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A Universidade não é uma Ágora


O que parece inacreditável em todo esse ambiente é que ninguém consegue garantir o bom funcionamento de um espaço destinado ao ensino e à reflexão. É terra sem lei.

O clima de banalização do espaço universitário vai além. Basta uma greve, por exemplo, para que cadeiras sejam retiradas das salas de aula e se transformem em barricadas a fim de impedir o livre acesso de docentes, alunos e funcionários. Mobilização fácil essa que, diga-se, resulta apenas no impedimento ao diálogo entre as partes conflitantes.

Além da vedação à troca de ideias, muitas cadeiras, pagas pelos impostos da população, acabam, como é de se esperar, danificadas, resultando em prejuízo para o Estado e para o contribuinte.

Prejuízo, aliás, que virou rotina de forma inacreditável. Só no ano passado, seis projetores foram roubados do prédio da História e Geografia. Ninguém foi responsabilizado. A solução óbvia seria a instalação de câmeras de segurança. Mas na USP contamos com a oposição dos que acham que as mesmas resultarão em "controle".

Em nome de um discurso ideologizado, impede-se a defesa do patrimônio público.

É como se um gestor tivesse que pedir licença para repor um vidro quebrado. Ou um diretor de uma repartição pública tivesse que pedir autorização para colocar as câmeras de segurança no Metrô, na Secretaria de Fazenda ou no Hospital dos Servidores. Acanhados diante da obrigação de fazer valer a lei, como se tal atitude nos fizesse reacionários, ficamos calados.

Esse é o caminho que, lentamente, a universidade trilha no sentido de seu definhamento. Não tenho dúvida de que o poder público também é responsável pela crise vivida nas universidades públicas. A novidade é que não são apenas os governantes os agentes da crise. Há inimigos internos, que desprezam o saber e a hierarquia acadêmica.

Em nome de verdades absolutas, conduzidas por vanguardas autoritárias, não têm dúvidas sobre suas ações. São minorias que, ignoradas no mundo real se escoram nessa bolha que tem se tornado a universidade. O mais grave, insisto, é o acanhamento diante do imperativo de fazer valerem as leis. Estas, universais, se aplicam também para o espaço universitário. Ou deveriam.

É proibido fumar em um ônibus? Na universidade também é. É proibido consumir bebida alcoólica em repartições públicas? Na universidade também é. É proibido apertar e acender um baseado em qualquer lugar, ao menos por enquanto? Na universidade também é. A USP não é uma ágora separada do mundo real. Fazemos parte dele.

Somos sustentados por maiorias que nem sequer sabem onde fica a Universidade de São Paulo. Voltar-se para essas maiorias é tarefa que exige reflexão e empenho, mas precisamos arrumar a casa primeiro. O medo de impor a lei é um caminho curto e fácil para uma reinterpretação medíocre de nossa carreira e do papel da universidade. No mínimo.




(*)FRANCISCO CARLOS PALOMANES MARTINHO, 53, é professor Departamento de História da USP. É autor de "A Bem da Nação: O Sindicalismo Português entre a Tradição e a Modernidade" (Civilização Brasileira)

Francisco Carlos Palomanes Martinho: A universidade não é uma ágora - 29/05/2015 - Opinião - Folha de S.Paulo

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