O Emir Sader americano


Olavo de Carvalho

Fortemente recomendado à minha leitura por um dos
homens mais inteligentes que conheço, e aliás
também mencionado em How The World Really Works
de Alan B. Jones como um dos dez livros fundamentais para
a compreensão da nova ordem global (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/061211dc.html),
A Century of War: Anglo American Oil Politics and the
New World Order
, de William Engdahl (Pluto Press, 2004),
foi uma decepção desde as primeiras páginas.


Sua tese fundamental é que praticamente tudo o que
acontece de mau no mundo é obra da elite financeira
americana – os Rockefeller e tutti quanti –,
empenhada em expandir ilimitadamente o poderio dos EUA por
meio do controle geopolítico de uma fonte essencial
de energia: o petróleo.


Um lance decisivo dessa guerra de conquista universal, diz
o autor, foi a invasão do Iraque, “parte da agenda
americana pós-guerra-fria, em busca da ‘dominação
de pleno espectro’”.


Um ano após a invasão de Bagdá, prossegue
Engdahl, “tornou-se claro que a guerra pouco tinha a
ver com a ameaça das armas de destruição
em massa... ou com o proclamado esforço de ‘levar
a democracia’ ao até então despótico
Iraque”.


“Tornou-se claro” para quem? Para quem tem o
New York Times e a CNN como suas principais ou únicas
fontes de informação, talvez. Para quem lê
livros e sabe o que são documentos de fonte primária,
não.


(1) A lista oficial das armas de destruição
em massa encontradas no Iraque – suficientes, por si,
para destruir muitas cidades americanas –, pode ser
lida, junto com provas convincentes da existência das
armas não encontradas, nas páginas 97-106 do
livro Disinformation: 22 Media Myths that Undermine the
War on Terror
, de Richard Miniter (Regnery, 2005). “Praticamente
– diz Miniter – nenhum dos críticos da
guerra que estiveram envolvidos nos esforços para encontrar
essas armas disse jamais não haver provas de que o
Iraque as possuía.” Foi evidentemente a mídia
popular que, para fins de propaganda anti-guerra, colocou
essa afirmação em bocas onde ela nunca esteve.
A diferença entre dizer que nem todas as armas foram
encontradas e que nenhuma foi encontrada é pelo menos
tão decisiva quanto a diferença entre dizer
“alguém opinou” e “tornou-se claro”.
Não é admissível que um estudioso profissional
de assuntos militares ignore uma dessas diferenças
ou, pior ainda, as duas.


(2) Mesmo os críticos mais ferozes do governo Bush
admitem que a democracia prometida ao Iraque foi instalada
e está funcionando perfeitamente há cinco anos.
Se alguém diz que vai fazer alguma coisa e acaba por
fazê-la de fato, só uma má-vontade psicótica
pode insistir em proclamar que ele jamais teve a intenção
de fazê-la. Pensem o que quiserem de George W. Bush,
mas que ele levou a democracia ao Iraque, levou.


Só por esses parágrafos, já se vê
que Engdahl, para dizer o mínimo, não é
sério. Mas ele complica formidavelmente sua situação
quando atribui à elite dominante dos EUA a autoria
de catástrofes inumeráveis, como “a ocupação
dos campos petrolíferos do Iraque, a guerra em Kosovo
e nos Bálcãs, infindáveis guerras civis
na África, crises financeiras ao longo da Ásia,
o dramático colapso da União Soviética
e a subseqüente emergência de uma oligarquia russa”,
e, linhas adiante, com a maior inocência, reconhece
que “um ano após a ocupação americana
de Bagdá, os objetivos da única superpotência
mundial estavam sendo questionados como nunca tinham sido
desde a guerra do Vietnã. Cenas degradantes de iraquianos
torturados lotavam as páginas da mídia mundial.
Alegações de corrupção e conspiração,
subindo até os mais altos níveis da administração
em Washington, tornavam-se lugares-comuns”.


Do confronto dessas duas séries de afirmações
temos de concluir que uma oligarquia poderosa o bastante para
determinar o curso dos acontecimentos em todo o orbe terrestre
não teve, coitadinha, os meios de obter para as suas
políticas o apoio dos jornais e canais de TV dos quais
ela própria, aliás, possui o controle acionário.
Ou acreditamos nessa hipótese imbecil, ou admitimos
que Engdahl não é muito honesto na sua tentativa
de impingir ao leitor a crenca de que a oligarquia globalista
trabalha para a expansão do poderio internacional dos
EUA e não de um governo global visceralmente anti-americano.
Oligarquia financeira e oligarquia midiática são
obviamente a mesma coisa: se os jornais em peso se voltam
contra a política militar do governo, é claro
que ela perdeu, ou jamais teve, o apoio daquela oligarquia.
Mas a ira da grande mídia não se voltou só
contra as iniciativas guerreiras do governo Bush: invariavelmente,
ela ataca tudo o que seja ou pareça favorável
ao crescimento do poder americano ou ao fortalecimento da
identidade nacional dos EUA (veja-se o horror ilimitado com
que reagiu à nova lei do Arizona contra a imigração
ilegal). Que Engdahl inverte as intenções da
oligarquia é algo que nem preciso argumentar –
David Rockefeller já o fez por mim na página
405 das suas Memórias: “Alguns acreditam
que somos parte de uma cabala secreta que trabalha contra
os melhores interesses americanos, caracterizando a mim e
à minha família como ‘internacionalistas’
e acusando-nos de conspirar para construir uma política
global mais integrada... Se essa é a acusação,
declaro-me culpado – e orgulhoso de sê-lo.”


A dúvida, se alguma existe, fica totalmente esclarecida
quando Engdahl diz a que veio: o que ele propõe é
deter ou pelo menos desacelerar o crescimento de “um
poder que já não é sustentável
nem saudável para os EUA nem para o resto do mundo”.
É o mesmo programa da Rússia, da China e dos
potentados árabes, bem como... dos Rockefellers e similares.
Foi para realizá-lo, como aliás está
sendo realizado, que a oligarquia americana apoiou e continua
apoiando Barack Obama quando ele propõe o desarmamento
unilateral dos EUA, a dissolução da identidade
americana numa pasta “multicultural” ou a completa
inação ante a corrida armamentista iraniana,
a espionagem chinesa onipresente e a ocupação
da América Latina pelas forças do comunochavismo.
Se isso é “expansão do poderio dos EUA”,
também deve sê-lo a sistemática demolição
do parque industrial americano, em que aquela elite se empenha
há décadas com uma volúpia destruidora
de fazer inveja ao vírus da Aids.


Não espanta que, com perspectiva que tem ou finge
ter das coisas, Engdahl faça tanto sucesso na televisão
russa, onde volta e meia reaparece com ares de grande expert
em geopolítica mundial. Para mim, ele é uma
espécie de Emir Sader americano: o homem que descreve
“o mundo às avessas”.





Publicado no Diário do Comércio com
o título de "O mundo às avessas"






fonte: O Emir Sader americano

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