A adorável Madame de Beauvoir



Simone de Beauvoir e seu companheiro, Jean-Paul Sartre.
Simone de Beauvoir e seu companheiro, Jean-Paul Sartre.


Simone de Beauvoir não é um nome que seja muito conhecido de alunos do ensino médio. Bom, na verdade, não era até esse fim de semana. Graças ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), milhões de alunos do ensino médio agora sabem que existe uma Simone de Beauvoir, que escreveu um livro chamado “O Segundo Sexo”, que “contribuiu para estruturar um movimento social” que trabalhou na “organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero” (palavras da prova do ENEM). Que linda, essa coisa de lutar pela igualdade de gênero, não é mesmo? Bom, talvez não.
Quem conhece o básico sobre Mme. de Beauvoir, sabe que ela era existencialista, socialista, companheira do filósofo Jean-Paul Sartre e um marco do pensamento feminista (contradictio in terminis) do século XX. Talvez já tenha lido um ou outro trecho de “O Segundo Sexo”, obra citada na prova do ENEM, ou “Memórias de uma moça bem-comportada”, ou até mesmo “A cerimônia do adeus”, livro dedicado a Sartre. Tudo isso aponta para a personalidade forte de Simone e seus posicionamentos rígidos contra a “sociedade patriarcal burguesa”. Uns poucos realmente interessados ultrapassaram essa barreira e foram além, buscando conhecer os meandros de seu pensamento e de seu caráter – normalmente, seguidores dos postulados de Beauvoir.
O problema é que um olhar mais atento nos mostra que a defesa da “igualdade de gênero” por Simone de Beauvoir é, na melhor das hipóteses, um engodo. Não só isso: em sua obra e sua vida, subjazem algumas coisas verdadeiramente tenebrosas.
Betty Friedan, feminista histórica dos Estados Unidos, travou um diálogo revelador com Simone de Beauvoir nos anos 1970, quando o mundo ainda sentia o rescaldo do Maio de 1968. Friedan e Beauvoir defendiam, segundo elas próprias, a libertação da mulher de todas as opressões, e concordavam que uma dessas opressões – a principal, talvez – fosse o cuidado da casa e dos filhos. No entanto, as maneiras de se lutar contra essa “opressão” eram vistas de modo diferente pelas duas. A divergência está exposta em “Sex, Society and the Female Dilemma: A Dialogue between Simone de Beauvoir and Betty Friedan”, publicado na revista Saturday Review, edição de 14 de junho de 1975 (tradução e grifos meus):
Beauvoir: Cuidados domésticos demandam muito tempo, são não-remunerados, e são uma exploração das mulheres pelos homens. Bem, sobre esse assunto, você encontrará um eco dentre as petites bourgeoises [“pequeno-burguesas”], certamente das intelectuais, e talvez das mulheres trabalhadoras. Mas, das esposas desempregadas de trabalhadores, não haverá apoio; esta é sua razão de ser. Isso criará uma grande divisão no meio das mulheres.
Friedan: Eu tenho trabalhado para fundar um think tank econômico para mulheres, e uma das questões é como estabelecer um valor de salário mínimo para os cuidados domésticos. Isso poderia ser reconhecido para seguridade social, para pensões, e na divisão de bens em caso de divórcio. Certamente a dona de casa pobre e de classe média se identificaria com isso.
Beauvoir: Nesse ponto, não concordamos em absoluto. Isso causa segregação; põe a mulher ainda mais em casa. Eu e minhas amigas da MLF [Mouvement de Liberation des Femmes, “Movimento de Liberação das Mulheres”] não concordamos com isso.
Friedan: Mas se ela escolher cuidar de suas crianças em tempo integral, ela poderia receber dinheiro ela mesma.
Beauvoir: Não, não acreditamos que qualquer mulher deva ter essa escolha. Nenhuma mulher deveria ter autorização para ficar em casa e cuidar dos filhos. A sociedade deveria ser totalmente diferente. As mulheres não deveriam ter essa escolha, precisamente porque, se há tal escolha, a maioria delas a tomaria. É uma maneira de forçar as mulheres numa certa direção.
Como escrevi em outro artigo, o ódio a tudo quanto é genuinamente humano é a força motriz que impulsiona esse tipo de ideologia. Isso fica ainda mais claro quando, num ponto posterior dessa conversa com Friedan, Beauvoir diz que, “enquanto a família e o mito da família e o mito da maternidade e o instinto maternal não forem destruídos, as mulheres continuarão sendo oprimidas”.
Outro ponto tenebroso da obra e da vida de Simone de Beauvoir está expresso em um abaixo-assinado do qual tomou parte em 1977. O contexto foi o seguinte: três cidadãos franceses – Bernard Dejager, Jean-Claude Gallien, e Jean Burckardt – haviam sido presos nos últimos 3 anos sob acusações de manter relações sexuais com meninos e meninas de 13 e 14 anos de idade. A legislação francesa considerava à época que manter relações sexuais com qualquer menor de 15 anos era crime de estupro presumido. Em 26 de janeiro de 1977, o jornal Le Monde publicou o abaixo-assinado, que assim versava (tradução e grifos meus):
Em 27, 28 e 29 de janeiro, Bernard Dejager, Jean-Claude Gallien, e Jean Burckardt serão julgados pela cour d’assises des Yvelines [“tribunal do júri de Yvelines”] por atos libidinosos com um menor de 15 anos de idade. Presos no outono de 1973, há mais de três anos encontram-se detidos. Apenas Bernard Dejager beneficiou-se recentemente de presunção de inocência. Tanto tempo de reclusão para se investigar um simples caso de “vício”, onde as crianças não foram vítimas de qualquer violência, mas, ao contrário, testemunharam perante os magistrados que elas consentiram – ainda que a presente lei lhes negue o direito de consentir –, tanto tempo de reclusão é considerado por nós um escândalo. Hoje, eles correm o risco de serem sentenciados a um longo tempo de prisão tanto por terem tido relações sexuais com menores, meninos e meninas, quanto por terem encorajado e tirado fotos de suas brincadeiras sexuais. Nós acreditamos que há uma incongruência entre a designação de “crime”, que serve para legitimar tamanha severidade, e os próprios fatos; e ainda mais entre a lei antiquada e a realidade da vida cotidiana em uma sociedade que tende a conhecer melhor a sexualidade de crianças e adolescentes (meninas de 13 anos, afinal, podem receber pílulas anticoncepcionais). A lei francesa se contradiz a si mesma se reconhece a capacidade de discernimento aos treze e catorze anos para julgamento e sentença, mas nega-lhes a mesma capacidade com respeito a sua vida emocional e sexual. Três anos para carícias e beijos são suficientes. Nós não compreenderíamos se, em 29 de janeiro, Dejager, Gallien e Burckardt não fossem libertados.
O mesmo tema foi, inclusive, tratado em um diálogo entre Michel Foucault, Jean Danet e Guy Hocquenghem, transmitido pela France Culture em 4 de abril de 1978 e, depois, transcrito na íntegra para publicação. Os três participantes, a exemplo de Simone de Beauvoir, defenderam a extinção do dispositivo do estupro presumido na legislação francesa (Guy Hocquenghem foi um dos signatários do abaixo-assinado, inclusive) por defender a autodeterminação da criança em matéria sexual. Apesar das palavras bonitas e do pretenso espírito libertário, Beauvoir defendia, pura e simplesmente, que a pedofilia não deveria ser criminalizada, sequer tratada como um distúrbio, mas um relacionamento amoroso como qualquer outro.
Esses dois aspectos sombrios da obra e da vida de Simone de Beauvoir – a destruição autoritária do senso de maternidade e de família, bem como a defesa da pedofilia – não são meros acidentes em sua filosofia, mas compõem o cerne de todos os escritos da francesa. Apontar que Beauvoir “contribuiu para estruturar um movimento social” que trabalhou na “organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero” é pautar, no mínimo, um ato de profunda (e maldosa) desonestidade. Isso tudo é ainda mais grave quando se trata de um exame de ensino que, na prática, pauta todo o currículo de ensino de todas as escolas públicas e particulares do Brasil.
É certo que Simone de Beauvoir queria outro tipo de sociedade. E, diante do que defendeu ao longo de sua vida, é também certo que o tipo de sociedade que ela desejava estava bem longe de ser uma sociedade mais livre e justa. O admirável mundo novo de Beauvoir, sua visão de Paraíso terreno, tem se concretizado pouco a pouco nos nossos dias, e fica mais e mais evidente que esse sonho tão acalentado por Beauvoir é, na verdade, um grande pesadelo.


fonte: https://felipeoamelo.wordpress.com/2015/10/26/a-adoravel-madame-de-beauvoir/

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