Acabei de sair do Enem. E foi uma das provas mais bizarras que já fiz na minha vida.






















alguns anos tenho sido, como qualquer universitário, um mero espectador
quando o assunto são as provas do Enem. Acompanhando de longe e
participando da recepção dos alunos que entram no meu curso todos os
semestres, não é difícil reparar o impacto da massificação provocada
pelo exame, que substituiu vestibulares em diversas universidades por
uma única prova nacional.
Neste ano,
porém, minha relação com a prova mudou. Por querer manter aberta a
opção de me transferir de universidade, decidi me inscrever no
exame, mesmo faltando meros 2 semestres para me graduar. Como em todos
os anos anteriores, minha mente apenas associava a prova a vídeos
engraçados sobre adolescentes que perdem a hora, ou dois dias inteiros
de memes e repercussões no twitter, além de algumas reclamações perdidas
sobre o teor ideológico do exame, as quais nunca parei para dar
atenção.
Como você
deve imaginar, cheguei ao local da prova com mais de uma hora de
antecedência (me precavendo de me tornar um viral no youtube ou ser
entrevistado por alguns desses jornalistas que ganham a vida expondo
estudantes desesperados). Durante esses longos minutos, pude dedicar
algum tempo discutindo com alguns dos demais estudantes presentes na
fila. A experiência de conhecer outras pessoas em momentos assim, de
quase sempre profunda apreensão – como, a propósito, eu possivelmente
estava quando entrei na faculdade – é bastante reveladora. É possível
perceber, por exemplo, que professores de cursinho dificilmente saem do
clichê decoreba que marca a educação brasileira. Felizmente nenhum jovem
com quem conversei pretendia cursar Economia, como eu. Sinal de que o
futuro do país ainda possui alguma esperança.

Algumas
curiosidades, no entanto, não pude ignorar. Um dos estudantes me
alertou, e aos demais na roda de conversa, que provas de filosofia
geralmente são “fáceis”, e que “toda vez que lermos o termo luta de
classes, devemos marcar a opção Karl Marx”. O jovem, que é estudante de
física no primeiro semestre, pareceu de uma sinceridade avassaladora – o
que certamente revela mais sobre seus professores do que sobre ele
mesmo. Outros estudantes deram dicas sobre a prova de física, além de
algumas canções que ensinavam a decorar fórmulas aparentemente
importantes.
Entrar
para fazer a prova foi uma experiência igualmente curiosa. Ainda
acostumado com as provas na faculdade, confesso que demorei alguns
instantes para assimilar a ideia de que alguém de fato precisasse de 7
pacotes de biscoito, um suco de garrafa e 2 garrafas de água para fazer
uma prova de 4 horas de duração – mas essa é outra discussão. Pequei por
excesso de precaução, do início ao fim, chegando muito cedo e esperando
ao todo quase 3 horas para fazer a prova. Tudo aparentemente compensado
ao ler a primeira questão do caderno branco, um dos 4 cadernos
disponíveis.

prova2

Logo na primeira questão me deparo com um trecho citando o artigo “Segundo sexo” de Simone de Beauvoir, que dizia.
“Ninguém nasce mulher:
torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a
forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da
civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o
castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode
constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a
criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada…”
“Ok, primeira questão apenas, nada demais, Felippe Hermes”,
pensei comigo. Meus amigos certamente exageram quanto à questão
ideológica do exame. Citar uma pensadora feminista importante não é algo
reprovável ou grave. É do jogo, vamos lá. Prossegui com a prova, como
de costume, reparando nas fontes utilizadas e nos autores citados.
Dentre as
diversas reportagens de jornais sobre assuntos de relevância duvidosa
como as técnicas de gotejamento na lavoura, o teor ideológico insistia
em permanecer. Críticas ao agronegócio, aos alimentos industrializados e
as inúmeras referências às mudanças climáticas foram constantes. Neste
momento, deixei para repetir o “nada demais” a cada três questões, pois
se o fizesse a cada pergunta acabaria me traindo com a questão seguinte,
que teimava em ser mais específica e enviesada ainda.  
Provavelmente
o ponto auge da prova tenha sido o momento de definir a ideia central
das obras de Paulo Freire e um texto do Movimento Sem-Terra. Graças aos
nomes a cada dia mais estranhos como se qualificam as disciplinas
clássicas de História, Geografia, Filosofia e Língua Portuguesa, que
hoje se encontram todas emboladas em “ciências humanas e suas
tecnologias”, confesso que demorei a perceber que havia de fato uma
separação entre cada disciplina e não apenas uma prova única de
filosofia segundo o MEC. Não houve sequer uma citação à crise econômica
ou política pela qual passa o país. Quem lê a prova sai com a impressão
de que a crise de 2008 segue um assunto mais relevante para a maioria
dos estudantes do que a realidade atual do país.
Ao voltar
para a faculdade, segunda-feira, provavelmente devo apenas me lembrar
que minha dignidade ficou perdida naquela sala, junto ao cartão
resposta, onde em certo momento fui obrigado a marcar que “o desemprego é
uma consequência prática da globalização”. No cômputo geral, ainda
estou em dúvida se passo a respeitar mais os calouros de Economia por
terem resistido a um ano de massificação de ideias capengas, ou se a
lição do dia é que “felizmente” (com todas as aspas do mundo) nossas
crianças mal aprendem português e matemática. De fato, se fosse para
elas aprenderem o que cobra o Enem, o melhor caminho ainda é ser
ignorante.








fonte: Acabei de sair do Enem. E foi uma das provas mais bizarras que já fiz na minha vida. - Spotniks

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