer outras às quais nós conservadores ainda tentamos, aqui e ali, atribuir algum valor são irrelevantes para Brecht. Pois bem, o objetivo final do comunismo é a eliminação da propriedade privada. O Manifesto Comunista deixa muito claro o que Marx e Engels pensavam sobre a posse individual de bens (que segundo eles só era viável para alguns por não ser possível para todos). Dirigindo-se à sociedade burguesa, afirmaram no Manifesto: "Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato é isso que queremos". Tal é o generoso projeto marxista ao qual Chico Buarque adere.

No entanto, direito autoral é uma legítima forma de propriedade. Tão propriedade quanto qualquer outra. Não deveriam os comunistas dar o exemplo, renunciando a seus direitos autorais? Ou estimulando sua desapropriação para, por exemplo, prover fundos ao Retiro dos Artistas, em suas tantas carências? O comunismo é uma ideia generosa e pródiga. Com os bens alheios.

"Ninguém precisa abandonar a tecnologia, mas é necessário experimentar momentos de desconexão"

 
David Baker é a simpatia em pessoa. Ex-editor da versão inglesa da revista Wired, hoje ele continua contribuindo para a revista, mas passa a maior parte de seu tempo dando consultoria e ajudando ou, como ele prefere, provocando as pessoas a viver melhor. David passou a semana no Brasil para ministrar um curso intensivo da School of Life sobre trabalho, relacionamento e simplicidade e o Gizmodo Brasil conversou com ele sobre a maneira como usamos a tecnologia e os impactos da internet na nossa vida.

Sobre os problemas da vida conectada

“Há dois problemas com a tecnologia: ela está crescendo muito rápido e é muito sedutora. E ela vai se desenvolver cada vez mais rápido, por conta da Lei de Moore. Nós estamos tentando disputar uma corrida com a tecnologia para utilizá-la, mas nunca vamos vencer. Então nós precisamos nos reposicionar em relação à tecnologia e perguntar como nós podemos fazer para que ela não seja nosso mestre, mas uma ferramenta. Precisamos fazer com que os avanços tecnológicos sejam a nossa caixa de ferramentas. Se nós temos uma caixa de ferramentas em casa, nós não acordamos e vamos correndo serrar alguma coisa, vamos?

Mas nós acordamos e vamos checar nossas notificações, por exemplo. Então nossa relação com a tecnologia nesse momento é adolescente, é sedutora, nós estamos apaixonados. E agora temos a oportunidade de entrar numa nova fase do nosso relacionamento: entender a tecnologia, compreender o que é viver com ela. Temos que nos perguntar que tipo de seres humanos nós queremos ser e quais são as tecnologias que podem ajudar nesse propósito. Por exemplo: eu não gosto quando as pessoas ficam checando seus telefones quando eu estou falando com elas. Primeiro, porque é desrespeitoso. Porque existe algo de belo na atenção que as pessoas dão umas às outras. E isso é quebrado por um sujeito na Califórnia que juntou alguns algoritmos pra fazer um aplicativo. Veja bem: a tecnologia não é mágica. São só pessoas usando algoritmos bons. Então eu quero uma revolução na qual as pessoas amem a tecnologia, mas a usem mais como uma caixa de ferramentas e menos como um mestre.”

Um conselho para a geração que nasceu na era da tecnologia

“Eu definitivamente não quero que ninguém abandone a tecnologia, a não ser que a pessoa deseje isso. Mas nós sabemos que há momentos na História em que as pessoas abandonaram a tecnologia e encontraram coisas incríveis, como fez Thoreau. Ele resolveu abandonar a vida civilizada para redescobrir suas ligações com a vida e com o mundo. E funcionou para ele. Walden, de Thoreau, é um livro muito interessante para o momento em que vivemos agora. Porque ele fez, de forma completa, algo que podemos fazer num dia.

Eu odeio aconselhar, mas eu gosto de provocar. Eu quero estimular as pessoas, provocá-las. Então eu digo ‘Por que você não tenta em experimento? Por que você não tenta ficar sem entrar no Facebook por doze horas’ e pode ser algo interessante, embora seja meio assustador, mas você vai perceber que ficou menos assustado que imaginou que ficaria. E você pode descobrir como aproveitar essas doze horas. Na próxima vez você pode tentar ficar doze horas sem telefone. Ninguém precisa abandonar a tecnologia, mas é necessário experimentar momentos de desconexão.”

Desconecte-se

“A ideia de sempre estar conectado é uma invenção da banda larga. Eu tenho quase cinquenta anos e eu me lembro de quando a internet era discada. Você se conectava e se desconectava porque era como um telefonema, você telefonava para a internet. Agora nós podemos estar sempre online e assumimos que essa é a maneira correta de usar a internet. Mas às vezes nós deveríamos experimentar ficar offline e ver como nos sentimos. Eu acho que muitas pessoas podem descobrir que de repente elas estão pensando diferente, conversando mais, indo a parques. E eventualmente elas podem pensar ‘E se eu ficar dois dias sem internet?’. Então meu conselho é experimentar. Porque nós somos viciados em internet. As pessoas saem de casa, percebem que esqueceram seus telefones e atravessam a cidade outra vez para buscá-los. Nós também fazemos isso com drogas e isso é péssimo. Então temos que ajudar as pessoas a pensar “Eu esqueci meu telefone em casa e isso não é um desastre”. Porque é só um pedaço de plástico com um computador dentro!

Quando eu era criança, houve um período durante os anos 1970 na Inglaterra em que nós ficávamos sem eletricidade por doze horas. Então eu digo às pessoas para imaginarem um mundo sem eletricidade e a primeira coisa que elas respondem é ‘Jesus!’. Sem televisão. Sem telefone. Imediatamente a nossa conexão com as coisas muda, as conversas mudam. E as pessoas descobrem que a tecnologia é incrível, mas faz com que nós deixemos de descobrir coisas que nós temos que começar a buscar novamente.”

A zona de conforto

“Na palestra que darei sábado, eu vou falar em português. E essa não é minha língua nativa, eu ainda estou estudando português. Eu quero fazer a palestra em português porque eu decidi explorar algo que é novo para mim, quero sair da minha zona de conforto. Saia da sua zona de conforto. Primeiro, você vai ficar ansioso, mas depois novas ideias e novas oportunidades aparecerão. Mas você não vai ver nada disso se ficar na sua zona de conforto. Eu estou ansioso. Talvez meu português seja horrível. Então quero que as pessoas vejam o que eu estou fazendo e quero que isso as inspire a sair de suas zonas de conforto.”

A resposta para a vida, o universo e tudo mais

“Eu não tenho respostas. E eu também não tenho conselhos. Porque a verdade, seja lá o que isso signifique, é que a resposta correta está dentro de nós. A resposta certa para mim não é a resposta certa para você. Então é importante que as pessoas se lembrem: se as respostas existissem, nós poderíamos fazer um google extremo com perguntas como ‘como eu devo viver a minha vida?’ e descobriríamos.  Pessoas que dizem que existe uma resposta são charlatões. Porque elas dizem que sabem como a vida deve ser vivida, dizem que sabem quais são as regras. Mas você deve ir além das regras. Mas para algumas pessoas isso é muito atraente, porque elas não vão precisar pensar. Mas para outras pessoas isso é um problema, porque elas parecem ótimas, mas elas não conseguem viver suas vidas de acordo com as regras. E elas não precisam viver assim e nem devem se sentir culpadas e inadequadas por não seguirem as regras. Então eu acho que devemos rejeitar as respostas e substituí-las por provocações. Uma conversa ao vivo é muito diferente de uma conversa por Skype. Temos que entender que há coisas que as pessoas fazem melhor do que a tecnologia.”

Como trabalhar de modo mais inteligente

“Eu acredito que quase todos nós podemos trabalhar menos horas, mas trabalhar de modo mais inteligente. É muito irônico que agora que a tecnologia está aqui para nos ajudar a trabalhar melhor, tanto em Londres quando aqui em São Paulo, as pessoas ainda estejam no escritório depois da meia-noite. Alguma coisa está completamente errada. E há duas razões para isso: a primeira é que o capitalismo encoraja coisas como uma cidade em que metade da população fica nos trabalho até meia-noite e outra metade que sequer tem emprego. Esse é o resultado político do capitalismo e nós temos que mudar esse sistema, temos que mudar a forma como distribuímos o trabalho e o dinheiro. Eu gostaria que todas as pessoas trabalhassem só metade da semana. Mas a questão é: o que vamos fazer quando as pessoas trabalharem menos e ganharem menos? É um debate incrível e não é nada novo. Eu acho que nós podemos trabalhar menos e de forma mais inteligente fazendo duas coisas: a primeira é se desconectar da tecnologia e da internet.

Um dos maiores desafios para se trabalhar de forma inteligente são as interrupções que a tecnologia traz. Há e-mails chegando o tempo inteiro. Você está trabalhando, pensando e de repente chega um e-mail e então o trabalho fica mais lento. Há estudos que dizem que o trabalho fica oito vezes mais lento. Então nós precisamos trabalhar oito vezes mais tempo, mas temos que produzir as mesmas coisas que fazíamos antes e as pessoas acabam levando trabalho para casa. Se você parasse de olhar seus e-mails, acabaria tudo que tem fazer muito mais cedo. Nós poderíamos oferecer às pessoas a oportunidade de trabalhar rápido e de forma inteligente e depois irem para casa ou explorar novos projetos. Se você acabasse seu serviço mais cedo, poderia usar o resto do dia para fazer o que quisesse porque boas ideias vêm desse tipo de exploração.

E a segunda coisa sobre o mercado de trabalho é que a maior parte do trabalho é completamente inútil. Eu escrevo um relatório para alguém e ele envia o documento ara uma terceira pessoa e depois nós três vamos fazer uma reunião para discutir o relatório, enquanto uma quarta pessoa escreve uma versão do relatório que será enviada para dez outras pessoas. Essa é a descrição do trabalho de muitas pessoas. Nós precisamos olhar para o mercado de trabalho e perceber que rituais que parecem ser obrigatórios são na verdade invenções que nós poderíamos “desinventar”. Assim como poderíamos desinventar o conceito de estar sempre online. Precisamos ser mais questionadores, sobre nós mesmo e sobre o nosso trabalho. Por que estamos tendo essa reunião? Por que eu escrevo esses relatórios? Por que eu faço isso desse jeito? Temos que responder essas perguntas. Eu suspeito que no mercado de trabalho nos fazemos suposições demais. Fazemos suposições importantes que estão erradas. Por exemplo, nós supomos que quanto mais horas trabalharmos, melhor estaremos trabalhando. Na verdade, quanto mais horas eu trabalho, pior fica a minha vida pessoal, todos nós sabemos que isso é verdade.”

fonte: David Baker: "Ninguém precisa abandonar a tecnologia, mas é necessário experimentar momentos de desconexão" | Gizmodo

A grave doença espiritual das elites


Orlando Braga
kate barry kodachrome webO indivíduo das elites, em geral, “bloqueou”: não consegue ver um palmo à frente do nariz.


O suicídio de Kate Barry (filha da atriz Jane Birkin) chocou-me, como me chocam todos os suicídios. Mas tratando-se de uma figura pública que não vivia propriamente na pobreza, o seu suicídio torna-se ainda mais incompreensível.
 
Podemos compreender (embora não aceitar), por exemplo, que um sem-abrigo que vive em um estado de pobreza extrema se suicide: neste caso, os problemas de sobrevivência e de auto-conservação são objetivos, concretos e muitas vezes quase incontornáveis; muita gente que se suicida comete esse acto por uma questão de quase impossibilidade de sobrevivência física e biológica, e não porque ande psicologicamente frustrada em relação à sua vidinha.

Naturalmente que podemos sempre especular sobre as razões de Kate Barry (de 46 anos!) para acabar com a sua vida, e a especulação é, nestes casos, má-conselheira. Mas há alguns fatos objetivos que caracterizam este caso que incluem o trajecto de vida da pessoa em causa: por exemplo, só aos 29 anos (1996) Kate adotou uma profissão, a de jornalista-fotógrafa. Até essa idade passou por uma série de problemas, desde o internamento hospitalar aos 17 anos por uso de drogas duras, até curas prolongadas nos alcoólicos anónimos. Portanto, Kate foi alguém que começou a sua vida “a solo” — e independente da mãe — já muito tarde.

Depois, há outro fato objetivo que marcou este caso e que marca a atual cultura europeia: o mito da juventude, especialmente nas mulheres porque elas têm um ciclo biológico diferente do dos homens. Vivemos numa cultura que julga o belo por fora, exterior. A beleza exterior é importante como manifestação estética, mas no ser humano existe uma beleza interior que quase toda gente, mais ou menos, tem. O ser humano não é apenas uma obra-de-arte em que o acerto estético é a ortodoxia e que, sendo sensual, comove pela sua ausência: é também e sobretudo uma realidade espiritual que comove com a sua presença1 e independentemente da sua idade cronológica.

Vivemos em um tempo em que, nos meios sociais das elites sociais e culturais, se torna difícil lidar com o fracasso, seja este grande ou pequeno — porque mesmo que o fracasso seja o naturalmente inerente ao estatuto ontológico do ser humano, tornou-se insuportável na nossa cultura atual. Para evitar o fracasso, a pessoa torna-se socialmente predadora; e quando não tem endogenamente uma estrutura espiritual predatória, surge então o sentimento do fracasso que inunda e absorve o espírito. O predador é rei. O circuito desta irracionalidade cultural é biunívoco: a irracionalidade transita entre o coletivo da elite, por um lado, e o indivíduo da elite, por outro lado, e essa irracionalidade transformou-se em um paradigma cultural por força da ação dos me®dia que essas mesmas elites controlam — e pelo fenômeno cultural mimético de Trickle-down, tão bem descrito, já no princípio do século XX, por Georg Simmel.

A noção de “fracasso humano” pode ser medida por valores que apontam para o Absoluto. Por isso, o fracasso humano é sempre relativo, é sempre de menor importância quando comparado com a dimensão infinita da realidade. Mas, na cultura atual, o relativo tornou-se absoluto; o indivíduo das elites, em geral, “bloqueou”: não consegue ver um palmo à frente do nariz. Não se trata de um problema de falta daquela inteligência mensurável por um qualquer teste estatístico, mas antes um problema de embotamento espiritual grave que nenhum grau de QI, por mais elevado que seja, pode suplantar. As elites atuais estão gravemente doentes, do ponto de vista espiritual: e o pior é que são incapazes de reconhecer a sua doença, assim como um psicótico agudo nega sempre que tem um problema; e essa maleita espiritual das elites propaga-se pelo resto da sociedade como fogo em palheiro.







Nota:
1. Parafraseando Nicolás Gómez Dávila.


fonte: Mídia Sem Máscara - A grave doença espiritual das elites

Sobre a diferença salarial entre homens e mulheres




NOTA

O Congresso brasileiro aprovou uma lei (ainda a ser sancionada pela presidente) que proíbe empresas de pagar salários menores para as mulheres em relação aos homens.  As empresas que descumprirem esta lei serão multadas.  Segundo o IBGE,
As mulheres receberam, em média, 72,3% do salário dos homens em 2011, segundo o estudo 'Mulher no mercado de trabalho: perguntas e respostas', divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. O número repete a proporção encontrada nos levantamentos de 2009 e 2010.
O estudo mostrou ainda que a jornada de trabalho das mulheres foi inferior à dos homens. Em 2011, as mulheres trabalharam, em média, 39,2 horas semanais, contra 43,4 horas dos homens, uma diferença de 4,2 horas. Entretanto, segundo o IBGE, 4,8% das mulheres ocupadas em 2011 gostariam de aumentar a carga horária semanal.
Observe que não é preciso ser um gênio econômico para entender que, em média, os salários das mulheres de fato têm de ser menores, uma vez que mulheres trabalham em média menos que os homens.
Mas é claro que a lógica nunca foi o forte nem de feministas e nem de esquerdistas, que sempre operaram em conjunto.  O raciocínio marxista-feminista por trás desta lei totalitária é o de que o capitalismo é inerentemente discriminatório e machista, e que, portanto, é necessário o governo impor regulamentações salariais para se alcançar a "igualdade" e a "justiça social" (daqui a pouco vão exigir quotas femininas para a construção civil e para o setor de mineração, sob o rótulo de 'diversidade'). 
Afinal, toda e qualquer disparidade salarial sempre será explicada unicamente pelo inerente sexismo presente no capitalismo, que seria um sistema amplamente masculino.
No entanto, há outras explicações mais profundas sobre o porquê desta divergência salarial entre os gêneros.  Walter Block faz o serviço.
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salario_mulher.jpgEm primeiro lugar, quero deixar claro que, em um mercado de trabalho com liberdade de contratação e demissão, é impossível haver divergências salariais entre homens e mulheres em decorrência unicamente de discriminação.  E isto por um motivo puramente econômico: se houvesse tal discriminação, qualquer empregador iria obter lucros fáceis contratando mulheres e dispensando homens, uma vez que as mulheres poderiam receber um salário menor para fazer exatamente o mesmo trabalho.  A concorrência entre os empregadores iria, então, elevar os salários das mulheres e, assim, abolir qualquer diferença salarial que porventura exista.
Logo, sempre e em qualquer ocasião que houver qualquer tipo de discriminação salarial — e isto vale não apenas para gêneros, mas também para cor de pele, religiões, etnias etc. —, o capitalismo irá abolir tal situação, e não aprofundá-la.  E o motivo essencial é que um empregador que permite que seus preconceitos turvem seu juízo de valor estará assim criando uma oportunidade de lucro para seus concorrentes.  Uma mulher que produz $75.000 por ano em receitas para seu patrão, mas que recebe, digamos, $20.000 a menos que um empregado masculino igualmente produtivo, poderá ser contratada por um concorrente por, digamos, $10.000 a mais do que recebe hoje e ainda assim permitir que este novo empregador embolse os $10.000 de diferença.  À medida que este processo concorrencial for se aprofundando ele irá, ao fim e ao cabo, elevar os salários femininos ao ponto de paridade com os salários masculinos caso a concorrência salarial seja vigorosa o bastante.
Esta questão da "disparidade salarial" vem sendo abordada há décadas não só pelo economista Prêmio Nobel Gary Becker (meu orientador de teses quando estava na Columbia University), como também por vários outros economistas, sob um mesmo prisma: o casamento afeta a capacidade de renda futura de homens e mulheres de maneira substancialmente distinta.  Há exceções, é claro, mas, em termos gerais, a probabilidade de as mulheres saírem da força de trabalho por um período de tempo — por causa de gravidez, criação e educação de filhos e outras tarefas (das quais a maioria dos homens se esquiva) — é maior que a dos homens.  As mulheres são muito mais propensas que os homens a se ausentar do mercado de trabalho por um período de tempo (anos) para se dedicar à família.  E mesmo que não façam isso, elas tendem a gastar muito mais tempo que os homens cuidando das crianças e das tarefas domésticas.  Consequentemente, elas ficam atrás de seus colegas homens em termos de acumulação de capital, produtividade e salários.
Não estou fazendo nenhum juízo de valor, não estou dizendo se isso é justo ou injusto, se é correto ou enviesado; estou apenas citando um fato da vida.  E isto ajuda a esclarecer um dos motivos por trás da diferença salarial entre homens e mulheres.
Em termos puramente econômicos, chamamos este fenômeno de "efeitos assimétricos do casamento".  Em um casamento convencional, cabe à mulher fazer a maior parte dos serviços domésticos, como cozinhar, varrer, limpar, fazer compras e cuidas dos filhos.  E isto, esta divisão de tarefas, por si só é algo que acentua o rendimento masculino e reduz o feminino.  Trata-se de um exemplo do mais básico axioma econômico do 'custo de oportunidade'.  Quando uma pessoa se dedica a fazer alguma coisa, ela o faz à custa de estar fazendo outra coisa qualquer.
Podemos ilustrar esta indelével realidade econômica utilizando o exemplo de Michael Phelps, campeão mundial de natação.  Ele jamais poderia, por exemplo, ser um bom violoncelista, dado que ele gasta de 8 a 10 horas por dia em uma piscina em vez de estar praticando suas habilidades musicais.  O custo de oportunidade de ser um atleta olímpico é a abdicação de todas as outras oportunidades de carreira.  Da mesma maneira, o custo de oportunidade da alegria da maternidade é a abdicação de um salário potencialmente maior no mercado de trabalho.  A maternidade e o casamento fazem com que as mulheres se ocupem de várias outras atividades além de ofertar mão-de-obra ao mercado de trabalho.  Daí sua produtividade neste setor ser menor do que aquela que poderiam ofertar caso jamais se casassem.
E isto pode ser comprovado por várias estatísticas que demonstram que, quando você compara apenas homens e mulheres solteiros, a divergência salarial virtualmente desaparece.  Da mesma maneira, quando você utiliza uma amostra composta unicamente de jovens entre 18 e 24 anos, a divergência salarial também não é encontrada, uma vez que a maioria deles jamais se casou.  E isto faz completo sentido.  Afinal, embora a produtividade feminina, em média, de fato possa ter sido menor que a dos homens durante os séculos passados, quando a força física era algo extremamente importante, no século atual isto não mais é válido.  Ademais, caso (todas) as mulheres de fato apresentassem hoje a mesma produtividade que os homens (não apresentam por causa do casamento), então, como dito, haveria uma oportunidade de maiores lucros para qualquer empresa que se especializasse na contratação de mulheres.  Certamente esta é uma situação que não perduraria por muito tempo.
No que tange às barreiras à ascensão da mulher no mercado de trabalho, há também outra explicação, só que mais radical e, logo, mais politicamente incorreta.  Embora homens e mulheres, em média, tenham produtividade semelhante no mercado (desconsiderando aqui as influências do casamento), sua variância não é a mesma de forma alguma.  Os homens são as "criaturas aleatórias" de Deus ou da natureza: em termos de habilidades e capacidades, sua distribuição estatística está completamente dispersa no espectro.  Em comparação, as mulheres são as "apólices de seguro" de Deus ou da natureza: sua frequência de distribuição está bem mais concentrada na média, tanto em termos de QI quanto de produtividade.  Seu desvio padrão é muito baixo. 
Pensemos na famosa "curva em forma de sino" que representa o fenômeno estatístico da distribuição normal.  Peguemos, primeiramente, o lado esquerdo desta curva.  Os homens excedem vastamente as mulheres em números de prisioneiros, de mendigos, de pacientes em manicômios e demais instituições psiquiátricas, e de mortes precoces (ou seja, os homens morrem antes das mulheres não apenas de causas naturais, mas também como vítimas de homicídios).  Do outro lado do espectro, no lado direito, há muito poucas mulheres.  São pouquíssimas as mulheres campeãs de xadrez, vencedoras de Prêmio Nobel em ciências exatas ou economia, ou reconhecidas físicas, químicas ou matemáticas.  O ex-reitor de Harvard, Lawrence Summers, foi demitido de seu posto por ter especulado que parte da explicação para este estado de coisas era de origem biológica.  Vou mais além do que ele e digo que isto é uma importante parte da explicação, pois, em termos sócio-biológicos, foi esta baixa variância feminina o que permitiu que nossa espécie fosse superior a todas as outras.  Por exemplo, se as mulheres, assim como os homens, pudessem hoje ser encontradas em números desproporcionalmente altos em prisões, nas ruas como sem-teto, em instituições mentais etc., elas teriam sido incapazes, milhões de anos atrás, de criar filhos.  Tal espécie não teria durado, ao contrário da nossa, na qual são muito poucas as mulheres que não são capazes de criar e educar a próxima geração.
Por outro lado, explicações muito mais explosivas sobre diferenças salariais podem ser encontradas no livro do professor James T. Bennett, do departamento de economia da George Mason University, intitulado The Politics of American Feminism: Gender Conflict in Contemporary Society.  Neste livro, o professor Bennett enumera, utilizando paráfrases, mais de vinte motivos por que os homens ganham mais que as mulheres.  Cumulativamente, tais explicações respondem por completo a existência de qualquer "disparidade salarial", embora o próprio Bennett acredite que a discriminação salarial por gênero não seja algo inexistente.  Os motivos, baseados em generalizações respaldadas por volumosas estatísticas, são:
  • Homens têm mais interesse por tecnologia e ciências naturais do que as mulheres.
  • Homens são mais propensos a aceitar trabalhos perigosos, e tais empregos pagam mais do que empregos mais confortáveis e seguros.
  • Homens são mais dispostos a se expor a climas inclementes em seu trabalho, e são compensados por isso ("diferenças compensatórias" no linguajar econômico).
  • Homens tendem a aceitar empregos mais estressantes que não sigam a típica rotina de oito horas de trabalho em horários convencionais.
  • Muitas mulheres preferem a satisfação pessoal no emprego (profissões voltadas para a assistência a crianças e idosos, por exemplo) a salários mais altos.
  • Homens, em geral, gostam de correr mais riscos que mulheres.  Maiores riscos levam a recompensas mais altas.
  • Horários de trabalho mais atípicos pagam mais, e homens são mais propensos que as mulheres a aceitar trabalhar em tais horários.
  • Empregos perigosos (carvoaria) pagam mais e são dominados por homens.
  • Homens tendem a "atualizar" suas qualificações de trabalho mais frequentemente do que mulheres.
  • Homens são mais propensos a trabalhar em jornadas mais longas, o que aumenta a divergência salarial.
  • Mulheres tendem a ter mais "interrupções" em suas carreiras, principalmente por causa da gravidez, da criação e da educação de seus filhos.  E menos experiência significa salários menores.
  • Mulheres apresentam uma probabilidade nove vezes maior do que os homens de sair do trabalho por "razões familiares".  Menos tempo de serviço leva a menores salários.
  • Homens trabalham mais semanas por ano do que mulheres.
  • Homens apresentam a metade da taxa de absenteísmo das mulheres.   
  • Homens são mais dispostos a aturar longas viagens diárias para o local de trabalho.
  • Homens são mais propensos a se transferir para locais indesejáveis em troca de empregos que pagam mais.
  • Homens são mais propensos a aceitar empregos que exigem viagens constantes.
  • No mundo corporativo, homens são mais propensos a escolher áreas de salários mais altos, como finanças e vendas, ao passo que as mulheres são mais predominantes em áreas que pagam menos, como recursos humanos e relações públicas.
  • Quando homens e mulheres possuem o mesmo cargo, as responsabilidades masculinas tendem a ser maiores.
  • Homens são mais propensos a trabalhar por comissão; mulheres são mais propensas a procurar empregos que deem mais estabilidade.  O primeiro apresenta maiores potenciais de ganho.
  • Mulheres atribuem maior valor à flexibilidade, a um ambiente de trabalho mais humano e a ter mais tempo para os filhos e para a família.
Portanto, caso as mulheres queiram salários maiores, elas deveriam prestar mais atenção a estes determinantes e se concentrar menos em cruzadas quixotescas como legislações sobre "diversidade e igualdade" que demonizam empregados e patrões homens.
A sugestão de que atributos sexuais são utilizados na escolha de um empregado, ou que eles são determinantes para o contra-cheque, nada diz a respeito dos gostos sexuais do empregador.  Diz apenas sobre escassez.  Empregadores não têm como saber qual a produtividade de um empregado antes de sua contratação.  Mais ainda: a produtividade deste empregado pode não ser prontamente perceptível após sua contratação.  O processo de contratação utiliza recursos.  Adicionalmente, o período de teste e adaptação é custoso; ele também consome recursos da empresa na forma de monitoramento, supervisão e materiais.  E empregadores têm um incentivo para economizar todos estes custos.  Logo, uma contratação não pode ser algo guiado unicamente pelo sexo do indivíduo.  Vários outros possíveis atributos e possíveis ocorrências futuras têm de ser considerados pelo empregador.
Porém, tal lógica econômica é normalmente suprimida por grupos politicamente corretos que julgam ser muito mais fácil e produtivo simplesmente difamar aqueles que tentam explicar que há motivos economicamente racionais para a existência de eventuais divergências salariais entre homens e mulheres.

Walter Block é membro sênior do Mises Institute e professor de economia na Loyola University, Nova Orleans.

IMB - Sobre a diferença salarial entre homens e mulheres

A degradação do papel do mestre

Cesar Alberto Ranquetat Júnior*
AAAAA


A situação do sistema educacional brasileiro é no mínimo preocupante. Os dados estatísticos, as reportagens em jornais e na televisão, as inúmeras pesquisas e os testes internacionais nas mais diversas áreas do conhecimento demonstram explicitamente a decadência intelectual e cultural que devasta a sociedade brasileira. Diante deste quadro assombroso precisamos, antes de tudo, sondar as “raízes do mal” e tomarmos outros rumos, pois como frisava o crítico literário Otto Maria Carpeaux, o destino intelectual das nações depende fundamente da qualidade das universidades. Seguem algumas experiências pessoais, pistas, reflexões e proposições que podem contribuir para este debate.
Lembro-me, quando cursava a faculdade de Direito, de minha atitude respeitosa e de sincera admiração pelos (poucos) professores dedicados ao seu ofício de educar. Impressionava-me com aqueles que desfilavam em suas aulas erudição e vasta cultura científica e humanística, bem como paciência e sensibilidade no trato com o aluno. Eram eles a perfeita expressão do verdadeiro mestre, do homem dotado de lucidez intelectual, do sábio de outrora. Tratavam-se de figuras modelares que ainda servem para mim como uma luz inspiradora e orientadora em meio ao caos, à mediocridade e à estupidez característicos do nosso tempo.

O professor, o mestre, o educador, era visto em épocas passadas como uma espécie de sacerdote; seu papel e sua atividade revestiam-se de um caráter sacramental, sua função era de ordem espiritual. Conforme demonstra o historiador das ciências Georges Gusdorf, a função do professor na modernidade guarda semelhanças com o papel do xamã, do mago, do curandeiro nas culturas primitivas. Eram estes os depositários das tradições sagradas, os mestres dos rituais de iniciação. Era papel deles assegurar a continuidade da vida social pela transmissão dos saberes e “segredos” que lhe servem de base. Desse modo, o mestre, o verdadeiro professor, é aquele que inicia o neófito na vida adulta, no longo e tortuoso caminho da construção da personalidade. Ele é como um “artesão” que forja a si mesmo, edifica sua própria individualidade para que então, num segundo momento, possa dedicar-se inteiramente na árdua tarefa de transmitir “as armas e ferramentas” para que os alunos, “discípulos”, conheçam a si próprios e assim se tornem senhores de seu universo interior.

A relação entre o mestre e seus aprendizes é marcada pela necessidade da criação de liames, laços afetivos e cognitivos. É uma relação de mútua dependência que se funda no confronto e no diálogo face a face, num contato duradouro e íntimo. O verdadeiro professor é aquele que conduz seus discípulos na direção da conquista de suas próprias vocações, acendendo na alma dos alunos a chama imorredoura da busca pela sabedoria. Esta dimensão iniciática da função docente é ressaltada por Gusdorf: “A palavra do mestre é uma palavra mágica: um espírito desperta ao apelo de outro espírito; pela graça do encontro uma vida foi mudada. Não que essa vida deva daqui para frente devotar-se a imitar a alta existência que, num dado momento, cruzou e iluminou a sua. Uma vida mudou, não à imagem da outra vida que a visitou, mas à sua própria e singular semelhança. Jazia na ignorância e passou a conhecer-se e pertencer-se, a depender unicamente de si mesma, a sentir-se responsável por sua própria realização”. Quão distantes estamos deste ideal de maestria, de algum modo a função docente perde seu halo de sacralidade e, por conseqüência, a autoridade professoral definha.

É bastante preocupante e entristecedor ver como, atualmente, muitos alunos portam-se no ambiente acadêmico. Diante de professores preocupados com o conhecimento e a sabedoria, perfilam-se atitudes quase sub-humanas, caracterizadas pela total passividade, indiferença e até mesmo desrespeito. Atitudes que sinalizam para o predomínio de um tipo humano pueril, infantilizado e imaturo. A mudança ocorrerá apenas quando o aluno tomar a dura decisão de comprometer-se realmente, de corpo e alma, com o desenvolvimento intelectual, deixando de lado esta atitude egoísta e letárgica.

O professor, por sua vez, encontra-se sufocado por uma miríade de atividades burocráticas e administrativas, acossado pela lógica produtivista da “fabricação em massa” de papers, e por uma obsessão especializante que o conduz a um estado de “miopia intelectual”. Como aprimorar seus conhecimentos, expandir seu universo de consciência e adquirir alta cultura se praticamente hoje o professor não mais dispõe de tempo para o ócio? Importa ressaltar aqui o sentido original e etimológico da palavra ócio, para evitar mal entendidos. Esta expressão deriva do latim otium que significava para os antigos romanos o tempo dedicado à atividade intelectual, à vida interior, à ocupação com as artes, à ciência, à filosofia e ao lazer em geral. O ócio opunha-se ao negócio, do latim nec-otium, que relacionava-se às atividades de subsistência, ao trabalho. A expressão escola, por seu turno, deriva do termo grego scholé, que significava justamente o ócio em sua acepção original. A escola, bem como o ambiente acadêmico e universitário, era visto pelos “antigos” como o espaço onde os indivíduos deixavam de lado suas ocupações rotineiras e triviais para ocuparem-se com a reflexão, o estudo e a busca da verdade. Conforme explica o cientista político e educador inglês Michael Oakeshott, a idéia da escola e da universidade é de um lugar à parte, onde os herdeiros de uma cultura tomam contato com a sua herança moral e intelectual. É neste ambiente único onde por meio do estudo são criados e cultivados os hábitos da atenção, concentração, exatidão, coragem, paciência e reconhecimento da excelência, quer no pensamento, quer na conduta.

Agora, a pergunta que faço é a seguinte: como desenvolver virtudes éticas e intelectuais e fazer do ambiente escolar e universitário um local devotado ao conhecimento e à reflexão em salas abarrotadas de alunos? Estudo e atenção exigem silêncio, calma e serenidade, e não a agitação e o barulho perturbador que se costuma verificar em salas de aula com um número excessivo de alunos.

Diante deste quadro declina e cada vez mais se torna escassa a figura modelar e paradigmática do verdadeiro mestre. Este perturbante problema de nossa época já foi perfeitamente apontado há algumas décadas atrás pelo filósofo espanhol Julián Marías em um brilhante artigo intitulado O Respeito à Universidade; asseverava ele: “Cada vez que vejo mais de perto professores universitários, pondo de lado sua competência científica, que pode ser considerável, surpreende-me a freqüência com que pertencem a um tipo humano que em nada se parece com o que se costumava entender por ‘intelectual’. São mais semelhantes aos chamados executivos, ou a técnicos ou administradores. Têm pressa — o que não significa forçosamente que façam muito; não parecem interessar-se por nada que não tenha relação muito direta com seus trabalhos; não se lançam avidamente em busca de alguma idéia atraente; não dão impressão de prazer — ainda que seja um prazer tenso e doloroso — ao escrever (e provavelmente ao ensinar). Será possível, nessas condições, contagiar os estudantes com o entusiasmo das disciplinas intelectuais? Será fácil despertar neles sua vocação? O exercício do pensamento — essa operação humana que consiste em perguntar-se pelas coisas e procurar entendê-las — poderá florescer com tais pressupostos, em instituições estreitamente utilitárias, sem luxo vital, em suma, prosaicas?”

Palavras proféticas, verdadeiras e duras. O fato inconteste é que a proliferação tumoral de atividades burocráticas e meramente formais, o número excessivo de disciplinas, a avaliação do professor pelo número e a quantidade de artigos produzidos são coisas que colaboram decisivamente para o declínio intelectual do professor, para seu embrutecimento moral, e para a perda de sensibilidade para questões e temas de ordem superior. O reflexo disto é a péssima formação moral e cultural de boa parte dos alunos, que redunda na reprodução de valores e idéias que fomentam a desordem espiritual da sociedade moderna e a própria barbarização do homem. Diante desse quadro, cabe restaurar o papel do professor como um “agente de civilização”. Segundo Oakeshott, cabe a ele, principalmente, aliviar os seus alunos da servidão imposta pelos sentimentos, emoções, idéias e crenças dominantes, não através da doutrinação e do proselitismo ideológico, mas tornando possível aos seus alunos uma progressiva aproximação com a totalidade de sua herança cultural.

Por fim, ressalto que a culpa por tal estado de coisas, não é apenas dos alunos, dos professores, dos coordenadores de cursos e reitores, mas é de todos nós. Todos temos responsabilidade pela degradação moral e intelectual de nossa época, e para isto só há uma solução: uma profunda e radical revolução cultural que parte do centro do nosso ser. É preciso primeiro ordenar a nossa alma, através do cultivo do intelecto e das virtudes morais, para que, a partir dela, possamos irradiar, de forma muito parcial e limitada, novos e “arcaicos” valores que possam de algum modo despertar homens adormecidos. Paideia – educação, para os gregos – era a “arte de virar (periagoge)”, uma mudança de direção, uma torção radical, a adoção de uma nova atitude diante da existência, ativando a capacidade de discernir o essencial do acessório, o perene do transitório. Ensinar não é, assim, informar sobre coisas e treinar e aperfeiçoar determinadas habilidades específicas, mas formar homens maduros, responsáveis, com a mente cultivada, ampla e aberta à totalidade do real. Precisamos voltar a ler e estudar os clássicos gregos, que mostravam o que é realmente a educação e a formação integral do homem.


 (*)Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); professor de Ciências Humanas na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)/Campus Itaqui.


fonte: Revista Vila Nova

11 formas de criar uma relação saudável com a Internet

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Posso dizer desde já que sempre que escrevo sobre Internet e aparelhos digitais, meu tom de discurso caminha para o lado mais preocupado, para dizer o mínimo. Mas, como minha esposa pode atestar rapidamente, nem sempre eu pratico o que prego. Para mudar isso, eu criei uma lista de disciplinas digitais que eu tentarei levar a sério.
Claro, eu não acho que todos esses pontos são aplicáveis universalmente. Eles podem soar completamente inviáveis para seu estilo de vida, ou em alguns casos podem apenas parecer desnecessários. Tudo que eu quero com eles é simples: dadas minhas prioridades e minhas circunstâncias de vida, eu considero bem útil articular e implementar essas formas para deixar minha relação com a cultura da Internet bem mais saudável.

Eis a lista.

1. Não acorde direto na Internet. Tome um café da manhã, passeie com o cachorro, leia um livro/revista/jornal… Tanto faz, faça alguma coisa antes de ficar online. Pense nisso como uma forma de se preparar – fisicamente, mentalmente, emocionalmente, moralmente etc. – para o que lhe aguarda na rede.
2. Não fique conectado de forma natural e ambiental à sua conta de email. Feche o app ou a aba de seu email. Cheque-o duas ou três vezes por dia por pelo menos um tempo. O mesmo se aplica ao Facebook, Twitter e outras redes que usamos demais.
3. Fique com aquele link bacana na cabeça por algumas horas ou até um dia antes de compartilhá-lo por aí. Se depois de algum tempo de reflexão ele não tiver o mesmo impacto, ele não merece ser compartilhado. Não colabore com o excesso de ruído.
4. Não faça refeições junto com a Internet. Desligue, deixe os aparelhos para trás (ou no bolso), e aprecie a comida como uma forma de se regenerar, mental e fisicamente. Se você passa o dia dentro de algum lugar, leve seu almoço para fora. Aprecie a companhia de outras pessoas, ou aproveite o momento para sentir como alguns minutos de silêncio sepulcral podem ser bons.
5. Respire. Sério.
6. Faça uma coisa – uma só coisa, uma coisa completa – por vez, seja lá o que for. Se for para escrever um email, escreva-o de uma vez. Se for para ler um artigo, devore-o. Se uma tarefa não pode ser completada em uma temporada na frente do computador, pelo menos trabalhe um bom tempo suficiente nela, sem nenhuma interrupção. Em outras palavras, resista à tentação do mito do multitarefa. Ele é o canto da sereia de nossa geração, e pode transformar seu cérebro em um Titanic partido ao meio.
7. Limpe e zere seu feed de RSS no fim de cada dia. Se as coisas não foram lidas, vida que segue. Essa é difícil para mim: eu quero ler tudo, ficar sabendo de tudo etc. Mas se eu não limpar o feed, eu termino o dia com uma pilha de informação em proporções impossíveis de lidar. Além disso, eliminar potenciais e interessantes itens não lidos ou consumidos todos os dias é um gesto de felicidade, algo como uma libertação catártica.
8. Desligue todas as notificações que ameaçam lhe interromper ou distrair. Mentalmente, tendemos a responder às notificações com uma impulsão Pavloviana. Emocionalmente, elas são nossas pequenas versões do farol verde de Gatsby. De qualquer forma, é um hábito horrível.
9. Desligue seus aparelhos quando estiver com seus amigos. Além disso, abaixe a tela de seu laptop quando estiver falando com alguém. Isso pode soar exótico, antiquado, nostálgico, grosseiro, tanto faz. Mas eu vejo isso mais como uma forma de me manter minimamente civil e decente, mesmo que eu não esteja recebendo a mesma decência e civilidade em troca. Se você precisa atender uma ligação ou responder uma mensagem de texto, deixe isso claro de forma polida e educada. Muito melhor do que pegar seu aparelho de forma sorrateira e ficar olhando de canto de olho para a tela enquanto finge que ainda dá sinais de prestar atenção. Isso é inútil e feio, e todo mundo sabe disso.
10. Faça logoff nos sites de redes sociais após visitá-los. O passo extra de fazer login diminui sutilmente a facilidade em abri-los quando a sede por distração surge. Não subestime o poder dessas pequenas lombadas digitais.
11. Não vá para a cama com a Internet. De novo, sério.
Anos atrás, Umberto Eco disse: “Nós gostamos de listas porque nós não queremos morrer”. Talvez isso seja um pouco melodramático demais para essa lista. Certamente não há nenhum caso de vida ou morte nos 11 pontos, espero. Mas eu realmente acredito que seguir estas disciplinas digitais melhorarão meu uso de Internet, e farão com que eu tenha mais prazer vivendo nela.



Michael Sacasas é autor de um livro de ensaios sobre tecnologia e cultura chamado The Tourist and the Pilgrim (sem edição no Brasil). Ele escreve sobre tais assuntos no thefrailestthing.com e você pode encontrá-lo no Twitter no @FrailestThing.
Crédito da imagem: Shutterstock/Peshkova


fonte: 11 formas de criar uma relação saudável com a Internet |

O Intelectual Católico

Pe. Stanley L. Jaki
Tradução: Wagner de Souza e Cristiano de Aquino



A expressão "Intelectual Católico" parece supinamente ociosa, indicativa de alguma contradição. Não é ocioso escrever "católico" como "Católico" quando "católico" deveras corresponde a um juízo acerca do elenco universal dos valores e das realidades? E pode tal juízo verdadeiramente convir, se não for também um trabalho do intelecto?  

O aparente conflito entre "católico" e "Católico" vai especialmente incomodar os intelectuais que tomam as idéias e não os fatos como seu ponto de partida. A consideração dos fatos tem certamente a precedência, desde que se tencione chegar a qualquer coisa tangível sobre os dilemas, deveres e expectativas dos intelectuais Católicos. Para qualquer destes, o mais relevante de todos os fatos será precisamente o primitivo uso e acepção do vocábulo "católico", palavra de origem grega.  

Por surpreendente que nos pareça, a palavra "católico" ocorre apenas aqui ou acolá pelos escritos dos antigos filósofos gregos. Enquanto Aristóteles, por exemplo, amiúde usa o advérbio "kath'olou" (de um modo geral), nunca usa entanto a sua forma adjetiva "catholikos" ou seus variantes femininos e neutros. A razão pode estar no desdém que a todos os outros povos votavam os gregos, a quem eles jubilosamente agrupavam sob o termo "barbaroi". Os filósofos gregos tampouco esgotaram toda a lógica contida na idéia, amplamente cultivada entre eles, de que a mente individual seria apenas uma ínfima fração da mente universal em que era aquela reabsorvida após a morte do corpo. Pois, se tal fosse o caso, embora não fosse de origem grega, a mente de cada indivíduo deve ter tido um caráter verdadeiramente católico ou universal.

O erro em que incorriam os gregos ao ignorar isto estava, naturalmente, enraizado na sua incapacidade de enxergar para além da mente na personalidade de cada indivíduo. O infinito valor desta personalidade foi apenas revelado no Cristianismo. Na medida em que os cristãos abandonaram-se à evidência incontestável de Jesus Cristo, o Filho encarnado de Deus, completamente perceberam o que significava para o homem ter sido "feito à imagem e semelhança de Deus."  

Esta última expressão, tão inegavelmente hebraica em sua origem, não conseguiu revelar seu absoluto sentido católico no contexto da Antiga Aliança. Não significa isto que o Antigo Testamento não contivesse sugestões cada vez mais fortes sobre um futuro ou apogeu verdadeiramente católico. Mas muitas das dissensões entre Cristo e os judeus de sua época vieram à tona justamente sobre a questão de saber se deve o mundo tornar-se judeu, ou se deviam os judeus tornarem-se universais, ao menos em perspectiva, afim de cumprir um desígnio divino de salvação válido a todos. Era católico este desígnio porque era ele também Católico, isto é, ligado a um indivíduo muito específico, que, sendo um galileu, era muito singular, mesmo da perspectiva judaica.  
A universalidade da perspectiva cristã compendiou-se na célebre frase em que nos diz São Paulo que não era Judeu, tampouco Gentio, o Cristo, mas nova criatura. Visão supernamente universal ou católica do homem, esta implicava na convicção de que na natureza humana havia algo de universal ou católico. Por esta razão foi o racismo nazista denunciado pelo Papa Pio XI e Pio XII como uma total abominação. Em face deste racismo, os gurus darwinistas poderiam murmurar apenas alguns equívocos sobre a dignidade individual e a igualdade humana. É este um ponto que não pode ser ponderado longa, profunda e suficientemente pelos intelectuais Católicos, que não desejam regatear sua Catolicidade por esta miragem - curvatura cósmica em direção a um ponto ômega - denominada Jesus Cristo.
O primeiro uso cristão do termo "katholike" está consignado num conjunto de escritos: as cartas de Inácio de Antioquia que, considerando o fato de que em um curto espaço de tempo foram escritas (durante sua jornada como prisioneiro de Antioquia à Roma), tem grande coesão e unidade. O mesmo que primeiro nestas cartas usou a expressão "katholike ekklesia", ou seja, a unidade de todas as igrejas locais, com extrema clareza mostra-nos que as igrejas apenas existiam porque tinha cada uma delas um bispo que, por seu turno, representava o próprio Cristo.

Esta estrita síntese de catolicidade e individualidade num determinado ser humano, o bispo, demonstra que o entendimento cristão da catolicidade da Igreja significava desde o início algo muito diferente de um universalismo difuso. A catolicidade era para eles algo estritamente concreto, como todos os fatos e entes o são. A catolicidade tinha, outrossim, um centro que estava nitidamente expresso na consciência dos bispos que tinham o estrito dever de estar em comunhão uns com os outros, e que surgiu como resultado de uma união a um centro geral muito concreto. Estes dois desenvolvimentos são dignos de ser considerados por um momento, se ao menos os obtemos, como base concreta para avaliar o estatuto e os deveres do intelectual Católico.  

Não é preciso ser crédulo, é bastante ser um imparcial observador dos fatos, a fim de registrar algo que não tem precedentes na história: O surgimento repentino dentro do Império Romano, ou "oikumene", de centros de administração espiritual, eventualmente paralelos aos centros políticos de administração, totalmente independentes embora, e, de fato, por vezes, em feroz antagonismo para com eles. É este o pano de fundo da expressão "bispo diocesano", que evoca as principais áreas administrativas, ou dioceses. O sistema político breve encontrou um rival temível nesse novo conjunto de centros administrativos que tiveram um poderoso centro global em seu próprio país. Era, para o Imperador Décio, muito óbvio o que alguns estudantes modernos da Igreja primitiva relutam por reconhecer. São Cipriano cita-o em uma observação em que nos faz notar que, se não obtivesse ser imperador, gostava ser Bispo de Roma.  

Eram os Bispos, indivíduos concretos, estes centros particulares, cujo número passou de sete para cerca de oitocentos, tanto no Oriente e nas partes Ocidentais do Império ao tempo em que ascendeu Constantino. Em uma consideração meramente política, ainda que nada mais houvesse, Constantino não teve escolha a não ser fazer a paz com esta outra administração. Quando caiu o Império, sobreviveu a civilização porque esses centros espirituais, estranhamente, não foram aniquilados.  

Perspicazes historiadores da antiga Europa (é bastante lembrar-nos de Henri Pirenne) asseveraram a contribuição dos bispos como fonte de estabilidade cultural, mesmo no âmbito muito limitado de suas áreas de atuação. E quando volta-se um historiador para o tempo em que neste ou naquele país europeu viu-se a introdução de bispos, ainda que sem um vínculo nominal sequer com um centro Católico, pode ao menos notar um acentuado contraste entre dois tipos de bispos. O historiador que mais memoravelmente fez isso foi James Antony Froude. Sua observação é tanto mais significativa quanto tornou-se ele um agnóstico, depois de ter brevemente simpatizado com Newman e mesmo ordenar-se diácono na Igreja Anglicana. Em sua obra prima de doze volumes, por ocasião da Ordenança Isabelina, que estabeleceu uma nova hierarquia na Inglaterra, Froude fez a mais "Católica" das observações. Ele o fez de modo a descrever tal Ordenança tanto como a substituição de uma ordem essencial por sua mera imagem, a fim de "manter a ilusão" de que uma mesma seiva ainda fluia na grotesca contrafacção da velha árvore da sucessão ininterrupta dos bispos, quanto como pivô de uma catolicidade verdadeiramente Católica:

Um bispo Católico exerce seu ofício por um prazo insusceptível aos acidentes do tempo. Podem mudar-se as Dinastias, perderem nações sua liberdade, aluir-se pela torrente das revoluções o tecido firme da sociedade - permanece em seu posto o prelado Católico. E quando morre, outro toma o seu lugar; e quando inda uma vez as águas submergirem seus alicerces, a plácida figura é vista de pé onde antes postava-se. Mudam-se os indivíduos, enraizada inda está tal autoridade como uma rocha nos fortíssimos pilares do mundo. . . A Igreja Anglicana era um membro amputado ao tronco Católico. . . Se não o tivesse sido em sua essência, poderia manter a forma do que tinha sido, a forma que a tornou respeitável, sem o poder que a tornou perigosa. Esta imagem, em sua aparência, poderia corresponder a de seu tronco materno e, para sustentar a ilusão, era necessário fornecer bispos que parecessem ter herdado seus poderes pelo método consagrado, como sucessores dos apóstolos.(1)  

Froude observou, outrossim, que Cecil, o poder por trás Elizabeth, reuniu todos os bispos Edwardianos que sobreviveram ao reinado de Maria "para quantitativamente munir suas qualificações." Essas qualificações eram defectivas. Entre elas, a precípua era a incapacidade dos bispos de conhecerem a legitimidade de sua ordenação. Tal duvidosa transmissão do poder espiritual resultaria, contudo, em uma hierarquia que, de acordo com Froude, "se teria desintegrado em areia", tendo tombado Elizabeth. Obviamente, a inquestionável legalidade da ordenação dos bispos Católicos fora a razão pela qual, a despeito de todas as suas imperfeições individuais, proporcionaram eles o tipo de legitimidade que em permanência e estabilidade se traduz.

Qualquer que seja a deformidade individual dos bispos, que está a mídia ávida por alardear, o Colégio dos Bispos exibe a única força digna de respeito em um mundo moralmente decadente. A decadência começou nas mais desenvolvidas ou ricas bandas do mundo, que arrebatadamente se estão despedindo dos últimos sinais de sua herança cristã intelectual e moral. Os mais perspicazes protestantes notaram uma enorme diferença entre a sua situação e a dos seus irmãos Católicos. Enquanto acham-se eles, a mais e mais, sob o enérgico atrito das alternativas da moda, os Católicos ainda são recordados por seus imutáveis princípios eternos. A causa dessa diferença precisamente reside no fato de que os Católicos possuem bispos, ao passo que os protestantes não. Aqueles a quem os protestantes chamam de seus bispos o são apenas nominalmente. Um bispo luterano ou um metodista, e com muito mais razões um calvinista ou um Baptista, é um conceito para o qual não pode assegurar legitimidade alguma sua origem ou teologia, ao menos não mais que à quadratura do círculo pode conceder um matemático.  

O que alguns protestantes, pesarosos de não terem bispos tal como definidos por uma tradição de dois mil anos de idade, não compreendem é que têm bispos os Católicos não porque os fazem. É precisamente o contrário: são os bispos que fazem os Católicos . Os Católicos são crentes cuja fé é, essencialmente, uma submissão à voz de determinados indivíduos que se anunciam com a extraordinária alegação de que com a autoridade do próprio Cristo dialogam, e continuam a fazê-lo por dois milênios depois Dele. Isto afirma porque vêem sua autoridade como algo que lhes foi transmitido por indivíduos que, por sua vez, a mesma afirmação fizeram em seu tempo, retrospectivamente até os Apóstolos. Estes, decerto, não silenciaram sua convicção de que eram os depositários da autoridade do próprio Cristo e, portanto, de que era indivisível sua autoridade.

Era, desde o início, muito forte a consciência da necessidade de coesão estrita entre os bispos. Este é um ponto sobre que o intelectual Cristão jamais refletira o bastante, uma vez que permaneça no seio das Academias onde dissensão - e, amiúde, dissensão em razão de mais dissensão - de bom grado passa por aprendizagem e originalidade. Nada, com mais flagrante vigor, corrobora a força da consciência dos bispos que o fato (inda uma vez um fato), de que, desde os primeiros tempos, ao pecado de heresia olhavam como a um crime pior que a idolatria. Essa era a visão de Alexandre, mártir de Alexandria. No Ocidente, Sto. Agostinho ponderou que não há uma só razão que seja para quebrar a unidade da Igreja. Agostinho deu também profícua expressão para o critério concreto "tornar-se um com a totalidade" ou a "catholike". Ao dizer-nos que o critério consiste em tornar-se um com o atual bispo de Roma como sucessor de Pedro, primeiro bispo daquela cidade, Agostinho apenas repetiu uma célebre frase de Sto. Irineu, mártir de Lyon, acerca da obrigação de todas as igrejas de congregar em torno daquela Igreja.
Que não pronunciou Irineu qualquer coisa de "Ocidental" ou Latino, como deu-nos tal critério, está claro por duas razões. Um delas é que era Oriental Sto. Irineu. Lyon era um posto avançado dos gregos no coração do Ocidente. A outra é que Sto. Crisóstomo, o maior de todos os doutores da Igreja Oriental, foi talvez o defensor mais enfático da primazia de Pedro e seus sucessores. Este fato é uma pedra no sapato de todo "ortodoxo ecumênico", que não apenas se orgulha de ser intelectual, mas também de algo saber da verdadeira história da ortodoxia oriental.

Cá, também, tem a história para a teologia a mesma importância que tem os laboratórios para a ciência. Trouxe-nos a História, em conexão com o vocábulo "católico", o único significado que seu sensato uso pode ter: deve ter alguma especificidade em sua generalidade. Aqueles que à palavra "católico" relegaram a uma vaga generalidade ou universalidade foram rejeitados pela história. Os desafios da história muito excediam a aptidão dos gnósticos que, contra o padrão de verdade que estavam ensinando concretamente os bispos autorizados.estabeleceram algumas preferências minuciosamente vagas para o critério de verdade católica ou universal. Repeliu a História a esotérica santidade dos cátaros e seus diferentes ramos, e vindicou as tangíveis normas de conduta tal como pregadas pelos bispos. A História inteiramente desdobrou o princípio de fragmentação que os primeiros protestantes em vão tentaram exorcizar a partir de seus pressupostos iniciais. A História abandonou os "velhos Católicos" precisamente porque estes recusavam-se concretamente rejuvenescer na Igreja sempre viva, que se não podia confinar a uma determinada quadra de sua história. Provaram-se miseravelmente destituídos de qualquer lógica aqueles que, muito recentemente, arriscaram o parecer duma "oposição leal", inda que tenham convencido a si mesmo e a outros derrotados espirituais.  

Aqueles cristãos que querem ser católicos, embora não Católicos, podem muito bem refletir sobre as lições de dois esforços para chegar a um universalismo que era católico, mas não Católico. Um deles, tendo mais de duzentos anos, está esquecido, não obstante muito instrutivo. Na verdade sua significação, por ninguém menos que Talleyrand, foi-nos transmitida. Talleyrand não era propriamente um exemplo de cristão, menos ainda de Católico. Era entanto bispo. Certa feita foi abordado por Larevallière-Lépeaux (1753-1824), membro da Diretório (Directoire Executif de la République Française), que inutilmente pensou e tentou propagar uma nova religião, chamada de "Theophilanthropia". Ao ser informado pelo fundador da nova religião, que perfeitamente parecia condizer com os ditames do intelecto puro, que este não obteve prosélitos, Talleyrand comentou: "Não acho surpreendente seu fracasso. Se quiseres prosélitos, faça milagres. Cure enfermos, ressuscite os mortos, permita-se crucificar e ressuscite ao terceiro dia. "  
Uma vez que, sobre a entrada de todos os departamentos de teologia "cristã", increveu-se esta observação, e que cada novo conjunto de professores começa, em todos os assuntos, por reinventar a Igreja de acordo com novos modelos de fantasias intelectuais, pode-se extinguir com a esperança de qualquer benefício, tanto quanto com a lição de qualquer esforço. Isto pode ler-se no ensaio "Reflexões sobre o Catolicismo", escrito cerca de cem anos atrás. É possível que encontremos jamais uma mais avassaladora celebração estilística do catolicismo. O autor do ensaio tudo exigiu nobre. Tampouco insistiu que uma mesma pessoa deva ser a encarnação de todas as virtudes e perfeições "católicas". De fato, advertiu-nos contra tal excesso: "Somente a fantástica noção de que tudo devemos comer em cima duma mesa é que ao banquete faz parecer pesado." A mera lembrança do nome do autor desse ensaio, George Tyrrell (2), revela que o que realmente defendeu foi a liberdade de escolher na mesa do banquete católico de acordo com suas próprias preferências, e, se necessário ou desejável, se não alimentar de itens que saibam a Catolicismo. Estes itens pairam acima de todos os maiores e, aparentemente muito singulares, fatos da história da salvação.  

Cerca de cem anos mais tarde, depois de uma sistemática má interpretação do que representou o Concílio Vaticano II, o presidente da Conferência dos Bispos Católicos Americanos advertiu, em conexão com a visita do Papa, de que "não é um supermercado a Igreja, onde são livres para tomar ou dispensar o quer que seja os Católicos."(3) Comparado com o que disse Tyrrell, são muito triviais estas palavras, de fato. Mas precisamente por isso elas devem estar ao alcance de todos os intelectuais Católicos, especialmente daqueles que se orgulham de ser teólogos e, amiúde, mais preparam-se com retórica que com rijos pensamentos e respeito aos fatos.  
Intelectual ou não, Cristão ou não, o intelecto de submeter-se aos fatos, e não o contrário. É este um ponto de suma importância se sensatamente discorremos sobre a situação e as responsabilidades dos intelectuais Católicos. O Catolicismo significa, acima de tudo, render-se ao mais momentoso fato da história, Jesus Cristo, ou a carne e o sangue, e portanto, à mais singular realidade (Católica) da encarnação do Filho de Deus. Entretanto uma parte deveras importante daquela realidade consistia em Sua intenção de ministrar com universal autoridade e, em todas as provações, a ver perpetuada. Portanto, a submissão, a Cristo, do intelectual Católico deve ser precedida de uma submissão àqueles que, hoje, são a concreta voz da autoridade de Cristo, que estritamente outorga o Magistério. Só então o intelectual Católico dá início à tarefa de desdobrar as implicações conceituais da realidade da Encarnação para uma compreensão do Catolicismo em toda a sua essência.  

A tarefa é indubitavelmente vasta. A sensata abordagem desta tarefa seria começar com as claras definições derivadas deste ensino oficial. Isto pode entanto em nada resultar numa época temerosa de definições, embora orgulhosa de seu intelecto. Orgulho que sempre cega e a torna inda mais vulnerável. É bastante lembrar-nos o conselho que um eminente professor de filosofia deu a um jornalista pronto para entrevistar Jacques Derrida, pai do desconstrutivismo. Aconselhou ao jornalista Dinita Smith não interrogar a Derrida, de imediato, acerca de sua definição do desconstrutivismo. "Faça-a de sua derradeira pergunta, porque os leva a um paroxismo ou raiva."(4) Tal admoestação é, infelizmente, também susceptível de aplicar-se a muitos intelectuais Católicos, que hoje relutam em dar a definição de alguns termos centrais em seu discurso sobre o Catolicismo.
Em lugar de definições, quiçá seja aconselhável começar com as considerações de fatos históricos. Um tal fato é o mesto privilégio de Roma, que permanece, na Cristandade, o único bastião leal e obstinado de todos os dogmas Cristológicos em nome dos quais tantos Católicos, sobretudo Atanásio, tiveram de fugir para salvar as próprias vidas. É suficiente considerarmos que nesta época de grandeza ecumênica a Igreja Católica muito tolerou a Kantian skullduggeries de Hans Küng, mas o deteve em sua senda "Católica" quando ele meteu-se com a compreensão oficial da Igreja acerca de Cristo como consubstancial Filho do Pai.  

Como um Kantiano, Hans Küng não tinha escolha, mas sentia que a fé Católica em Cristo muito restringia o âmbito do "catolicismo". A fé em questão certamente dá ao Catolicismo um tipo de vitalidade que sentido algum faz no nefasto mundo do apriorismo kantiano, onde os fatos pouco importam. Harnack errou em muitos pontos, mas provou ser um astuto intérprete da história, quando observou, um século atrás, que não fosse por esse dogma da consubstancialidade, o cristianismo rapidamente se teria transformado em uma obscura seita judaica. (5)

O intelectual Católico deve, portanto, sobretudo nutrir-se no episódio e no conteúdo da Encarnação como desde o início o foi entendido. Deve abster-se das releituras deste episódio, como feitas por aqueles que julgam a história como o desdobramento de um Espírito Absoluto, tal como o definia Hegel, não menos insuspeito que seu próprio espírito. Instruídos por Hegel, muitos tornaram-se ignorantes e dados a esse ridículo erro de à frente dos bois pôr a carroça. É preciso ainda que estudem a incrível má compreensão e má interpretação de Hegel quanto ao o exercício do intelecto na ciência à proporção em que, para isto, primeiro deve submeter-se aos fatos.  

Os intelectuais Católicos devem também perceber que nem inventou a si mesma a Igreja, nem sempre inventa a novos dogmas. A Igreja em Nicéia propôs a consubstancialidade não como uma sua inédita reflexão, mas como algo que tinha, com autoridade, de pregar, porque a Igreja já o havia feito, mesmo sem usar esta exata expressão. A consciência que tem hoje, a Igreja, de suas funções e competências continuamente baseou-se na convicção da mais recente geração de bispos em união com Roma de que estas lhes foram transmitidas por bispos anteriores que, por sua vez, nutriam a mesma convicção de lhes ter sido confiada uma autoridade extraordinária. Hans Küng, que tão eloqüentemente pregou sobre o Catolicismo como uma epítome do catolicismo, encontrou seu Waterloo quando, não Roma, mas os seus próprios bispos alemães forçaram-no a um confronto acerca de sua relutância em endossar os Concílio de Nicéia e Calcedônia. Para seu assombro, e isso mostra o quão mal ele compreendeu a história da Igreja (o que nos não deveria surpreender por parte de um kantiano que, como Kant, audaciosamente, tem a pretensão de prevenir o que deve ocorrer na história), os bispos alemães concordaram com a necessidade de ensinar em uníssono com Roma, marco da autoridade viva na Igreja.  

A face vívida daquela autoridade sobreveio com especial intensidade na reação de João Paulo II acerca da ordenação de mulheres na Igreja Anglicana. O atual Magistério, disse ele em sua Carta Apostólica, não tem conhecimento de se lhe ter sido confiado o poder de ordenar mulheres. Não foi porque o Magistério da Igreja tivesse insuficiente poder intelectual para revelar o conteúdo de algumas noções acerca das mulheres e sua ordenação, mas simplesmente porque não tinha conhecimento de se lhe ter sido investido este poder. E ao elaborar esta objurgatória, João Paulo II citou uma declaração muito semelhante de Paulo VI, seu antecessor, duas vezes removido duma corrente cujos elos remontam a Pedro, o chefe dos Apóstolos.

Esta analogia de uma corrente é de especial importância. A sucessão dos bispos, num colegiado, não é algo como a justaposição de elos em uma corrente, onde todos os elos se sucedem distintos, e independentes. Na sucessão do colegiado dos bispos os elos e as linhas se sobrepõem uns aos outros. Os Bispos não morrem todos ao mesmo tempo para serem sucedidos por um outro conjunto de bispos. Mesmo a sucessão dos bispos de Roma se dá num Colégio Episcopal contínuo, embora este último continue a ser um colégio apenas na medida em que se congraça com seu centro.

Um intelectual católico deve ter, como critério último de ponderação, um total e incondicional compromisso com a voz vinda de Roma como o único fator que o coloca em contato adequado com a verdade maior que é Cristo. Este contato se não dá por meio de especulações sobre a história, tomadas num sentido deveras anti-histórico, e que projetam modernos preconceitos no passado. Isto equivale a informar o espírito do indivíduo de hoje a fim de investi-lo duma autoridade superior a daquele que para si reivindicou toda a autoridade no céu e na terra e confiou aos Doze a específica tarefa de continuar com esta mesma autoridade. Estes, impondo suas mãos sobre os outros eleitos, deixaram claro, desde o início, que assumiriam a essencial tarefa de perpetuar essa autoridade, não como uma simples idéia, mas como uma realidade concreta, até o fim dos tempos. A principal incumbência dum intelectual Católico é regozijar com este fato, de assombrosas proporções, posto que lhe franqueia o acesso ao grande acontecimento, Cristo, a fim de que, em sua mais alta expressão, possa realizar a verdadeira atividade do intelecto, que é submeter-se aos fatos .

Eis a essência do que, em tempos mais sensatos, foi destemida e orgulhosamente denominada como lealdade a Roma. Nestes tempos cada vez mais confusos, nada se pode fazer de melhor que voltar a John Henry Newman para mostrar-nos algo das ramificações daquela lealdade. O que nos disse ele para sempre desmente a percepção, cuidadosamente nutrida, de que a Igreja é apenas uma outra forma de democracia, em que a maioria de votos, cuidadosamente manipulados por alguns com pronto acesso aos meios de comunicação, decide o que constitui a verdade, se ainda experimentamos a necessidade de verdade em tudo .

O trecho que vamos citar é uma nota que Newman anexou a re-edição de sua "A Via Media ou a Igreja Anglicana", como parte de suas obras completas. Aqueles que leram sua Apologia já sabiam que a principal razão para a sua conversão ao Catolicismo era a constatação de que a "Via Media" só existia no papel. Mas, para que ela não viesse ser mal interpretada, acrescentou a seguinte nota:

Direi, mas de passagem, que não devo, neste argumento, esquecer que o Papa, como Vigário de Cristo, herda estes ofícios e atos da Igreja mesma. . . O Cristianismo é, pois, ao mesmo tempo uma filosofia, um poder político, e um rito religioso: como uma religião, é Santo, como uma filosofia, é Apostólica, como um poder político, é imperial, isto é, Uno e Católico . Como religião, o seu centro especial de ação é o pastor e rebanho, como filosofia, as Escolas, como regra, o Papado e sua Cúria (grifo nosso) (6)

Tal lealdade, única entre todas, pois se liga a Cristo, deve, portanto, ter ramificações intelectuais que são verdadeiramente libertadoras. Uma vez combalido naquela lealdade, o intelectual Católico será tomado por dúvidas quanto a superioridade do Catolicismo, se considerado com fator cultural, sobre tudo mais. Inda uma vez, aqui, ouçamos a voz de Newman como a voz de alguém que muito combateu para derribar as ilusões e a imagem de uma Igreja que substituiu a salvação pela propriedade cultural; e para participar da verdadeira Igreja que, se parecia culturalmente inferior, fez, de fato, muito maiores contribuições para a cultura do que qualquer outra Igreja ou organização. Isto ele asseverou para o seu sobrinho, John R. Mozley, professor de matemática em Manchester, que, numa epístola, expressou sua estupefação, a seu famoso tio (que inda não era cardeal), pelo fato de como fora possível a uma tão prodigiosa inteligência voluntariamente cegar-se para os irremediáveis defeitos ​​da Igreja Romana:

Admito que o ensinamento da Igreja, que em suas exposições formais é divino, tem sido, por vezes, pervertido pelos seus funcionários, representantes e súditos, que são humanos. Admito que se não fez o bem tanto quanto se poderia fazê-lo. Admito que, na sua ação, que é humana, é um justo alvo para críticas ou acusações. Mas o que eu afirmo é que ela tem feito uma incalculável quantidade de bem, que tem feito o bem de um especial modo, como nenhum outro governo histórico, docência ou culto o fez, e que este bem resulta de seus princípios professados, e que suas lacunas e omissões resultam de um descuido ou um abandono momentâneo destes princípios. (7)
Esta passagem exige uma reação bem distinta. Por um lado, seria correto inferir que é dever do intelectual Católico investigar tal incalculável quantidade de bem. Ademais, estaria correta ao acrescentar que deve ele convencer-se de que existe o bem em questão e, portanto, vale a pena o esforço de descobri-lo e trazê-lo à plena luz do dia. Ele deve também reconhecer que "a descoberta favorece a mente preparada"; frase adequadamente cunhada sobre as condições sobre as quais se realizam as descobertas científicas.  
Por outro lado, essas considerações não implicam que os intelectuais Católicos apenas se qualificam como Católicos por trabalharem sobre temas especificamente "Católicos". Um intelectual Católico permanece não apenas um intelectual, mas também um Católico, se ele ou ela investiga temas puramente naturais. A maioria das áreas de investigação são de tal ordem. Isto é deveras evidente quando se considera, por exemplo, a grande variedade de pesquisas disponíveis nas ciências naturais. A maioria dos ramos da ciência não levantam os tipos de questões fundamentais que tocam os fundamentos da epistemologia e, conseqüentemente, da metafísica. Mesmo na física de partículas fundamentais e em cosmologia científica muita pesquisa pode ser feita sem nunca deparar a questão sobre o estatuto ontológico do verdadeiro momento primeiro e sua relação com a origem do universo, ou a criação de toda a matéria a partir do nada. O intelectual Católico escarnece de seu Catolicismo se admite jogos conceituais com a Criação, tão caros e fomentados pela interpretação de Copenhague da mecânica quântica.
A questão de que se é possível saber se há um universo, que Kant desqualificou como um produto bastardo da ânsia metafísica do intelecto, está continuamente posta diante todo e qualquer cosmólogo. Não será contornada substituindo-se o termo "universo", esta entidade católica na medida em que representa a totalidade das coisas, pelo termo "multi-verso", que é uma máscara verbal para legitimar a incoerência cósmica, uma perspectiva certamente anticientífica. Em um nível diferente, o trabalho em biologia, especialmente na genética, revela cada vez mais flagrantemente questões que são éticas, nesse sentido supremo em que a ética se relaciona com o âmago católico da personalidade.
Um intelectual Católico deve estar pronto para enfrentar essas questões num sentido genuinamente Católico. E se não adquiriu a capacidade de lidar com essas questões, ele ao menos deve ter a vívida convicção de que respostas Católicas lhes podem ser dadas e de que, de fato, foram dadas amiúde. E, mais importante, o intelectual Católico não deve sacrificar a verdade dessas respostas em função de seu prestígio junto à academia secular, que é nulo na maioria dos casos.  

Um intelectual Católico deve estar pronto para nadar contra a corrente que contra ele fluirá até o fim dos tempos. Ele não deve sonhar com uma nova Idade Média, em parte porque aqueles tempos eram, de muitos modos, muito medíocres, e em parte porque a história não pode repetir-se. Utopia e história são noções mutuamente exclusivas. Ele meditará jamais o bastante acerca duma afirmação amiúde negligenciada nos Documentos do Concílio Vaticano II sobre a impiedosa luta entre a Igreja e o mundo, uma luta que nunca terá fim. Ele está, é claro, totalmente qualificado para indagar-se sobre a estranha desproporcionalidade entre esta luta gigantesca e sua breve menção naqueles documentos.  

Ele deve estar pronto para reconhecer as oportunidades de pesquisa Católica em seu próprio campo. O caso de Pierre Duhem (1861-1916) permanece o mais instrutivo. Ele não sonhou com o que eventualmente estava prestes a descobrir quando começou a procurar a origem histórica do princípio das velocidades virtuais, pedra angular da ciência do movimento. Não tencionava senão mostrar-nos que historicamente a Física consistia tão-somente na economia sistemática dos dados, medições, e, portanto, permanecia inepta para comunicar-nos qualquer coisa acerca do estatuto ontológico, muito menos metafísico do real.  

Isto não sugere que uma vasta elucidação deste ponto não contivesse uma grande visão libertadora - a expectativa de eliminação, de uma vez por todas, do espectro do cientificismo. Mas quando Duhem descobriu que fôra na Sorbonne medieval que a prima alusão ao princípio foi concebida, ele não hesitou em colocar tudo de lado. O resultado foi a descrição, numa dúzia de grandes volumes, da origem Cristã medieval da ciência Newtoniana.  

O próprio Duhem, um ferrenho e devoto Católico, desde a infância, deu-nos um inestimável relato de sua odisséia intelectual em seu ensaio, "A física de um crente", que deveria ser leitura obrigatória para todos os intelectuais Católicos, cientistas ou não. Talvez a leitura meditativa sobre aquele ensaio lhes dê a inspiração para colocar uma grande quantidade de coisas de lado quando uma mesma oportunidade, remotamente similar, se lhes surja diante dos olhos minuciosos.

Mencionei Duhem em parte porque no trabalho de sua vida encontrei, combinando o dever de um físico, de um historiador e filósofo da ciência e de um artista, uma verdade e uma inspiração Católicas em mais de um sentido. Certamente inspiradora é sua resolução de não ser desencorajado pelo sistemático desdém que lhe votou a academia secular, durante e depois de sua vida. Ele a conservou, obtendo enorme satisfação ao receber a notícia sobre o conforto intelectual que estudantes e pessoas das universidades Católicas encontraram em seus escritos.

O fato de que alguns leitores não-Católicos de minha "A Relevância da Física" e das minhas "Leituras de Gifford", "A Via da Ciência" e os "Caminhos para Deus", encontrarem neles um grande estímulo para se converteram à Igreja Católica, continua a ser para mim muito mais precioso do que alguns prêmios de prestígio. Não que qualquer desses livros fossem de apologética em qualquer sentido. Eles eram meros apelos, como qualquer esforço intelectual deve ser, em nome da verdade.

Pois, se um intelectual Católico vexa-se ao fazer apologética nesse sentido, ele trai tanto sua inteligência quanto seu Catolicismo. Ele também rompe com sua ligação à longa cadeia de intelectuais Católicos, que começa com Justino Mártir, autor de duas Apologias que lhe custaram a vida. O próximo grande elo dessa cadeia foi a "Cidade de Deus" de S. Agostinho, uma aguerrida apologia em favor da cultura Cristã entregue, pois, à Igreja Católica. Ainda um outro grande elo dessa corrente foi a "Suma contra os Gentios" de S. Tomás de Aquino. Certamente, estes dois últimos trabalharam, outrossim, em muitos outros temas, incluindo a pura teologia Católica, mas eles consideravam a apologética parte essencial da sua missão Católica.

E o que dizer de Newman? Ele é, inda hoje, amiúde alardeado como o teólogo do Concílio Vaticano II. Esta é uma etiqueta realmente estranha, ao menos por uma razão: Newman freqüentemente ressaltava que não era um teólogo, mas, horribile dictu, um polemista! Em verdade, disse também que jamais perderia a oportunidade duma boa batalha! Sempre gentil com as pessoas, poderia ser cruelmente incisivo quando se tratava de princípios fundamentais. Não era um campeão da brandura "ecumênica" - moderno expediente com que prevenimos a que qualquer pessoa nos pareça um simples idiota, senão um anódino vilão intelectual.

Logo após sua conversão, Newman deixou claro que ele não queria mais perder tempo com essa miragem do Catolicismo, a Igreja Anglicana. Antes, no pináculo de sua vida, fez do combate ao pragmatismo agnóstico da moderna sociedade educada sua mais definitiva ambição. Sua Apologia era uma apologética pessoal. Sua "Grammar of Assent" inda permanece um egrégio tratado acerca de alguns temas epistemológicos elementares de que se deve curar para uma exposição efetiva da doutrina católica, na verdade, da Igreja Católica, para a mente moderna. Jamais olvidemos que a "Grammar of Assent" chega ao fim com um apelo em nome da Igreja Católica histórica, que para Newman foi a Igreja de Roma.

Esta Igreja era para ele o único meio com que se podia compreender o episódio da Encarnação do qual dizia que era, entre todos os dogmas, o mais difícil de aceitar. Entretanto, uma vez consagrados a esse dogma, quintessência do sobrenatural, não faz sentido, argüia Newman, repelir a manifestação concreta do sobrenatural tal como se encontra na Igreja Católica. Eis, pois, o porquê sempre aceitou, aí, com entusiasmo, milagres atuais. Indubitavelmente ouviu rumores sobre o milagre do sol em Fátima, no termos da observação de Paul Claudel de que Fátima significou uma "colossal intervenção do sobrenatural no mundo natural." (8)

Sob pretexto algum atenuaria Newman esse milagre, nem quaisquer outros, receando parecer "retrógrado" aos catedráticos de Oxford e seus equivalentes da Sorbonne, de Harvard, de Tübingen e de outros lugares. Pois sabia que, independentemente de seu refinamento intelectual, eles também faziam parte de um mundo tragicamente decaído. Os Intelectuais Católicos, muitos dos quais tornaram-se presas do falso otimismo duma tendência decisiva, ascendente, em direção a um ponto Omega mítico, fariam bem em meditar sobre "dicta" de Newman acerca do pecado original, que, de sua parte, algo dizia, embora "obiter dicta". Ele pronunciou aquelas "dicta" contra o pano de fundo de uma sociedade nominalmente Cristã para a qual o verdadeiro santo era o cavalheiro polido.

Se quer hoje o intelectual Católico um ordálio, é este o ordálio de Newman, que nunca se furtou ao desafio do que é verdadeiramente sobrenatural. E segue provocando, portanto, tal nenhum outro moderno intelectual Católico, os que julgam que por lidar com os desafios naturais, estão à altura dos desafios de uma revelação sobrenatural dada concretamente na Igreja Católica em sua plenitude. Muita alusão ao conteúdo de meu livro, "O Desafio de Newman" (9), uma coleção de doze ensaios meus publicados ao longo dos últimos dez anos sobre os vários aspectos do pensamento de Newman que lhe eram caros, embora, infelizmente, irrisórios para nós.

Finalmente, a todos nós, intelectuais Católicos, ávidos por indagar dos princípios do conhecimento e das noções elementares (e freqüentemente julgando que é inda possível descobrir a pedra filosofal) deve jamais esquecer-nos as sábias observações de Pascal: "Todos os bons princípios já foram ditos. O que resta é colocá-los em prática."(10) Prática significa realidade. No que se refere à prática do Catolicismo como uma proposição intelectual, deve iniciar-se a partir dessa realidade, extremamente estrita em muitos aspectos, na qual estava o próprio Cristo em sua realidade galiléia. É por isso que ninguém no mundo dos sábios lhe deu qualquer importância enquanto viveu, ou mesmo depois. De qualquer forma, rir-se-iam dele, como riu Domiciano quando alguns camponeses da Galiléia, parentes de Jesus, foram conduzidos a sua presença em Roma. Pareciam-lhe claramente como a encarnação do mais crasso atraso.  

Isso ilustra o supremo paradoxo do catolicismo. Na proporção em que está verdadeiramente relacionado com Cristo ele permanece incrivelmente específico, singular. Mas assim é qualquer entidade real e verdadeira, diferente das especiosas fábulas da imaginação; "católica" como pode parecer a muitos intelectos paroquiais que se orgulham de ser "católicos". O Verdadeiro Intelecto católico para sempre encontrará o timbre da verdade de que "católico" exige, reclama "Católico" como sua única garantia e justificação.


Stanley L. Jaki é sacerdote beneditino húngaro
vencedor do Prêmio Templeton, 1987.


Notas

1 A. Froude, The History of England from the Fall of Wolsey to the Defeat of the Spanish Armada (1856-1870), vol.VII, p. 174.
Esta obra monumental, estabeleceu Froude como um dos principais prosadores ingleses, alentando enormemente os preconceitos intelectuais contra a Igreja Católica. Daí o valor especial do testemunho de Froude.

2 Tyrell (1861-1909), um convertido ao catolicismo e, posteriormente, um jesuíta, foi excomungado quando rejeitou a condenação que Pio X emitiu contra o modernismo em 1907.

3 Arcebispo Pilarczyk, citado no The New York Times, 21 de setembro de 1987, p. 1 col.2.

4 Citado em The New York Times, em 15 de setembro de 1998. 
 
5 A. Harnack, History of Dogma, tr.EB Spears and J. Millar (London: Williams and Norgate, 1898), vol. IV, p. 43.

6 Prefácio à terceira edição, § 2, 10, ou p.XL na standard Longmans edition das Obras Completas.
 
7 Cartas e Diários, vol. 27, p.283. Carta de 21 de Abril de 1875. 
 
 8 The opening words of Claudel’s introduction to Méditations sur les révélations da Fatima by Ch. Olmi (Le Puys: Mappus, 1944).Newman surpreender-se-i ao descobrir que uma leitura atenta dos relatos de testemunhas do "milagre do sol" resultou na conclusão de um milagre meteorológico colossal. Veja o meu livro, God and the Sun at Fatima (Deus e o Sol em Fátima) (Royal Oak, MI: Real View Books, 1998), 381pp. 
 
 9 Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2000 viii + 323pp. 
 
10 Pascal, Pensées.

Este artigo foi publicado originalmente na revista Catholic Dossier edição de janeiro / fevereiro de 2000 pp. 8-16

O texto em inglês pode ser lido clicando aqui
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