A médica ateia que avaliou 1.400 milagres e os confirmou: “Eles existem!”


A hematologista canadense Jacalyn Duffin não sabia, mas estava participando da investigação de um milagre

 

Jacalyn Duffin
Dra. Jacalyn Duffin - blog Ciência Confirma a Igreja
 
 
A hematologista canadense Jacalyn Duffin estava observando no microscópio “uma célula letal de leucemia”.
Olhando para a data do exame, concluiu: “Fiquei persuadida de que o paciente cujo sangue estava examinando tinha que ter morrido”.
Entretanto, o paciente estava bem vivo.
A hematologista não sabia: ela estava participando da investigação de um milagre.
Duffin, 64, é também uma prestigiosa historiadora, tendo presidido a Associação Americana de História da Medicina e a Sociedade Canadense de História da Medicina, além de ser catedrática dessa disciplina na Queen’s University, de Kingston, Canadá.
O fato se deu em 1986 e foi o seu primeiro contato com as canonizações da Igreja.
A amostra de medula fora tirada de uma jovem de 30 anos ainda viva. Estudava-se a veracidade do milagre no contexto do processo de canonização da primeira santa canadense, Maria Margarida d’Youville (1701-1771), fundadora das irmãs da Caridade, elevada à honra dos altares 14 anos depois.
O paradoxal do evento é que naqueles tempos em que os processos de canonização eram exigentes, a Igreja tendia a descartar o caso enquanto milagroso.
Existia a possibilidade de a cura ser atribuída à quimioterapia. Porém, “os especialistas em Roma aceitaram reconsiderar a decisão se uma testemunha ‘cega’ (sem saber do quê nem de quem se tratava) reexaminasse as amostras”, narrou a Dra. Jacalyn.
Ela lavrou um laudo sem saber para o quê. “Nunca tinha ouvido falar do processo de canonização e não podia saber que a decisão requeria tanta deliberação científica”, disse ela.
Pois a hematologista é ateia e não se interessava pela religião, nem pela do marido que é judeu.
Até que um dia ela foi convidada a testemunhar diante de um tribunal eclesiástico. Posteriormente, como seu laudo foi decisivo, convidaram-na para assistir à cerimônia na Praça de São Pedro.
“De início eu duvidei em ir, eu não queria ofender as religiosas, porque eu sou ateia e meu marido é judeu.
“Mas acabamos indo, vendo que elas estavam felizes de nos incluir na cerimônia.
“Tampouco podíamos renunciar ao privilegio de testemunhar o reconhecimento do primeiro santo de nosso país”.
Ela ganhou também um exemplar da Positio, documento decisivo de cada processo de canonização. E ali viu que estavam incluídos seus trabalhos e observações.
A ateia levou uma surpresa: “subitamente compreendi entusiasmada que meu trabalho médico estava nos arquivos vaticanos, e a historiadora que há em mim começou a querer saber de outros milagres incluídos em canonizações do passado”.
E foi assim que acabou estudando 1.400 milagres apresentados para a canonização de centenas de santos nos últimos quatro séculos.
Ela publicou um primeiro livro com suas conclusões: “Medical Miracles” [Milagres médicos].
Depois escreveu um segundo livro sobre dois santos mártires do século IV cuja devoção cresce notavelmente nos EUA e no Canadá: “Medical Saints. Cosmas and Damian in a Postmodern World” [Santos médicos: São Cosme e São Damião no mundo pós-moderno], publicado em 2013 pela Universidade de Oxford.
A Dra. Jacalyn ainda é ateia, mas escreveu: “os ateus honestos devem admitir que acontecem fatos cientificamente inexplicáveis” e “a hostilidade de certos jornalistas procede de seu próprio sistema de crenças: como para eles Deus não existe, logo não pode existir nada sobrenatural.
“Mas, se os doentes atribuem sua cura a Deus pela mediação dos santos, por que é que deve prevalecer outro sistema de crenças (o incrédulo) sobre o dos doentes? “
Essa pretensão revela o abismo, socialmente admitido, entre acreditar na ciência e maravilhar-se diante do inexplicável”.
E acrescentou: “Os milagres acontecem e com maior frequência do que acreditamos”.
O testemunho da Dra. Jacalyn, independente de suas convicções pessoais, é um tributo ao rigor da Igreja na hora de examinar as curas sobrenaturais.
Dos 1.400 milagres analisados, ela concluiu que “as doenças que acabam sendo curadas por milagres foram diferentes segundo a época, mas, em todas as ocasiões, tratava-se das que mais desafiavam a ciência médica”.


Do blog Ciência Confirma a Igreja




A médica ateia que avaliou 1.400 milagres e os confirmou: “Eles existem!” – Aleteia.org | Português

Contra a juventude eterna

Por Frederica Mathewes-Green [*]

Eu sou fã de filmes antigos, aqueles em preto e branco das décadas de 1930 e 1940, em parte porque mostram o quanto a cultura americana mudou. Os adultos desses filmes se portam de uma maneira diferente. Eles não falam e nem andam da mesma forma que nós.
E é difícil saber qual a idade dos personagens é como se estivessem representando uma fase da vida humana que nós perdemos.
cary Pegue o filme de 1934, Imitação da Vida. Nele, Claudette Colbert representa uma jovem viúva que constrói uma empresa de sucesso (vendendo panquecas, na verdade. É mais fácil acreditar assistindo o filme). Ela era firme e elegante, com uma voz brilhante e maças do rosto magníficas, o que fez dela uma estrela. Mas quantos anos ela tinha? De acordo com a história, não podia ter muito mais de trinta anos, mas ela andava como uma rainha. Hoje, nem pessoas bem mais velhas tem este tipo de presença e Colbert tinha trinta e um anos quando o filme saiu.
E o que falar de Clark Gable em Terra da Paixão? Eles possuíam o tipo de sensualidade que chamavam de “elegância”, uma qualidade que sugere confiança e experiência. Quando o filme estreou, Gabe tinha trinta e um anos e Harlow, vinte e um. Lembre-se também do filme Núpcias de Escândalo. Quando ele foi lançado, em 1940, Katherine Hepburn tinha 33 anos, Cary Grant tinha 36, e Jimmy Stewart, 32. E eles não parecem bem mais maduros do que os atores de hoje?
Os personagens desses filmes antigos parecem ter uma maturidade que ningúem possui hoje em dia. Esta não é uma observação sobre os atores (pode ser que na vida privada, se comportassem como adolescentes). O que está em questão é como a audiência esperava que adultos fossem representados. Certos modos eram próprios da vida adulta, que eram muito diferentes dos de uma criança, ou até mesmo de adolescentes, como a Judy Garland e Mickey Rooney.
Os atores de hoje preservam características hesitantes e infantis, ainda na meia-idade. Compare o Cary Grant, jovial e elegante, com o Hugh Grant, que representava, até os 40 anos, personagens indecisos, pueris, com o cabelo todo bagunçado. Compare a voz forte e chamativa da Bette Davis com a vozinha nervosa da Renee Zellweger. Zellweger é adorável, mas tem 35 anos. Quando é que ela vai crescer?
Em uma crítica publicada no jornal Village Voice, sobre o filme O Aviador, Michael Atkinson apelidou os atores infantis de que estamos falando, de “bebezões”. “Não há como não perceber o contraste entre os atores bebezões, com aquela carinha de bebê e voz de adolescente, e os atores da Era de Ouro”, ele escreveu. “Embora DiCaprio tenha a mesma idade que o Hughes tinha em 1934 (o artigo foi escrito em 2005), pode ser que ele não convença ter 34 anos até que complete 50”. Ninguém tem mais aquele estilo de autoridade e confiança. Nós esquecemos como se age como um adulto.
gableTalvez “esquecemos” não seja a palavra correta, pois os nascidos no pós-guerra [Boomers] trilharam seus caminhos combatendo a vida adulta. No tempo em que deveríamos assumir responsabilidades de adultos, adquirimos o fetiche de resistir ao Establishment. Nós fizemos das calças jeans e camisetas o uniforme da geração. Nós não sabemos mais os nomes dos líderes políticos do mundo, mas decoramos os nomes dos ex-namorados das estrelas de cinema. Paramos de participar de organizações de serviço fraternal para jogar video-games. Nós, os nascidos no pós-guerra, nos identificamos tanto com o fato de já termos sido a geração mais nova, que agora [ao nos tornarmos barrigudos e grisalhos]estamos confusos. Não temos idéia de como ser a geração mais velha. Teremos de aceitar o papel de aprendizes debilitados desta nova geração.
Imagine a geração da II Guerra Mundial, voltando para casa depois de ver tanta agonia e sangue derramado. O mundo, por muito tempo, foi visto como um lugar perigoso. Os pais dessa geração tinham memórias recentes da I Guerra Mundial, e seus filhos viveram a infância rodeados pela miséria e pela fome, por causa da Grande Depressão. E então passaram a viver num mundo sem guerras, recém-casados, e morando em subúrbios silenciosos. Quando olhavam para os seus bebês recém-nascidos, os sobreviventes sentiram uma inclinação protetora poderosa. Não queriam que seus filhos experimentassem aquilo que viveram, que não vissem coisas tão terríveis. Acima de tudo, pretendiam proteger a inocência das crianças.
Nos tempos em que famílias grandes viviam juntas em casas pequenas, e os familiares doentes ou senis eram tratados em casa, e as famílias criavam a própria comida, até mesmo as crianças conheciam as verdades da vida. Até pouco tempo atrás, não era possível evitar que as crianças conhecessem certos fatos. E não era desejável: a vida era difícil e perigosa, e quanto mais cedo se aprendesse isso, mais cedo se aprenderia a lidar com as situações da vida. Mas nas décadas de 1950 e 1960 houve um tempo em que os pais puderam manter as crianças separadas do mundo adulto, até que se tornassem jovens.
Essa separação acabou, com o advento da TV à cabo e da internet. Agora, os pais precisam aprender mais uma vez como lidar com um mundo onde crianças podem conseguir as mesmas informações que os adultos. O que acontece é que a lacuna entre as gerações desapareceu. Os adolescentes e jovens de hoje assistem os mesmos filmes e ouvem as mesmas músicas que os seus pais. O lado ruim desse fato é que muito deste material é obsceno e grosseiro, e isso afeta a qualidade do entretenimento infantil.
the_wonder_years-show-300x227Parece que não há como acabar com isso, mas para te confortar, é provável que o mesmo tenha acontecido na época de Chaucer [filósofo inglês; 1343-1400]. Mais uma vez, como foi em grande parte da história humana, não podemos proteger a inocência das crianças sobre os fatos da vida adulta. Precisamos descobrir como ensinar as crianças a lidarem com esses fatos, como as gerações anteriores fizeram. Isso requer pais que sejam mais autoritários e paternais, atitudes das quais os nascidos no pós-guerra nunca se sentiram muito confortáveis em tomar.
Os pais bem intencionados da década de 1950 confundiram vulnerabilidade com inocência moral. Eles falharam em entender que crianças que foram sempre encorajadas a ser infantis tornariam a infantilidade em um projeto de vida. Estes pais não estavam preparados para reagir quando seus filhos se tornaram jovens adultos e passaram a se comportar de forma egoísta, provocadora e hedonista.
A geração da II Guerra Mundial via um forte contraste entre a vida adulta e a infância: infância era pura alegria, enquanto a vida adulta era cheia de miséria, trabalho e fadiga. O impulso resultante foi colocar as crianças em um quartinho de brincar hermeticamente fechado. A infância, antes entendida como uma fase de transição, se transformou quase que em um espaço físico um berçário cheio de brinquedos onde as crianças poderiam brincar o dia todo. E os pais observavam melancolicamente, desejando que seus filhos queridos pudessem ser jovens para sempre.
Há o ditado: cuidado com o que você deseja. Quando conservadores sentem nostalgia das famílias da década de 1950, precisam lembrar de como as coisas acabaram. As crianças ficaram mais velhas, mas não amadureceram. Continuaram a demonstrar comportamentos exigentes e auto-centrados, que se encaixava muito bem com o desejo de proteger e mimar dos pais. Eles continuaram a acreditar que a vida seria organizada de modo a agradá-los, como acontecia no quartinho de brincar. Eles ridicularizaram os valores dos pais, dormiram desregradamente, e debocharam de toda forma de autoridade.
É claro que quando toda autoridade é destituída, o mundo não se sente muito seguro. A ansiedade paira sobre a cultura na qual adultos agem como crianças. Os nascidos no pós-guerra não rejeitaram apenas a vida adulta, mas os próprios adultos. Rejeitaram os pais que se preocuparam tanto com eles.
Com isso, a pior perda foi o projeto de educação como foi entendido durante a maior parte da história humana. Em culturas antigas, uma criança ficava ao lado dos pais durante todo o dia, aprendendo a fazer tarefas importantes para o sustento da casa. A infância acabava muito rápido.
Quando chegava aos treze ou doze anos, era considerada capaz de fazer compromissos espirituais que durariam por toda a vida essa era a idade tradicional para a confirmação sacramental ou para o Bar Mitzvah. Quando já tivessem o corpo bem desenvolvido, era esperado que trabalhassem o dia todo. A criança poderia ser considerada adulta pouco depois disso, e já se casar no fim da adolescência. Infância era uma rápida passagem para a vida adulta, e esta era um estado de respeito e autoridade muito desejado.
WhiplashOs nascidos no pós-guerra preservaram a visão de seus pais sobre a vida adulta: de que é um período terrível. Eles enchiam os fillhos de admoestações, para que evitassem o destino: “Seja livre”, diziam. “Siga seus sonhos”; “seja criativo”. As crianças eram encorajadas a enxergarem-se como artistas, e procurar inspiração em suas ricas fontes interiores para produzir belos trabalhos. As histórias que ouviram reforçaram a idéia de que a pessoa que se deve admirar é aquela que resiste às batalhas e aos desafios, para fazerem o que gostam.
Pense no filme Felicidade não se compra, de 1946. Nele, a mensagem é o oposto. George Bailey sonha ser um explorador e viajar o mundo, mas acaba deixando seus sonhos de lado para cuidar da família. Ninguém faria um filme como esse, atualmente. Em uma versão atual, George Bailey brigaria com o pai, fugiria de casa rumo a um navio para viajar o mundo, viveria aventuras perigosas e excitantes, e então voltaria para casa para uma grande festa. Seu pai, então, lhe diria com lágrimas nos olhos: “Você estava certo, meu filho.”
Este tipo de sucesso não acontece muitas vezes. Apesar de todo o encorajamento para as crianças seguirem seus sonhos, os Boomers criaram seus filhos com base na cautela e aversão ao risco. Gen-Xers gastam suas primeiras décadas, até a graduação, sendo observados de perto por pessoas gentis que, prestativamente, reconhecem ou criticam seus esforços. Um artigo da revista Time, de janeiro de 2005, revelou que 48% dos que estão na segunda década de vida ligam ou mandam e-mail para os pais todos os dias.
Estes anos de educação escolar prolongada constituem uma vida doce, mas tudo muda bruscamente quando o graduado sai para a rua. De repente, a criança que foi criada com flexibilidade infinita deve enfrentar um emprego com horários, vestir-se conforme o esperado, fazer intervalos apenas em horários determinados, e levantar-se no dia seguinte para fazer tudo de novo. A vida depois da escola tem regras inflexíveis, e as crianças que foram criadas com flexibilidade sem limites são esmagadas por ela.
No livro Quarterlife Crisis, Alexandra Robbins e Abby Wilner descrevem quão confusa é esta surpresa. Eles citam uma jovem que tornou-se Mestre em performance de flauta, pela academia; e então descobriu que possuir esta habilidade não lhe garantia um emprego. Você pode imaginar quantos professores e orientadores a ouviram com os olhos a brilhar, dizendo-lhe repetidamente que ela poderia fazer o que bem entendesse. Não é culpa dela ter acreditado. Os Boomers têm preparado seus filhos para uma vida que não existe.
quaterlifeOs Boomers, como pais, superaram os próprios pais, mantendo o quartinho de brincar até a faculdade. Mas a ênfase nas possibilidades ilimitadas torna-se um novo tipo de prisão. Muitos que estão com seus vinte e poucos anos sentem-se imobilizados com tanto louvor. Eles não se atrevem a comprometer-se a uma carreira, porque isso significa ter que desistir das outras, e eles nunca tiveram que selecionar opções. Não se atrevem a comprometer-se, pois é esperado que eles se sobressaiam, e têm medo de serem apenas medianos. Uma vida repleta de torcida e frases de motivação dá a sensação de que um dia você ganhará o mundo. Mas e se o mundo não te nota? E se o mundo estiver lotado, as habilidades forem difíceis de conquistar, e as crianças não forem tão talentosas? O fato de que a maioria das pessoas são medianas é triste, mas inalterável.
As expectativas dos pais podem congelar as crianças durante a caminhada. Até mesmo a ordem “siga seus sonhos” pode imobilizar, se você não tiver certeza de quais são seus sonhos, e nada do que vem à mente pareça urgente. Não é de se surpreender que as pessoas que estão com vinte e poucos anos não consigam manter o foco, são inseguras e têm medo de errar. Eles voltam para casa depois da faculdade e vivem mudando de emprego.
Então o que devemos fazer? Como podemos recuperar uma visão positiva da vida adulta e preparar as futuras gerações para enfrentá-la? Este problema tem muitas partes. A que mais me interessa é a data dos casamentos, que acontecem cada vez mais tarde. A média dos casamentos atuais acontece entre um homem de 27 anos, e uma mulher de 25. Me intriga a anormalidade patente deste dado. Deus projetou nossos corpos para que desejassem companhia bem mais cedo, e durante maior parte da história, a sociedade assimilou esse desejo permitindo as pessoas a se casarem no fim da adolescência, ou pouco depois de completarem 20 anos. As pessoas só adiariam o casamento em casos de desastre econômico ou escassez de comida.
Pessoas jovens não são tão imaturas para o casamento, a menos que lhes digamos que são. Cinquenta anos atrás, quando as noivas tinham, em média, vinte anos, a taxa de divórcio era metade do que é agora, porque a cultura encorajava o sustento do casamento. Mas se nós dizemos aos jovens que eles são naturalmente incapazes de fazer um casamento funcionar, eles com certeza atenderão às nossas expectativas. Na verdade, eu tenho uma teoria de que o casamento tardio contribui com o aumento da taxa de divórcio.
Durante os anos prolongados de solteiro na vida adulta, apesar de os jovens não se casarem, eles continuam se apaixonando. Eles se apaixonam, terminam, sofrem, e descobrem que com o tempo isso passa. Isso é verdade, mesmo que eles permaneçam castos. No tempo em que esses jovens se casarem, pode ser que tenham tido diversas oportunidades para aprender como se esquivar de uma promessa. Um treino para o divórcio.
O casamento tardio é uma luta contra o desígnio dos nossos corpos, e esta é uma luta que não se pode vencer. No filme indicado ao Oscar, Entre umas e outras, um ator de televisão de 40 anos está prestes a se casar. Ele embarca numa viagem de despedida de solteiro de uma semana com seu amigo Miles, e logo se afunda numa profundidade que surpreende até mesmo o Miles. Enquanto Jack defende um ato desprezível, ele diz: “Eu sei que você não aprova o que eu estou fazendo. E eu respeito isso. mas existem coisas que tenho de fazer, que você não entende.”
Historiadores do futuro terão que adivinhar o que queriamos fazer como uma geração inteira se esqueceu de crescer, enquanto tentavam criar uma geração mais nova e liderar a nação mais poderosa do mundo durante tempos de guerra e terror. As habilidades da vida adulta nos são estranhas, não sabemos mais usá-las. Reunir a gravidade e a confiança que confirmam a maturidade está além das nossas capacidades. Não foi a juventude que nos deixou, mas a maturidade.
[*] Frederica Mathewes-Green. “Against Eternal Youth”. First Things, 1 de Agosto de 2005.
Tradução: Laan Carvalho
Revisão: Rodrigo Carmo



Contra a juventude eterna – Tradutores de Direita



Leat T se arrepende da mudança de sexo. Mais uma vítima das ideias progressistas

Segundo O Dia, o transexual Lea T se arrependeu da cirurgia de mudança de sexo a que se submeteu na Tailândia em 2012. O modelo está se relacionando com mulheres e já anda disfarçado nas ruas para não ser reconhecido. Tarde demais. Na época a mídia brasileira não falou em outra coisa. Lea T se tornou o modelo de uma nova sociedade, onde não havia mais os limites entre os gêneros. “Uma pessoa é o que ela se define”, dentre outras bobagens abstratas e perversas engendradas pela mentalidade doentia dos progressistas. Foi logo abraçada pela mídia e alçada ao panteão dos ícones dos pés de barro.
Como bem ressaltou Camille Paglia, esse conceito de transgênero: homem é homem, mulher é mulher. Não é a sociedade que estabelece esses valores, é a biologia. Os papeis sociais são apenas derivados disso. Como a mesma aponta, o fenômeno transgênero é sempre mais ocorrente nos períodos de decadência da sociedade. Como o nosso, que nos faz até perceber que uma feminista apoiadora de Bernie Sanders tem mais razão do que a maioria dos formadores de opinião.
O que se coloca aqui não é uma perseguição aos que tem essa opção, mas sim a constatação de que o relativismo pós-moderno é que é o problema maior de nossa sociedade. Ao invés de oferecer amparo psicológico aos que sofrem, ele os condena a viverem enclausurados em seus próprios dilemas. A mentalidade progressista que diz que o indivíduo é o que ele quer transforma homens e mulheres em meras caricaturas, pior até, os transforma em animais de zoológico. Eles se tornam ícones de uma suposta tolerância e amor a humanidade, mas é tudo falso: se houvesse mesmo esse amor, essas pessoas não seriam incentivadas a pularem nesses abismos existenciais. Seriam tratadas. E antes que se diga que esta é uma posição homofóbica, é bom saber que homossexualismo e transsexualidade são coisas totalmente diferentes. O homem homossexual aceita a sua natureza biológica, o transgênero não.
Muito já foi dito sobre essa característica de alguns grupos formadores de opinião, que deixam o indivíduo com a sensação de que ele pode superar a biologia. Essas pessoas não conseguem seus objetivos, e se frustram. Tanto que a taxa de suicídio entre esse seguimento é maior que no resto da população.
Um dos pontos altos do proselitismo da transsexualidade foi o filme A Garota Dinamarquesa, que conta a história de Einar Wegener. Era um homem casado e feliz, até que sua esposa sugere que ele se vista de mulher e pose para ela como modelo. É quando nasce Lilli Elbe. O filme que transforma tudo em um romance, omite o sofrimento, a angustia e a confusão mental. Daí alguém pergunta: quem é você para afirmar tais coisas? Qual é sua qualificação no ramo da psicologia ou da medicina? Não sou eu quem estou falando, é o senhor Walter Heyer. Ele é ex-transsexual, e conhece esse universo mais do que ninguém.  Nesse artigo abaixo, ele desconstrói os mitos sobre a transsexualidade e sobre a militança progressista. Vale a leitura. O texto foi retirado do siteNotifam.PT.

A Garota Dinamarquesa é um disparate. Eu falo com conhecimento de causa. Fui uma mulher transgênero.

Por vezes eu me senti como se estivesse encurralado escutando uma interminável conversa de vendedor de pacote turístico. Quando acabariam aquelas frases de efeito tão previsíveis?
A Garota Dinamarquesa está cheio de sentimentos fofos e pegajosos projetados para convencer heterossexuais “homofóbicos” ou “transfóbicos” de que as voltas e reviravoltas na vida de um transgênero são na verdade uma busca saudável e corajosa pelo seu verdadeiro eu. O filme transborda tópicos batidos do discurso LGBT. Num momento chave, o personagem principal exclama: “Eu finalmente sou quem eu sou!”
A Garota Dinamarquesa, baseado num romance homônimo de David Ebershoff e dirigido por Tom Hooper, conta a história de Lilli Elbe, um dos primeiros beneficiários da cirurgia de mudança de sexo. O filme apresenta Eddie Redmayne no papel de Einar Wegener/Lilli Elbe, a emergente transgênero feminina. Alicia Vikander coestrela como Gerda, sua esposa devota, que ama seu marido profundamente e permanece fiel a ele ao longo dos anos de sua espiral descendente.
Embora as atuações sejam boas, o filme, em última instância, não passa de uma ferramenta de marketing LGBT.  É verdade que as pessoas transgênero estão sofrendo. Mas o que o filme não aborda é que, muito frequentemente, pacientes transgênero continuam sofrendo mesmo depois da cirurgia, porque seus problemas psicológicos permanecem não tratados. Eu sei disso por experiência própria, pois já fui uma mulher trangênero e me arrependo muito de ter feito a cirurgia de mudança de sexo.
O Enredo
O filme se passa na Dinamarca nos anos 1920. Quando o vemos pela primeira vez, Einar, o marido, é um pintor de paisagens estável e brilhante com algum sucesso no mundo das artes. Ele não denota qualquer traço de insatisfação com seu gênero nem tendência homossexual. Gerda, também artista, é uma mulher atraente que ama seu marido, mas luta para ganhar reconhecimento como artista. Eles parecem um casal apaixonado comum.
As coisas começam a ficar estranhas quando Gerda precisa de um modelo feminino para terminar uma pintura. Gerda pede a Einar para ajudá-la posando como mulher. Obviamente, essa é a primeira vez que Einar faz isso: ele precisa da ajuda da esposa para vestir as meias finas de náilon. Einar desliza seus pés para dentro das sandálias femininas, rendilhadas e muito pequenas, e adota uma pose feminina para a pintura. Ele é um ajudante relutante, contudo sucumbe de bom grado aos desejos de Gerda. Eles fazem disso um jogo divertido – um jogo que termina indo longe demais.
Gerda se deixa envolver pelo entusiasmo de Einar ao posar como mulher. Ela encoraja a fêmea em ascensão, a quem eles provocadoramente chamam de Lilli, a ser amável e bonita. Gerda descobre sua paixão artística inexplorada enquanto o desenha e ele, por sua vez, é seduzido pelos desenhos de si mesmo como mulher. O gatilho está puxado. Einar se apaixona por sua aparência quando vestido de mulher. Isso não é transsexualismo, mas um fetiche sexual, impulsionado pela energia e entusiasmo que Gerda, inocentemente, inculcou nele. Einar passa a vestir-se de mulher às escondidas e a explorar o fascínio sexual de si mesmo usando trajes de suaves e macios tecidos.
O termo médico para o comportamento de Einar – um homem que se excita sexualmente com a ideia de ser ou tornar-se uma mulher – é “autoginecofilia”. Einar troca seu amor marital pela esposa por um amor próprio, um amor à sua imagem refletida no espelho e nas telas. A encenação atinge um novo nível quando, por alguma razão, Gerda encoraja o marido a acompanhá-la a uma mostra artística vestido de mulher. Gerda põe uma peruca em Einar, passa maquiagem nele e escolhe um vestido. Gerda ensina-o a andar e atuar como uma mulher. Na noite da festa, Gerda desfruta do entusiasmo de usar o disfarce de Einar para enganar seus conhecidos, até que pega o marido num beijo romântico com um homossexual. Lilli está às portas, dando giros de pura alegria, quando Gerda finalmente percebe o que havia provocado.
Gerda não sabe o que fazer com Lilli, cujas aparições não desejadas e inesperadas estavam se tornando cada dia mais frequentes. Gerda acaba aproximando-se de um amigo de infância de Einar, com o qual Einar havia perdido contato. Quando ela diz a Einar que seu amigo quer vê-lo, Einar conta a ela sobre um incidente há muito esquecido de sua juventude, quando seu amigo lhe havia dado um beijo porque o achara “tão lindo.”
O filme avança incansavelmente mostrando cada passo do surgimento de Lilli, o completo desaparecimento de Einar e a angústia, a solidão e a frustração de sua esposa abandonada, que lamenta a perda do homem que outrora fora seu marido. Ver a angústia da mulher faz-me lembrar outro filme, Uma mente brilhante, em que uma esposa vê, impotente, seu marido afundar cada vez mais profundamente em sua doença mental.
Paralelos com a minha vida
A experiência da minha primeira infância despertou em mim os mesmos desejos que despertaram em Einar. No caso de Einar, a experiência de infância que influenciou sua vida posterior ocorreu quando seu companheiro de brincadeiras o beijou porque ele lhe pareceu “tão lindo.” No meu caso, tive uma avó que secretamente me vestia de menina desde meus quatro anos. Ela costurava vestidos especialmente para mim, vestia-me e me dizia que eu ficava lindo quando os vestia para ela.
Como Einar, eu me casei como uma mulher e vivi como um homem. Como Einar, eu me vestia secretamente de mulher e às vezes até saía em público trajando roupas femininas. Eu também me sentia revigorado pela experiência. Depois de algum tempo, meu desejo de ser mulher tornou-se mais forte, e senti que não tinha outra chance a não ser me transformar em “Laura” (o nome de minha persona feminina) para “ser quem eu sou.” Como Lilli, eu queria matar minha identidade masculina para que Laura pudesse viver. Foi por isso que me submeti a uma transformação cirúrgica total.
Lilli não teve a oportunidade de viver como um transgênero feminino para saber se viver a vida como uma mulher preencheria suas expectativas e lhe seria útil em seu caminho rumo à paz. Ela morreu de uma infecção alguns dias depois de sua segunda operação de reconstituição. Hoje, as técnicas empregadas na cirurgia de mudança de sexo não constituem particularmente um risco à vida. Depois de fazer a cirurgia, eu vivi como transgênero feminino por oito anos, alguma parte desse tempo trabalhando e vivendo em São Francisco. Logo depois da cirurgia, assim como Einar, fiquei muito alegre por finalmente ter feito a mudança. Mas o entusiasmo logo passou.
Com o tempo, eu descobri que a vida como mulher poderia não me dar paz. Para meu desgosto, eu continuava oscilando entre Walt e Laura, às vezes muitas vezes num único dia. O que quer que tenha me levado a mudar minha identidade de gênero, isso não foi resolvido com a cirurgia de mudança de sexo nem com viver a vida como uma mulher. Eu continuei buscando por uma resposta.
Um retrato (parcialmente) fiel
O filme retrata de maneira precisa os profundos problemas emocionais e psicológicos que as pessoas transgênero vivenciam, ilustrando como esses problemas são difíceis de diagnosticar e tratar. Ele fez um bom trabalho ao mostrar como o desconforto com relação ao gênero pode partir de um incidente aparentemente pequeno na infância e, então, na vida adulta, evoluir para um desconforto profundo que, por fim, leva à cirurgia de mudança de sexo.
O público vê como Einar progride de uma relutância em vestir-se de mulher para ajudar a esposa com suas pinturas a sentir-se sexualmente atraído pela ideia de usar roupas femininas, a sentir prazer em ser Lilli e, por fim, a rejeitar sua identidade masculina como Einar e seu casamento com Gerda. Lilli deseja ardentemente a cirurgia genital, mesmo que isso ponha sua vida em risco. Imediatamente após a cirurgia, ela parece verdadeiramente feliz com sua decisão.
A maioria das pessoas transgênero diria que isso realmente ocorreu em suas experiências; de fato, eu vi a mesma progressão em minha vida. Contudo, como Lilli morreu depois da segunda cirurgia, o filme só consegue retratar os anseios anteriores à transição e o efeito imediato da cirurgia, não os resultados a longo prazo na vida pós-mudança de sexo. No meu caso, a mudança prometia uma vida boa, mas depois que a euforia inicial passou, só me restou desespero. Até eu decidir deixar de viver como Laura e fazer o que fosse preciso para voltar a ser Walt, não consegui ficar em paz. Abrir-me para restaurar minha masculinidade mudou tudo.
Quando um diagnóstico correto de meu transtorno dissociativo foi feito, o primeiro tratamento efetivo pôde começar. Isso levou muitos anos, mas eu persisti no tratamento do transtorno dissociativo, e meus sentimentos de querer ser mulher foram se dissolvendo até terem o completamente embora. Eu percebi que a cirurgia de mudança de sexo não fora necessária, mas já era tarde. Meu corpo fora mutilado de maneira irreversível.
Transtornos geram transtornos
O diagnóstico habitual para pacientes que se identificam como transgêneros é “disforia de gênero.” De acordo com o DSM-5 (a última edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais), a disforia de gênero é caracterizada por uma acentuada incongruência entre o gênero experimentado/expressado por alguém e seu sexo biológico, com duração de pelo menos seis meses. Embora não se fale muito sobre isso, estudos mostram que uma maioria de pacientes transgêneros sofrem de outros transtornos comórbidos (coexistentes).
O filme mostra muito claramente os transtornos comórbidos de Einar. Primeiro, vemos a eclosão de uma autoginecofilia, transtorno sexual no qual Einar torna-se o objeto de sua própria afeição na identidade de Lilli. Depois de ser alimentado e satisfeito por um tempo, esse transtorno se incrementa até dar origem a uma obsessão narcisista por autogratificação à custa de seu relacionamento com a esposa.
Vemos emergir em Einar o desejo de se tornar uma mulher quando sua esposa Gerda o pinta tão belamente. O anseio transforma-se em obsessão. Suas novas e poderosas emoções mudam sua visão de si mesmo como homem. E, por fim, Lilli se dissocia de Einar, de forma que duaspersonae passam a existir dentro de uma. Isso é chamado de transtorno dissociativo. Irreprimida, Lilli toma controle total e transforma Einar em mera tela onde se imprime a pintura de Lilli, a mulher.
Lilli diz que Einar está morto, que se foi. Essa declaração demonstra um transtorno e não uma realidade, pois é Einar quem está ali falando. Eu fiz declarações simulares sobre Walt. Falava que queria que Walt morresse e tivesse um funeral apropriado, para que Laura pudesse viver livre de Walt. Esse é o discurso de uma mente transtornada. Na realidade, eu também tinha um transtorno comórbido.
Os criadores de A Garota Dinamarquesa estão claramente tentando vender a ideia popular de que, durante toda a sua vida, Einar tinha uma garota presa dentro de si. Não se deixe enganar pelo “papo de vendedor.” Olhe um pouco mais de perto e perceberá uma série de transtornos mentais mal interpretados e não diagnosticados que levaram Einar a tornar-se Lilli, a mulher transgênero. Pessoas transgênero não nascem assim; elas se transformam a partir de experiências que moldam suas emoções e desejos.
Prestando os devidos cuidados psiquiátricos
No final do filme, enquanto passavam os créditos, eu me virei para a senhora de meia idade ao meu lado e lhe perguntei o que ela achava. Ela respondeu: “Pareceu-me propaganda! Vivo em um bairro onde pessoas que precisam de cuidados psiquiátricos vagam pelas ruas, mas ninguém está lá para ajudá-las.”
De certa forma, essa descrição se aplica às pessoas transgênero também: todas elas precisam dos devidos cuidados psiquiátricos, mas frequentemente não têm ninguém para ajudá-las. Mais de 60% dos pacientes com disforia de gênero sofrem de transtornos comórbidos. Geralmente, dentre eles incluem-se transtornos psicológicos e psiquiátricos como a dissociação, fetiches sexuais como a autoginecofilia e transtornos de humor como a depressão. Em praticamente todos os casos, esses transtornos podem ser resolvidos sem qualquer intervenção cirúrgica se os pacientes receberem o tratamento adequado, incluindo psicoterapia e medicação.
Uma pesquisa feita em 2011 apontou que 41% das pessoas transgênero relataram já ter tentado suicídio ao menos uma vez na vida. Descontentamento e suicídios foram primeiro relatados em 1979 por um médico na clínica de Harry Benjamin, o endocrinologista Charles Ihlenfeld. Depois de seis anos administrando uma terapia hormonal de mudança de gênero a quinhentos pacientes transgênero, o dr. Ihlenfeld disse que 80% das pessoas que desejavam uma cirurgia de mudança de sexo não deveriam fazê-la. A razão? Os altos índices de suicídio após a operação entre a população transgênero. E o que é ainda mais impressionante: o dr. Ihlenfeld afirmou que a cirurgia de mudança de sexo nunca pretendeu ser um tratamento que ofereceria uma solução para toda a vida, mas apenas um adiamento, algo temporário.
Embora suas intenções possam ser boas, muitos ativistas que lutam pela aceitação dos transgêneros acabam, na verdade, impedindo que as pessoas transgênero consigam a ajuda de que precisam. Como os transtornos mentais coexistentes não são tratados de maneira adequada, é provável que os altos índices de suicídio entre a população transgênero continuem assim.
Em uma cena de A Garota Dinamarquesa, um especialista diagnostica Einar com esquizofrenia paranoide. Antes que o médico retorne com uma equipe para encarcerá-lo, Einar compreensivelmente foge, com medo do tratamento desumano que o esperava.
Eu anseio pelo dia em que a prática atual de apoiar a cirurgia de mudança de sexo para todos aqueles que expressam insatisfação com seu gênero de nascença será igualmente vista como algo desumano.
Walt Heyer é um autor e conferencista com uma paixão por ajudar outras pessoas que se arrependeram da mudança de gênero. Em seu website,SexChangeRegret.com, e em seu blog, WaltHeyer.com, Heyer desperta a consciência do público sobre a incidência de arrependimento e sobre as trágicas consequências sofridas como resultado. A história de Heyer pode ser lida no romance Kid Dakota and The Secret at Grandma’s House e em sua autobiografia, A Transgender’s Faith. Dentre as publicações de Heyer encontram-se ainda Paper Genders e Gender, Lies and Suicide.
Reproduzido com permissão de The Witherspoon Institute.


Leat T se arrepende da mudança de sexo. Mais uma vítima das ideias progressistas – O Reacionário

A mulher sem alma



Régine Pernoud

Em 1975, “ano internacional da mulher”, o ritmo de referências à Idade Média tornou-se estonteante; a imagem da Idade Média, dos tempos obscuros de onde se emerge, como a Verdade de um poço, impunha-se a todos os espíritos e fornecia um tema básico para os discursos, colóquios, simpósios e seminários de todos os tipos. Como eu mencionasse, um dia, em sociedade, o nome de Eleonora de Aquitânia, obtive logo aprovações entusiásticas: “Que personagem admirável! — exclamou um dos presentes. Numa época em que as mulheres só pensavam em ter filhos...”. Eu lhe fiz uma observação sobre o fato de que Eleonora parecia haver pensado assim pois teve dez e, considerando sua personalidade, isto não poderia ter ocorrido por simples advertência. O entusiasmo tornou-se um pouco menor.

A situação da mulher, na França medieval, é na atualidade assunto mais ou menos novo: poucos estudos sérios lhe foram consagrados, pode-se mesmo dizer que se os poderia contar pelos dedos. A sociedade Jean Bodin, cujos trabalhos são tão notáveis, editou em 1959-1962 dois grossos volumes (respectivamente 346 e 770 páginas) sobre a mulher. Todas as civilizações são sucessivamente examinadas. A mulher é estudada na sociedade do Sião, ou de acordo com os vários direitos cuneiformes, ou no Direito malikité-magrebino, mas, para o nosso Ocidente medieval, não se contam mais do que dez páginas relativas ao Direito canônico, outras dez ao período que vai do século XIII ao fim do século XVII, um estudo consagrado aos tempos clássicos até o Código Civil, um outro, a monarquia Franca, e trabalhos mais pormenorizados sobre a Itália, a Bélgica e a Inglaterra, na Idade Média. E eis tudo. O período feudal é completamente esquecido.

É igualmente inútil procurar nesta obra um estudo sobre a mulher nas sociedades célticas, onde, estamos certos, ela tinha um papel contrastante com o confinamento a que estava sujeita nas sociedades do tipo clássico greco-romano. No que se refere aos celtas, para os historiadores de nossa época, o homem e a mulher se encontravam num pé de igualdade completa, tanto que não se ressalta nunca nem um nem outro. Aos celtas, de uma vez por todas, foi recusado o direito de existir.

No entanto, impõe-se uma imagem, à qual já tive ocasião de me referir.1.Não é, em realidade, surpreendente pensar que nos tempos feudais a rainha é coroada como o rei, geralmente em Reims, às vezes em outra catedral do domínio real (em Sens, como Margarida de Provence), mas sempre pelas mãos do arcebispo de Reims? Dito de outra forma, atribuía-se à coroação da rainha tanto valor quanto à do rei. Ora, a última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis; ela o foi, aliás, tardiamente, em 1610, na véspera do assassinato de seu marido, Henrique IV; a cerimônia ocorreu em Paris, segundo um costume consagrado nos séculos anteriores (atingir Reims representava então um feito militar por causa das guerras anglo-francesas). E, além disso, desde os tempos medievais (o termo é tomado aqui em oposição a tempos feudais), a coroação da rainha tinha-se tornado menos importante que a do rei; numa época em que a guerra se alastrava pela França de forma endêmica (a famosa Guerra dos Cem Anos), as necessidades militares começaram a ter primazia entre todas as preocupações, por ser o rei, antes de tudo, o “chefe da guerra”. Tanto assim é que, no século XVII, a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da favorita. Basta lembrar qual foi o destino de Maria Teresa ou o de Maria Leszcynska para se convencer. E quando a última rainha quis retomar uma parte deste poder, lhe foi dada ocasião de se arrepender, pois ela se chamava Maria Antonieta (é justo lembrar que a última favorita, a Du Barry, reuniu-se à última rainha no cadafalso).

Esta rápida visão do papel das rainhas dá idéia bem exata do que se passou com as mulheres; o lugar que elas ocuparam na sociedade; a influência que exerceram seguiu, exatamente, um traçado paralelo. Enquanto uma Eleonora de Aquitânia, uma Branca de Castela dominam realmente seus séculos, exercem poder sem contestação no caso de ausência do rei, doente ou morto, e têm suas chancelarias, suas alfândegas, seus campos de atividade pessoal (que poderia ser reivindicado como um fecundo exemplo para os movimentos feministas de nosso tempo), a mulher, nos tempos clássicos, foi relegada a um segundo plano; exerce influência só na clandestinidade e se encontra notoriamente excluída de toda função política ou administrativa. Ela é mesmo tida como incapaz de reinar, de suceder no feudo ou no domínio, principalmente nos países latinos e, finalmente, em nosso Código, de exercer qualquer direito sobre seus bens pessoais.

É, como sempre, na História do Direito que se deve procurar os fatos e seu significado, ou seja, a razão desta decadência que se transformou, com o século XIX, no desaparecimento total do papel da mulher, principalmente na França. Sua influência diminui paralelamente à ascensão do Direito romano nos estudos jurídicos, depois nas instituições e, por fim, nos costumes. É um apagar progressivo do qual se pode seguir as principais etapas, pelo menos na França, muito bem.

Curiosamente a primeira disposição que afasta a mulher da sucessão ao trono foi tomada por Filipe, o Belo. É verdade que este rei estava sob a influência dos legisladores meridionais, que tinham literalmente invadido a corte de França, o começo do século XIV, e que, representantes típicos da burguesia das cidades notadamente das do Sul mais voltadas para o comércio, redescobriram o Direito romano com uma verdadeira avidez intelectual.

Esse Direito concebido por militares, funcionários, comerciantes, conferia aos proprietários o jus utendi et abutendi, o direito de usar e abusar, em completa contradição com o Direito consuetudinário de então, mas eminentemente favorável aos que detinham riquezas, principalmente móveis. Àqueles, com razão, esta legislação parecia infinitamente superior aos costumes existentes para assegurar e garantir bens, tráficos e negócios. O Direito romano do qual vemos renascer a influência na Itália, em Bolonha principalmente, foi a grande tentação do período medieval; ele foi estudado com entusiasmo não só pela burguesia das cidades, mas, também, por todos os que viam nele um instrumento de centralização e de autoridade. Ele se ressente, com efeito, de suas origens imperialistas e, por que não dizer, colonialistas. Ele é o Direito, por excelência, dos que querem firmar uma autoridade central estatizada. Também é reivindicado, adotado, estendido para as potências que procuravam, então, a centralização: pelo imperador, primeiro, depois pelo Papa. Em meados do século XIII, o imperador Frederico II, cujas tendências eram as de um monarca, fez deste tipo de direito a lei comum dos países germânicos. A universidade que ele funda em Nápoles — a única que os súditos do imperador estavam daí em diante autorizados a freqüentar — ministra o estudo do Direito romano, tão bem que esse Direito regeu as instituições e os costumes dos países germânicos numa época em que o Ocidente não o admitia ainda.2. Apenas ao longo do século XVII é que o estudo do Direito romano, precisamente, porque era o Direito imperial, será admitido na Universidade de Paris. É verdade que, muito antes, era ensinado em Toulouse, e que, favorecido pela admiração exagerada que se sente, no século XVI, pela Antiguidade, tinha começado a impregnar os hábitos e a modificar profundamente os costumes e as mentalidades, na própria França.

Ora, o Direito romano não é favorável à mulher, nem tampouco à criança. É um direito monárquico, que só admite um fim. É o direito do pater familias, pai, proprietário e, em sua casa, grande-sacerdote, chefe da família com poderes sagrados, sem limites no que concerne a seus filhos; tem sobre eles direito de vida e de morte — e da mesma forma sobre sua mulher, apesar das limitações, tardiamente introduzidas sob o Baixo Império.

Apoiando-se no Direito romano é que juristas como Dumoulin, por seus tratados e seus ensinamentos, contribuem, por sua vez, para estender o poder do Estado centralizado e também — o que nos interessa aqui — para restringir a liberdade da mulher e da sua capacidade de ação, principalmente no casamento. A influência deste direito será tão forte que, no século XVI, a maioridade, que era aos doze anos para as meninas e quatorze para os rapazes, na maior parte dos costumes, vai ser transferida para a mesma idade fixada em Roma, isto é, vinte e cinco anos (em Roma, a maioridade não importava muito, pois o poder do pai sobre os filhos perdurava durante toda a vida). Era uma nítida regressão sobre o Direito consuetudinário, que permitia à criança adquirir, muito jovem, uma verdadeira autonomia, sem que, por isso, a solidariedade da família lhe fosse negada. Nesta estrutura, o pai tinha autoridade de gerente, não de proprietário: ele não tinha o poder de deserdar seu filho mais velho e era o costume que, nas famílias nobres ou de homens comuns, regulava a devolução dos bens, em um sentido que mostra claramente o poder que a mulher conservava sobre o que lhe pertencia: no caso de um casal morrer sem herdeiros diretos, os bens provenientes do pai iam para a família paterna, mas os provenientes da mãe voltavam para a família materna, segundo o adágio bem conhecido do Direito consuetudinário: paterna paternis, materna maternis.

No século XVII já se constata uma profunda evolução neste ponto de vista: os filhos, considerados como menores até vinte e cinco anos, continuam sob a autoridade do pai e a característica de propriedade tendente a tornar-se monopólio do pai não faz mais do que se firmar. O Código de Napoleão dá o último retoque a este dispositivo e dá um sentido imperativo às tendências que começaram a se firmar desde o fim da época medieval. Lembremos que apenas no fim do século XVII a mulher toma obrigatoriamente o nome do marido; e, também, que é somente com o Concílio de Trento, portanto na segunda metade do século XVI, que o consentimento dos pais torna-se necessário para o casamento de adolescentes; tanto quanto se tornou indispensável a sanção da Igreja. Ao velho adágio dos tempos anteriores:

Beber, comer, dormir juntos
Fazem o casamento, me parece

junta-se:

Mas é preciso passar pela Igreja.

Não nos esqueceremos de destacar aqui o número de uniões devidamente arranjadas pela família nos tempos feudais: os exemplos são abundantes realmente, moças e rapazes, noivos desde o berço, prometidos um ao outro. Também não faltou quem quisesse argumentar com o fato de que as mulheres não eram livres na época; o que é fácil de retrucar, pois que, deste ponto de vista, rapazes e moças se encontravam em pé de igualdade rigorosa, porque se dispõe do futuro esposo absolutamente do mesmo modo que da futura esposa. Deste modo, é incontestável que ocorria, então, o que ainda hoje acontece em dois terços do mundo, isto é, que as uniões, em sua grande maioria, eram arranjadas pelas famílias. E nas famílias nobres, especialmente as reais, essas disposições faziam, de algum modo, parte das responsabilidades de nascimento, porque um casamento entre dois herdeiros de feudo ou de reinos era considerado como o melhor meio de selar um tratado de paz, assegurar amizade recíproca e, também, de garantir para o futuro uma herança vultosa.

Uma força lutou contra estas uniões impostas, e esta foi a Igreja; ela multiplicou, no Direito canônico, as causas de nulidade, reclamou sem cessar a liberdade para os que se unem, um com relação ao outro e, com freqüência, mostrou-se bastante indulgente ao tolerar, na realidade, a ruptura de laços impostos — muito mais nesta época do que mais tarde, notemos. O resultado é a constatação que provém da simples evidência de que o progresso da livre escolha do esposo acompanhou em toda parte o progresso da difusão do Cristianismo. Hoje, em países cristãos, esta liberdade, tão justamente reclamada, é reconhecida pelas leis, enquanto que, nos países muçulmanos ou nos países do Extremo Oriente, esta liberdade, que nos parece essencial, não existe ou só recentemente foi concedida.3

Isto nos leva a discutir o slogan: “Igreja hostil à mulher”. Não nos demoraremos em questionar a afirmação acima, o que exigiria um volume à parte; não iremos mais discutir as tolices evidentes4 que foram proferidas sobre o assunto. “Não foi senão no século XV que a Igreja admitiu que a mulher tinha alma”, afirmava candidamente, um dia no rádio, não sei que romancista certamente cheio de boas intenções, mas cuja informação apresentava algumas lacunas! Assim, durante séculos, batizou-se, confessou-se e ministrou-se a Eucaristia a seres sem alma! Neste caso, por que não aos animais? É estranho que os primeiros mártires honrados como santos tenham sido mulheres e não homens. Santa Agnes, Santa Cecília, Santa Ágata e tantas outras. É verdadeiramente triste que Santa Blandina ou Santa Genoveva tenham sido desprovidas de uma alma imortal. É surpreendente que uma das mais antigas pinturas das catacumbas (no cemitério de Priscille) representasse, precisamente, a Virgem com o Menino, bem designado pela estrela e pelo profeta Isaías. Enfim, em quem acreditar, nos que reprovam na Igreja medieval justamente o culto da Virgem Maria, ou naqueles que julgam que a Virgem Maria era, então, considerada como uma criatura sem alma?

Sem nos demorarmos, portanto, nestas tolices, recordaremos aqui que algumas mulheres (que nada designavam particularmente, pela família ou pelo nascimento, pois que vinham, como diríamos atualmente, de todas as camadas sociais, como, por exemplo, a pastora de Nanterre) usufruíram na Igreja, e justamente por sua função na Igreja, de um extraordinário poder na Idade Média. Certas abadessas eram senhoras feudais cujo poder era respeitado do mesmo modo que o de outros senhores; algumas usavam o báculo como os bispos; administravam, muitas vezes, vastos territórios com cidades e paróquias... Um exemplo, entre mil outros: no meio do século XII, cartulários nos permitem seguir a formação do mosteiro de Paraclet, cuja superiora é Heloisa; basta percorre-los para constatar que a vida de uma abadessa, na época, comporta todo um aspecto administrativo: as doações que se acumulam, que permitiam perceber ora o dízimo de um vinhedo, ora o direito às taxas sobre o feno e o trigo, aqui o direito de usufruir uma granja, e lá o direito de pastagem na floresta... Sua atividade é, também, a de um usufruidor, ou seja, a de um senhor. Quer dizer que, a par de suas funções religiosas, algumas mulheres exerciam, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens invejariam no presente.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desta época — sobre as quais, digamos de passagem, ainda nos faltam estudos sérios — são na maioria mulheres extremamente instruídas, que poderiam rivalizar, em sabedoria, com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às monjas o grego e o hebraico. É de uma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrostsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Digamos, de passagem, que muitos mosteiros de homens e de mulheres ministravam instrução às crianças da região.

É surpreendente, também, constatar que a mais conhecida enciclopédia do século XII é da autoria de uma religiosa, a abadessa Herrade de Landsberg. É a famosa Hortus deliciarum (Jardim das delícias) na qual os eruditos retiravam os ensinamentos mais corretos sobre o avanço das técnicas, em sua época. Poder-se-ia dizer o mesmo das obras da celebre Hildegarde de Bingen. Enfim, uma outra religiosa, Gertrude de Helfa, no século XIII, conta-nos como se sentiu feliz ao passar de estado de gramaticista ao de teóloga, isto é, depois de ter percorrido o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. O que prova que, ainda no século XIII, os conventos de mulheres permaneciam sendo o que sempre foram desde São Jerônimo, que instituiu o primeiro dentre eles, a comunidade de Belém: lugares de oração, mas, também, de ciência religiosa, de exegese, de erudição; estuda-se a Escritura Sagrada, considerada como a base de todo conhecimento e, também, os elementos de saber religioso e profano. As religiosas são moças instruídas; portanto, entrar para o convento é o caminho normal para as que querem desenvolver seus conhecimentos além do nível comum. O que parece extraordinário em Heloísa é que, em sua juventude, não sendo religiosa e não desejando claramente entrar para o convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, de uma jovem desejando “viver no século”. A carta que Pedro, o Venerável lhe enviou o diz expressamente.

Mas há algo mais surpreendente. Se quisermos fazer uma idéia exata do lugar ocupado pela mulher na Igreja dos tempos feudais, é preciso perguntarmo-nos o que se diria, em nosso século XX, de conventos de homens colocados sob a direção de uma mulher. Um projeto deste gênero teria, em nosso tempo, alguma possibilidade de se realizar? E, no entanto, isto foi realizado com pleno sucesso, e sem provocar o menor escândalo, na Igreja por Robert d’Arbrissel, em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a incrível multidão de homens e mulheres que se arrastava atrás dele — porque ele foi um dos maiores pregadores de todos os tempos —, Robert d’Abrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens, outro de mulheres;5 entre eles se elevava a Igreja, único lugar em que monges e monjas podiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, digamos que a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. Não acreditamos que, mesmo nos dias de hoje, semelhante audácia tivesse a menor oportunidade de ser considerada ao menos uma única vez.

Se se examinam os fatos, uma conclusão se impõe: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem (e em que medida não seria esta uma prova de sabedoria: levar em conta que o homem e a mulher são duas criaturas equivalentes, mas diferentes?), mas este foi um lugar eminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem entre todos os santos. E é pouco surpreendente que a época termine por uma figura de mulher: a de Joana D’Arc, que, seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes, obter a audiência e suscitar a confiança que conseguiu, afinal.

É surpreendente, também, observar a rigidez que se produziu ao redor da mulher no extremo fim do século XIII. É por uma medida bastante significativa que, em 1298, o Papa Bonifácio VII decide para as monjas (cartuxas, cistercienses) a clausura total e rigorosa que elas conheceram a partir daí. Em seguida, não se admitirá mais que a religiosa se misture com o mundo. Não se tolerarão mais estas leigas consagradas, que foram as penitentes, no século XIII, que levavam uma vida igual a todos, mas que se consagravam por um voto religioso. No século XVII, principalmente, veremos as religiosas da Visitação, destinadas, por sua fundadora, a se misturarem com a vida quotidiana, obrigadas a se conformar com a mesma clausura das carmelitas; tanto que São Vicente de Paulo, para permitir às Irmãs de Caridade prestar serviço aos pobres, tratar dos doentes e cuidar das famílias necessitadas, evitará tratá-las como religiosas e de fazê-las proferir os votos: seu destino foi, então, de Visitadoras. Não se poderia mais conceber que uma mulher tendo decidido consagrar sua vida a Deus não fosse enclausurada; enquanto que, nas novas ordens criadas para os homens, por exemplo os Jesuítas, estes permaneciam no mundo.

Basta dizer que o status da mulher na Igreja é exatamente o mesmo que na sociedade civil e que tudo o que lhe conferia alguma autonomia, alguma independência, alguma instrução, lhe foi, pouco a pouco, retirado depois da Idade Média. Ora, como ao mesmo tempo a universidade — que admite apenas os homens — tenta concentrar o saber e o ensino, os conventos deixam, de modo gradativo, de ser os centros de estudo que tinham sido anteriormente; digamos que eles param, também, e muito rapidamente, de ser centros de oração.

A mulher se encontra, portanto, excluída da vida eclesiástica, como da vida intelectual. O movimento se precipita quando, no começo do século XVI, o rei de França mantém nas mãos a nomeação de abadessas e abades. O melhor exemplo continua sendo a Ordem de Fontevrault, que se torna um asilo para as velhas amantes do rei. Asilo onde se leva daí em diante uma vida cada vez menos edificante, porque a clausura tão rigorosa não demora a sofrer grandes alterações, confessadas ou não. Se algumas ordens, como a do Carmelo ou de Santa Clara, guardam sua pureza graças a reformas, a maior parte dos mosteiros de mulheres, no fim do Antigo Regime, é de casas de recolhimento onde as filhas caçulas de grandes famílias recebem muitas visitas e onde se jogam cartas e outros “jogos proibidos”, até tarde da noite.

Faltaria falar das mulheres que não eram nem grandes damas nem abadessas, nem mesmo monjas: camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. Inútil dizer que, para ser corretamente tratada, a questão reclamaria muitos volumes e, também, que exigiria trabalhos preliminares, que não foram feitos. Seria indispensável pesquisar não somente as coleções sobre os costumes ou os estatutos das cidades, mas, também, os cartulários, os documentos judiciários ou, ainda, os inquéritos ordenados por São Luís; 6 destacam-se aí, colhidos na vida quotidiana, mil pequenos pormenores colhidos ao acaso e sem ordem preconcebida, que nos mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências: aqui a queixa de uma cabeleireira, ali a de uma salineira (comércio do sal), de uma moleira, da viúva de um agricultor, de uma castelã, da mulher de um cruzado, etc.

É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real. Ela nos parece aí, é inútil dizer, muito diferente das canções de gesta, dos romances de cavalaria ou das fontes literárias que tão freqüentemente tomamos por fontes históricas!

O quadro que se delineia da reunião desses documentos nos apresenta mais de um traço surpreendente, pois vemos, por exemplo, mulheres votarem como homens em assembléias urbanas ou nas das comunas rurais. Freqüentemente, no divertimos em conferências ou palestras diversas, citando o caso de Gaillardine de Fréchou, que diante de um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint-Savin, foi a única a votar não, quando todo o resto da população votou sim. O voto das mulheres nem sempre é expressamente mencionado, mas isto pode ser porque não se via necessidade em faze-lo. Quando os textos permitem diferenciar a origem dos votos, percebe-se que, em certas regiões, tão diferentes como as comunas bearnenses, certas cidades de Champanha, ou algumas cidades do leste como Pont-à-Mousson, ou ainda na Touraine, na ocasião dos Estados-Gerais de 1308, as mulheres são explicitamente citadas entre os votantes, sem que isto seja apresentado como um uso particular do local. Nos estatutos das cidades indica-se, em geral, que os votos são recolhidos na assembléia dos habitantes sem nenhuma especificação; às vezes, faz-se menção da idade, indicando, como em Aurillac, que o direito de voto é exercido com a idade de vinte anos, ou em Embrun, a partir de quatorze anos. Acrescentamos a isto que, como geralmente os votos se fazem por fogo, quer dizer, lar, lareira, por casa, de preferência a por indivíduo, é aquele que representa o “fogo”, portanto, o pai de família, que é chamado a representar os seus; se é o pai de família que é naturalmente seu chefe, fica bem claro que sua autoridade é a de um gerente e de um administrador, não a de um proprietário.

Nas atas de notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos (nós diríamos, os registros de coletor), desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

Não é senão no fim do século XVI, por um decreto do Parlamento, datado de 1593, que a mulher será afastada explicitamente de toda a função no Estado. A influência crescente do Direito romano não tarda, então, a confinar a mulher no que foi sempre seu domínio privilegiado: os cuidados domésticos e a educação dos filhos. Até o momento em que isto, também lhe será retirado por lei, porque, destaquemos, com o Código de Napoleão ela já não é nem mesmo a senhora de seus próprios bens e desempenha, em sua casa, papel subalterno. Embora desde Montaigne até Jean-Jacques Rousseau sejam os homens que elaborem tratados sobre a educação, o primeiro, publicado na França foi de uma mulher, Dhuoda, que o elaborou (em versos latinos) por volta de 841-843, para uso de seus filhos. 7

Há alguns anos, certas discussões ocorridas a respeito da questão da autoridade paterna, na França, foram muito desconcertantes para o historiador da Idade Média; realmente, a idéia de que foi necessária uma lei para dar à mulher direito de olhar pela educação de seus filhos teria parecido paradoxal nos tempos feudais. A comunidade conjugal, pai e mãe, exercia conjuntamente, então, a função da educação e da proteção dos filhos, assim como, eventualmente, a administração de seus bens. É verdade que a família era concebida em um sentido mais amplo; esta educação causa infinitamente menos problemas, porque ela se faz no meio de um contexto vital, de uma comunidade familiar mais abrangente e mais diversificada do que hoje, pois não está reduzida à célula inicial pai-mãe-criança, mas comporta também os avós, colaterais, domésticos no sentido etimológico do termo. O que não impede que a criança tenha, eventualmente, sua personalidade jurídica distinta; assim, se ela herda bens próprios (legados, por exemplo, por um tio), estes são administrados pela comunidade familiar, que, em seguida, deverá prestar-lhe conta.

Poder-se-ia multiplicar assim os exemplos, com pormenores fornecidos pela história do Direito e dos costumes, atestando a degradação do lugar ocupado pela mulher entre os costumes feudais e o triunfo de uma legislação “à romana”, da qual nosso Código ainda está impregnado. Seria melhor que, na época em que os moralistas queriam ver “a mulher em casa”, fosse mais indicado inverter a proposição e exigir que o lar fosse da mulher.

A reação só chegou em nossos tempos. Entretanto, ela é, digamo-lo, muito decepcionante: tudo se passa como se a mulher, eufórica pela idéia de ter penetrado no mundo masculino, continuasse incapaz da força da imaginação suplementar, que lhe seria necessária, para levar a este mundo seu traço particular, precisamente aquele que faz falta à nossa sociedade. Basta-lhe imitar o homem, ser julgada capaz de exercer as mesmas funções, adotar os comportamentos e até os hábitos de vestir do seu parceiro, sem mesmo se questionar sobre o que é realmente contestável e o que deveria ser contestado. Seria o caso de se perguntar se ela não está movida por uma admiração inconsciente, o que podemos considerar excessivo, por um mundo masculino que ela acredita necessário e suficiente copiar com tanta exatidão quanto possível, seja perdendo ela própria sua identidade, ou negando antecipadamente sua originalidade.

Tais constatações levaram-nos bem longe do mundo feudal; elas podem, em todo o caso, levar ao desejo que este mundo feudal seja um pouco mais bem conhecido, dos que crêem, de boa fé, que a mulher “sai enfim da Idade Média”: elas têm muito que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha Branca...

 Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, Capítulo VI, Editora Agir, Rio de Janeiro 1978.





Notas:

 P. Riché, Dhuoda Manuel pour mon fils, Paris, Ed. du Cerf, 1975.









  1. 1. Histoire de la bourgeoisie, op. Cit., t. II, pp. 30-31.
  2. 2. [ Paradoxalmente, os países germânicos foram modelados pelo Direito romano, enquanto que, na França, embora desagrade aos que continuam presos ao mito de “raça latina”, os costumes eram formados por hábitos que acreditamos “germânicos” e que devíamos antes chamar “célticos”.
  3. 3. “A legislação muçulmana proíbe à mulher o que ela reivindica, atualmente, e que chama de seus direitos, o que não constitui senão uma agressão contra os direitos que foram conferidos apenas aos homens”. Assim se exprimia, em 1952, em uma publicação intitulada Al Mistri, o Xeque Hasanam Makhluf (ver La Documentation française, n° 2418, 31 de maio de 1952, p. 4).
  4. 4. Não pensamos que fosse necessário, quando da primeira edição deste livro, lembrar as origens desta ridícula afirmação. Mas acontece que, ouvindo-a recentemente (1989), este esclarecimento parece útil. Gregório de Tour, na sua Histoire des Francs (História dos Francos), cap. 91, conta que o Sínodo de Mâcon de 486, ao qual ele não assistiu — diga-se de passagem —, um dos prelados fez notar “que não se devia compreender as mulheres sob o nome dos homens”, dando à palavra homoo sentido restrito do latim vir. Acrescenta que, consultando a Sagrada Escritura, “os argumentos dos bispos o fizeram reconhecer” essa falsa interpretação, o que “fez cessar a discussão”. Mas os autores da Grande Enciclopédia do século XVIII iriam explorar este pequeno incidente (que sequer consta dos cânones do Concílio) para deixar crer que se recusava à mulher a natureza...
  5. 5. Houve, daí em diante, numerosas ordens duplas na época, principalmente nos países anglo-saxões e na Espanha.
  6. 6. Iniciativa sem precedente, e também sem futuro, que consistia em fazer supervisionar, pelo rei, sua própria administração, dirigindo-se diretamente aos administradores: o rei enviava aos lugares os pesquisadores, unicamente encarregados de recolher as palavras das pessoas sem importância, que tinham motivos de reclamar dos agentes reais, e reformar assim, no local, os abusos cometidos; em outras palavras, era o caminho eficaz que remediou os defeitos do estatismo.
  7. 7. . Riché, Dhuoda Manuel pour mon fils, Paris, Ed. du Cerf, 1975.
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