Revolução e Marxismo Cultural: Visão Histórica


"Mr. Gorbachev, open this gate. Mr. Gorbachev, tear down this wall!"

Em 1989, houve um acontecimento que mudou a história recente da humanidade: a queda do muro de Berlim. O que aconteceu, na prática, foi o suposto desaparecimento do comunismo real diante daquilo que parecia uma vitória do capitalismo ou uma vitória de dois homens específicos: o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, anticomunista ferrenho, e o papa João Paulo II, vítima do comunismo na Polônia.
Dois anos antes da queda do muro de Berlim, em 1987, Ronald Reagan, diante do portão de Brandemburgo, em Berlim, falando a respeito do secretário geral do partido comunista Mikhail Gorbachev, pediu aquilo que todos os homens de boa vontade do Ocidente desejavam: "Mr. Gorbachev, open this gate. Mr. Gorbachev, tear down this wall!" [1].
Então, em 1989, diante da queda do muro, o capitalismo, os valores do ocidente e o Papa João Paulo II pareciam ter triunfado.
Porém, na ocasião da viagem de João Paulo II a Cuba, um jornalista perguntou a Fidel Castro como o líder cubano se sentia ao receber a visita do homem que havia derrubado o comunismo. Fidel respondeu: “eu não desprezaria assim Mikhail Gorbachev". Hoje, cada vez mais, se percebe que tudo aconteceu de caso pensado. Declarações do próprio Gorbachev e de alguns comunistas já previam a necessidade de se promover uma aparente morte do comunismo, para que o espírito e o ideal do comunismo se alastrassem no Ocidente. Os próprios comunistas compreendiam que havia uma espécie de queda de braço na guerra fria e que estavam perdendo a disputa. A guerra indicava uma vitória dos EUA, que estavam muito melhor que os soviéticos. Quando os EUA estavam vencendo a batalha militar, os comunistas se dirigiram para outro campo de batalha. Já há décadas haviam percebido que o caminho da vitória sobre o capitalismo não era o militar, mas o cultural.
Mas, como aconteceu o triunfo da linha marxista cultural, que parecia originalmente heterodoxa? No século XIX, Karl Marx defendia a ideia de que a sociedade era injusta porque explorava o trabalhador. Era necessário que através de um método revolucionário (armado), a classe trabalhadora tomasse posse do governo, implantando uma ditadura do proletariado, controlando os meios de produção. E essa ditadura seria uma ponte para uma sociedade que, ao final, seria justa, sem classes, sem governo.
Em suma, o ideal de Marx era a implantação de um paraíso terrestre, de uma sociedade justa, perfeita, através do poder criativo do mal. Marx, porém, não é a origem de tal pensamento, mas somente um porta-voz. Afirmar a força criativa do mal, do negativo, que da destruição faz surgir algo de bom é um princípio da filosofia Hegeliana. De uma antítese forte, segundo Hegel, surge uma síntese superior. Hegel identifica uma espécie de injustiça com o mal, com o negativo, que foi demonizado, exorcizado, criando imobilismo e falta de vitalidade. Hegel traz para a filosofia algo que já era enxergado e defendido pela arte, pelo romance [2] .
“Dê asas à maldade e acontecerá algo de bom". Foi o que Hegel propôs com a sua dialética. Marx levou tal conceito à prática. No caso de Marx e da revolução armada, a luta seria suprassumida, levada para cima. Matar, destruir, hostilizar a civilização, trazer abaixo a ordem foi o caminho adotado (ou proposto) por ele para a produção de uma ordem superior. E esse mesmo princípio é o que governa a vida de muitos sacerdotes e muitos bispos, dentro da própria Igreja hoje. Muitos fazem automaticamente coisas que não sabem de onde vêm [3] .
É preciso que desde o início estas realidades fiquem claras, para que se consiga distinguir claramente qual o papel que cada personagem desempenha na Igreja. Uma pessoa só pode ser julgada a partir das coisas que combate. Se alguém diz que é a favor dos pobres, dizendo que ama a justiça social, o único critério para verificar se está dizendo a verdade ou não é analisar o que irá combater: se combate tudo o que há de sagrado, como a liturgia do Missal, a disciplina do Código de Direito Canônico e a doutrina do Catecismo da Igreja Católica, percebe-se, claramente, uma realidade diversa daquela que é apresentada costumeiramente. Uma coisa é a propaganda que é feita de si mesmo, outra é o verdadeiro intento de cada pessoa em seu agir cotidiano.
Um exemplo pode ser encontrado numa pessoa que declara seu amor à verdadeira tradição da Igreja e não à “tradição engessada" de Trento; que afirma amar os santos, mas somente os que são “comprometidos"; que diz amar a liturgia, mas a liturgia “inculturada", capaz de “falar" ao povo. Na realidade, em todos os casos citados, é necessário entender que existe um princípio de ação marxista, que permeia todos os comportamentos: é o princípio do negativo, do destruidor, que busca por abaixo toda a estrutura vigente para que uma “melhor" seja erigida [4] .
O papa Bento XVI recentemente esteve na Alemanha, no Congresso Nacional (Bundestag) e dirigiu uma palestra aos parlamentares de seu país. Foi aplaudido efusivamente de pé por quase todos os congressistas, exceto por um pequeno número de pessoas, de um determinado partido. Em suas palavras conclusivas o papa disse:
"A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. Na consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico" [5].
Segundo Bento XVI, é necessário defender a fé cristã, o direito romano, a filosofia grega porque existe um movimento revolucionário que está derrubando (ou já derrubou) estas três colunas da civilização ocidental. O papa professa publicamente que é necessário reerguê-las. É preciso, porém, deixar claro quem quer e por que quer destruir estas colunas.
Hegel e Marx, como já apresentando, colocam a realidade do trabalho do negativo. Marx, por exemplo, quer, através de um trabalho de destruição, trazer abaixo uma ordem e um sistema que, segundo ele, oprimia o trabalhador. Marx profetizou uma sociedade justa, sem classes, sem governo, dizendo que isso aconteceria por uma revolução dos trabalhadores. Previa que os trabalhadores iriam sofrer tanto debaixo da pressão dos capitalistas que, mais cedo ou mais tarde, haveria tanto conflito a ponto de estourar uma revolta [6] .
Sua obra O manifesto do partido comunista termina com um convite para a união dos proletários. Imaginava que os trabalhadores dos diversos países da Europa iriam se unir contra os capitalistas, impondo uma ditadura do proletariado. Isso, porém, nunca aconteceu. Apesar de ter acontecido uma guerra (I Guerra Mundial), os trabalhadores não se uniram para lutar contra os proletariados, mas para lutar contra outros trabalhadores.
Depois da I Guerra Mundial, o marxismo estava em plena crise teórica: como foi possível a união dos trabalhadores para matar outros trabalhadores, buscando defender os interesses de seus patrões? Quem os alienou?
Marx, de certa forma, já havia encontrado a “solução" em uma de suas frases mais conhecidas: a religião é o ópio do povo [7]. Marx havia entendido que havia um fator cultural que alienava o povo. Porém, não conseguiu elaborar tal pensamento de forma adequada.
Tal elaboração será feita por dois filósofos, de forma independente, um húngaro, Georg Lukács e o outro italiano, Antonio Gramsci (que teve seu método acolhido pelos marxistas culturais). Quando terminou a I Guerra, diante da grande crise teórica do marxismo, para Gramsci e para os marxistas culturais, o grande adversário a ser derrubado mostrou a sua face: a ética judaico-cristã, a filosofia grega, o direito romano, eram como que uma espécie de veneno que alienava as pessoas, impedindo os trabalhadores de lutarem de forma revolucionária.
Gramsci esteve na URSS, durante a década de 20. Presenciou a tentativa de Lênin de estabelecer as bases do estado soviético. Viu também quando Stálin tomou as rédeas do partido, matando vários dissidentes comunistas (Trotsky, por exemplo). Viu que o comportamento de Stálin era a aplicação prática da filosofia de Hegel. Gramsci pôde compreender que era necessário destruir, trazer abaixo a cultura ocidental, mas que não haveria solução pelo caminho stalinista. Era preciso implodir as três colunas do Ocidente, lentamente, anonimamente, gradualmente. Na técnica gramsciana, nada pode ser ostensivo, tudo deve ser feito disfarçadamente, com o veneno sendo ministrado ao paciente como se fosse um remédio, como se fosse o medicamento de sua salvação. Em outras palavras, é necessário destruir a cultura ocidental em nome da dignidade e da liberdade do homem. Em nome da liberdade, cria-se a ditadura. Em nome dos Direitos Humanos, cerceiam-se os direitos do homem.
Uma coisa é aquilo que o marxismo cultural alardeia, outra coisa é o que ele verdadeiramente busca fazer. Em nosso país, um exemplo disso é a aprovação do “casamento" homossexual. Tudo foi feito em nome da dignidade humana, pois os homossexuais não podem ser oprimidos, têm direitos, não podem ser vítimas de um olhar preconceituoso.
O objetivo, na realidade, é a destruição da família, pois para o pensamento marxista a família é um valor burguês, uma desgraça que precisa ser extinta, já que está baseada em elementos que impedem a revolução: a propriedade privada (bens passados para herdeiros, perpetuação da propriedade privada), a opressão patriarcal (o homem é maior do que a mulher, não há igualdade) e a ética sexual burguesa. Só como exemplo, numa relação homossexual existe uma clara afronta à ética sexual cristã, uma violação ao patriarcalismo ocidental, não há herdeiros. A propaganda é a defesa dos direitos dos homossexuais, mas o interesse verdadeiro é a destruição da família. Como o povo está alienado, com um pensamento cristão muito arraigado, é necessário entrar em sua consciência e arrancar à força os valores “burgueses" que impedem a revolução. Mais uma vez, o caminho é olhar para o que é combatido, não para aquilo que pretensamente é defendido.
Esta introdução buscou colocar uma visão panorâmica do que é marxismo cultural. Marx quis implantar uma sociedade nova aqui na terra. Gramsci mostrou que os meios para tal empreendimento são os culturais, já que os métodos armados não deram certo. O que Gramsci propõe é a mudança do interior das pessoas, pois somente assim acontecerá verdadeiramente o início da nova sociedade. É necessário aculturar as pessoas, acabar com a cultura de cada uma delas.

Referências

  1. “Senhor Gorbachev, abra este portão! Senhor Gorbachev, derrube este muro!". Discurso proferido diante do portão de Brandemburgo no dia 12 de junho de 1987. O vídeo pode ser conferido em: http://www.youtube.com/watch?v=5MDFX-dNtsM.
  2. Isso pode ser conferido no romance Fausto, de Goethe, no momento em que Mefistófeles, o demônio, apresenta-se ao protagonista: “Fausto: Pois então, quem és tu? Mefistófeles: Eu sou uma parte dessa força que deseja sempre o mal e sempre cria o bem". (GOETHE. Fausto. Quadro IV, Cena II. Segundo o original: Fausto: Nun gut, wer bist du denn? Mephistopheles: “Ich bin ein Teil von jener Kraft, die stets das Böse will und stets das Gute schafft".)
  3. Nesta série de palestras, será necessário tomar uma decisão: ser um teólogo da Libertação competente, buscando fazer um trabalho de destruição dentro da própria Igreja; ser alguém fiel à Igreja, à Tradição e ao papa. Este material pode ser utilizado para o bem, sabendo o que se deve fazer para evitar o mal; ou então, ser utilizado para o mal, conscientemente usado para destruir a Igreja.
  4. Infelizmente, o princípio da destruição parece estar presente dentro da Igreja. Muitas pessoas creem que quanto mais forem devassas, quanto mais destruírem a moral tradicional, mais promoverão o amor; quanto mais caluniarem, quanto mais destruírem a vida dos outros, tanto mais implantarão o reino de Deus; creem que quanto mais criarem desordem e profanarem o sagrado, tanto mais servirão à causa de Deus. Vivem, portanto, de acordo com o princípio da destruição.
  5. Bento XVI, Discurso na visita ao Parlamento Federal no Palácio do Reichstag de Berlim, proferido no dia 22 de setembro de 2011. O discurso está disponível em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2011/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20110922_reichstag-berlin_po.html
  6. Para dar maior fundamento às suas teorias, Marx consultou dados relativos aos trabalhadores nos “Blue books" ingleses, forjando, porém, os dados coletados.
  7. Numa época em que havia grandes dificuldades para se amenizar uma dor lancinante, o ópio era uma possibilidade alucinógena para fugir da dor.

fonte: Revolução e Marxismo Cultural: Visão Histórica

Consciência do Eu: O Brasil não é mulato nem o Nordeste é Salvador; ou: o Brasil Ibérico, caboclo e indígena e a política de cotas






Recentemente, houve uma polêmica em torno da escolha dos brancos Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert como apresentadores do sorteio da Copa, deixando de lado os mulatos Camila Pitanga e Lázaro Ramos. O imbróglio revela a um só tempo a força do movimento negro e o preconceito e discriminação a que todos os cidadãos brasileiros que não são afrodescendentes podem sofrer nesses tempos de politicamente correto e de imitação das neuras estadunidenses nesse lado de cá do hemisfério. Esta discriminação assume um aspecto ainda mais feroz porque não se restringe ao campo jurídico, não diz respeito apenas ao estabelecimento de leis que dificultam a vida de indivíduos de etnias diversas, mas porque estabelece um discurso de classificação racial alheio à realidade do país, importado dos conflitos raciais da América do Norte, e que apaga da memória oficial ou menospreza elementos cruciais da formação nacional.

Um promotor, ao opinar sobre o a escolha realizada no sorteio, afirmou que os atores mulatos ''representam melhor a composição étnico racial do povo brasileiro.''[1]Onde, mizifio? Segundo o censo do IBGE, mais da metade da população desse país que o promotor citado desconhece se declara branca [2]. Esse pessoal não pode ser representado por causa de quê? Lá na festa da FIFA escolheram Olodum, Maragareth Menezes, Alcione, Vanessa da Mata, Alexandre Pires para que apresentassem a música brasileira. Ninguém buscou representar o som regional do Centro Oeste ou do Sul do país, por exemplo. Não vejo ninguém querendo abrir investigação por causa disso. 

Se a desculpa pela preeminência de figuras negras entre os artistas selecionados se dá por causa da realização do sorteio em Salvador, não custa lembrar que a população cabocla é tão ou mais significativa no Centro Oeste, Norte e Nordeste do país do que a de pretos e mulatos. O IBGE usa cinco classificações étnico/raciais nas estatísticas oficiais: brancos, amarelos, negros, indígenas e...pardos. Os pardos incluem todos os mestiços, que são tradicionalmente designados no país com termos diferentes para se fazer referência à sua ascendência: mulatos, caboclos, cafuzos. No Sudeste, o mestiço predominante é o mulato, e assim também ocorre em algumas cidades de Goiás e em Recife e Salvador -- estas últimas foram capitais nordestinas muito marcadas pela importação de africanos. Mas nas demais regiões brasileiras -- Sul, Norte, Centro-Oeste e Nordeste --, um dos tipos mestiços mais comuns, quando não o dominante, é o caboclo. Toda essa massa é escondida pelas pesquisas oficiais de cor do brasileiro porque são empurrados para o rótulo de ''pardos'', e este, por sua vez, é sinonimizado nas políticas públicas e na mídia com a figura do afrodescendente. Será que ainda se ensina nas escolas do Sudeste que grande parte dos mestiços desse país não tem ascendência africana? Pra essa gente, só se é brasileiro típico se você possuir algum pé na África, pouco importando se este gene africano é minoritário, irrelevante ou inexistente no fenótipo ou cultura de setenta por cento da população desse país [3]




O problema se torna ainda mais nítido quando se sabe que boa parte dos autodenominados brancos no Brasil são mestiços e, principalmente, caboclos. Para a Cultura Amazônica, nordestina [o típico nordestino do sertão, da caatinga], campeira e pecuarista, do peão e do pequeno agricultor do interior, da viola, do catolicismo arraigado, as marcas do africanismo são ou pequenas ou subordinadas a outros elementos étnicos [4]. E ainda assim o IBGE, a mídia, e as políticas públicas oficiais as impõem a todo este contingente populacional que se espraia pela maior parte do território nacional. 

No fundo, a importação dos dilemas do movimento negro estadunidense para estas regiões da América provocaram, para além de consequências positivas cá e acolá para pretos e mulatos, mais um ciclo de dominação do Brasil costeiro e voltado para USA e Europa sobre o Brasil profundo, e um afastamento em relação a muito do que nos une e aproxima dos vizinhos sul-americanos, que possuem uma herança fortemente indígena em sua constituição cultural e racial. [5]


o podemos nos esquecer também que, se é verdade que não somos herdeiros culturais e raciais dos vikings, também é verdade que fomos colonizados por um povo branco e europeu [com pitadas cá e lá doutros povos também brancos e europeus], que estabeleceu nestas florestas o cerne daquilo que em nós é civilização. Fingir que essa matriz civilizacional portuguesa, branca e católica-romana não existe é se tornar cego para a própria realidade que chamamos Brasil, que é, pra falar o óbvio ululante, herdeira da interiorização pela América Portuguesa de noções e esquemas de poder e sociedade metropolitanos.

E aqui se insere a questão da política de cotas que tomou conta do país. Sou contra cotas baseadas no critério de raça por vários motivos, sendo o principal deles a apropriação das dita cujas por movimentos organizados, de matiz africanista, importados do estrangeiro, e que moldam não só o debate racial, como são também racistas, se não sempre em teoria, quase sempre na prática, o que tem consequência deletérias para diversos grupos étnicos brasileiros, que somem de vista em um verdadeiro ''apagão histórico-racial'', além de impulsionar uma ''americanização'' da forma como a sociedade brasileira se percebe. Não falo do muxoxo de loiros da Barra da Tijuca, mas da sacanagem feita com caboclos e indígenas e do sufocamenteo do Brasil, esse país ibérico. Last but no least, a abordagem racialista muitas vezes distorce o verdadeiro problema, que é a imensa concentração de renda do país, e que seria melhor combatido com uma sistemas de cotas fundamentadas em critérios sócio-econômicos.



O Brasil parece querer provar ao mundo que, com o tempo, é possível conhecer cada vez menos de si mesmo.



____________________________
[3] ''Resumidamente, eis as conclusões do grupo de geneticistas: a quase totalidade dos genes dos brancos brasileiros de hoje herdados por via paterna vieram de portugueses; já no que respeita ao que foi recebido pela linhagem materna, 60% veio de índias e negras. O trabalho será publicado na edição de abril da revista Ciência HojePara Sérgio Pena, a surpresa maior foi encontrar tamanha contribuição ancestralidade indígena na população branca. "Todo mundo no Brasil já aceita o fato de que nós somos mestiços, mas não com índios", diz. [...] Entre os homens não houve grande surpresa. Nada menos do que 98% dos haplótipos encontrados por Sérgio Pena e seus colaboradores (Denise Carvalho-Silva, Juliana Alves-Silva, Vânia Prado e Fabrício Santos) são atribuíveis a uma origem européia, particularmente a portugueses (que possuem uma fisionomia genética própria por conta da influência moura, ou norte-africana). A comparação foi estabelecida com auxílio de uma amostra de 93 homens portugueses, fornecida pelo geneticista Jorge Rocha, da Universidade do Porto. [...] Bem diferente é o panorama da genealogia colonial oferecido pelas linhagens maternas, ou seja, pelos polimorfismos do mtDNA. Nesse caso, a distribuição é bem mais uniforme: 39% de contribuição européia, 33% de indígena e 28% de africanas.'' http://www.online.unisanta.br/2000/04-01/ciencia3.htm.  
Ver também: http://www.icb.ufmg.br/labs/lbem/pdf/retrato.pdf

[4] http://www.youtube.com/watch?v=pjiNMoh7L5Q 
Ver também Darcy Ribeiro na obra ''O Povo Brasileiro'': ''Só assim se explica, de resto, o próprio fenótipo predominantemente brancóide de base indígena do vaqueiro nordestino, baiano e goiano. Tais características têm sido interpretadas, por vezes, como resultado de uma miscigenação continuada com grupos indígenas dos sertões. A hipótese parece historicamente insustentável em face da hostilidade que se desenvolveu sempre entre vaqueiros e índios, onde quer que se defrontassem. Disputando o domínio dos territórios tribais de caçadas para destiná-los ao pastoreio e lutando contra o índio para impedi-lo de substituir a caça que se tornara rara e arredia nos campos povoados pela nova e enorme caça que era o gato, os conflitos se tornavam inevitáveis. Acresce que a suposição é desnecessária, porque partindo de uns poucos mestiços tirados das povoações da costa --e aos quais não se acrescentou nenhum contingente imigratório branco ou negro -- teríamos, natural e necessariamente, pelo imperativo genético da permanência dos caracteres raciais, a perpetuação do fenótipo original. Tudo isso parece ser verdade. A antropologia, porém, nega a história, mostrando a cabeça chata enterrada nos ombros, que não pode vir do nada. É inevitável admitir que, roubando mulheres ou acolhendo índios nos criatórios, o fenótipo típico dos povos indígenas originais daqueles sertões se imprimiram na vaquejada e nos nordestinos em geral. 

[5] Vide a influência do nheengatu como língua geral da América Portuguesa até o século XVIII, e que está na base de boa parte do modo de falar do ''caipira'': ''Caipira é aquele que fala o dialeto caipira. É português, mas com palavras tupi e sotaque da língua brasileira. A língua brasileira é o nheengatu, que existiu no Brasil até ser proibida por Portugal, no século 18. Seu nome parece coisa de índio, e é. O nheengatu incorpora a fala dos índios tupi, que ocupavam o litoral brasileiro. Na verdade, até hoje, quem se refere ao Ibirapuera, fica jururu, come abacaxi ou se pendura num cipó está se expressando nessa língua. Há algum tempo, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou a expressão "chega de nhémnhémnhém", estava falando puro nheengatu. No Brasil Colônia, era falada fluentemente em uma grande área do País, que ia de Santa Catarina ao Pará. A elite também se expressava por meio dela, embora não em todos os setores. Durante os processos, o juiz dispunha de um intérprete. "Tivemos uma língua brasileira até o século 18", diz o professor José de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. "Só os portugueses, que eram estrangeiros, falavam português." A língua foi criada no século 16 pelos jesuítas, destacando-se o Padre Anchieta. O fundador de São Paulo era lingüista. Para se entender com os nativos, classificou o tupi e criou uma gramática da língua geral. Ou seja, o nheengatu. "Uma língua de travessia, não é português, nem índio, eram ambas", diz Martins. O português, nesse caso, era o que hoje chamamos arcaico. Convidava-se uma dona para uma função, em vez de uma senhora para um baile. E dizia-se coisas como agardece (agradece), alevantá e inorância. Os índios tinham dificuldade em falar palavras portuguesas como os verbos no infinitivo. E também palavras com consoantes dobradas (rr) ou terminadas em consoante. Além disso, colocavam vogal entre consoantes. Mulher, colher e orelha viraram muié, cuié e oreia. De sua dificuldade com o "erre", vem o "pooorta", reflexivo, com a língua tocando o céu da boca. Martins esclarece que "o dialeto caipira não é um erro, é uma língua dialetal". Mais do que isso: "É uma invenção lingüística musical e social." Os brasileiros viviam muito bem com ela, até que, no reinado de d. José I (1750 a 1771), Portugal a proibiu. O veto veio em um decreto do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Bania o ensino do nheengatu das escolas. A decisão foi acatada nas salas de aula, mas o povo continuou falando no dialeto caipira. O tempo acabou por impor o português, mas o dialeto puro resiste. Ainda é falado em alguns pontos da fronteira com o Paraguai. E, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a 860 quilômetros de Manaus, uma lei de 2002 tornou o nheengatu língua co-oficial do município. Na contramão do decreto do marquês, determina que seja incentivado seu ensino nas escolas, e o uso nos meios de comunicação (o tucano e o baniva também se tornaram línguas co-oficiais). E ficou o "caipirês" da roça. Por essas bandas, ensina Martins, a língua se multiplica. "Quando o novo aparece, o caipira inventa, a partir da matriz da palavra, algo que tem sentido para ele." Há certo tempo, Martins e um grupo de estudantes apresentaram questões a algumas pessoas. Perguntaram a um homem: "Você concorda ou não concorda?" O homem não entendeu. A pergunta foi sendo repetida, sem sucesso, até que um dos estudantes mudou a forma: "Você concorda ou disconcorda?" Deu certo.'' [http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sotaque-vem-do-nheengatu-a-lingua-brasileira,160205,0.htm]

fonte: Consciência do Eu
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