8 coisas que não te contaram na escola sobre a Crise de 29







O Crash da Bolsa em 29 é um evento mitológico no cenário intelectual para mostrar os perigos do capitalismo liberal: um monstro ganancioso e  megalômano que acaba se destruindo. 

Quem nunca ouviu de um professor de história, geografia, filosofia ou sociologia  que o capitalismo só se mantém se for regulado pelo estado, senão ele  mesmo se acabaria? Ou que o New Deal salvou o capitalismo? Ou ainda que a guerra pôs fim a crise?
Entretanto, essa premissa  está repleta de equívocos e mitos aceitos por muitos  estudantes, seja pela passividade de acreditar nas explicações  pró-estado, seja pela negação dos professores por uma bibliografia que  mostre um outro olhar da crise.
Antes dos  mitos e equívocos sobre a Grande Depressão, vou expor alguns termos –  Reserva Fracionária e Ciclos Econômicos – que são necessários evidenciar ao leitor menos acostumado com esse assunto.

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Reservas Fracionárias

 

O sistema  de reservas fracionárias, que vigora em todos os bancos (sejam eles  americanos, europeus ou brasileiros), consiste em emprestar somente X  daquilo que se tem em caixa. Por exemplo: nos Estados Unidos, quando eu  faço um depósito a prazo (poupança) de 10 reais em um banco X, esse
mesmo banco pode emprestar 100 reais, ou seja, 10 vezes aquilo que ele  tem dentro do caixa.

Mas de  onde vem esse dinheiro? Bem, o dinheiro simplesmente sai do nada. É um  estilo de negócio vulgarmente conhecido como fraude, que tem o aval  legal para funcionar.
  
Os bancos  simplesmente transferem a riqueza da população para os seus cofres,  inflacionando a moeda com o aumento da oferta monetária.

E o  governo não faz nada quanto a isso? Sim, o governo faz. Ele delimita  quantas vezes os bancos podem multiplicar aquilo que têm em caixa. No  caso do governo brasileiro, como já dito no exemplo, 10 vezes aquilo que todo banco efetivamente possui.
Outro  fator de controle é a taxa SELIC, que o Banco Central estipula para toda transação interbancária. Assim, quando o banco X já extrapolou o limite de quanto ele poderia emprestar (10 vezes aquilo que ele tinha), ele  pede um empréstimo de outro banco – por exemplo, o banco Y -, no qual  a taxa de juros é delimitada pelo Banco Central.
Assim,  quando quer inflacionar a moeda para estimular o crescimento, o governo  abaixa a SELIC e possibilita que os bancos criem mais moeda e reduzam as taxas de juros.

 

Ciclos Econômicos


Os ciclos  econômicos são as variações na estrutura econômica ocasionadas por um  aumento na oferta monetária. Serão divididos em 3 fases: Boom, Recessão e Estabilidade.

1º Fase – O Boom

Nessa  primeira fase, temos um aumento da oferta monetária via reservas  fracionárias. Tal aumento acaba abaixando a taxa de juros  artificialmente (quanto mais dinheiro se tem para emprestar, menor tende a ser a taxa de juros). Lembrando: é um mecanismo artificial, já que a  população não poupou para poder abaixar a taxa de juros, simplesmente  criaram mais dinheiro.
O início  do Boom leva a um aumento no consumo, já que é mais fácil se conseguir  dinheiro. Nele ocorre também um aumento na abertura de novos negócios,  principalmente aqueles que antes eram inviáveis devido à alta taxa de  juros.
Essa fase  leva a população a consumir mais, a empregar mais e a criar novos  negócios e empregos. Consequentemente a produção das empresas aumenta e a renda da população também sobe vertiginosamente. O Boom cria uma ilusão de crescimento que acaba enganando toda a população, embriagando-os com falso crescimento.

2º Fase – A Recessão
Agora,  infelizmente, a 2ª fase chega. O primeiro sinal é a alta nos preços.  Consequência da inflação: quanto mais dinheiro a população possui para   gastar, maior tende a ser o preço dos produtos. Logo em seguida ocorre  um aperto no crédito, como consequência do aumento das taxas de juros –  já que estavam se tornando insustentáveis os índices de crescimento  monetário.
Com isso, a população reduz o consumo, e aqueles novos negócios de longo prazo que  haviam sido abertos e que foram os que mais pegaram empréstimos, se  limitam a dar calote nos bancos. Veremos um efeito dominó: quem tinha  dinheiro começa a quebrar, levando toda a economia consigo.
Nessa fase ocorrem índices absurdos de desemprego, junto de crescimento baixo e  alta nos preços, o que foi denominado de estagflação. A ressaca chegou.

3º Fase – A Recuperação
O que deve fazer quem oferta a moeda? Simplesmente nada, ou seja, deixar a  economia se reorganizar sozinha. Assim foi feito na depressão de  1920-21, quando o governo não interveio e a depressão se curou  rapidamente.
Expostos  os conceitos acima posso prosseguir a demonstrar aquilo que se propõe  esse texto: as 8 coisas que seus professores não lhe explicaram sobre o  desenrolar da Grande Depressão e todos os mitos que cercam esse evento  até hoje.

 1. Os Estados Unidos viveram dezenas de crises no século XIX;

 

Durante todo o século XIX – mais precisamente 1819-1820, 1839-1843, 1857-1860,  1873-1878,  1893-1897 e 1920-1921 – os Estados Unidos sofreram com  seguidas expansões monetárias, depois de recessões e recuperações. Os  professores não falam muito dessas recessões porque o mercado conseguiu  se recuperar rapidamente delas e o governo em cada ocasião não fez,  simplesmente, nada.
A crise de 1920-21 começou com um desemprego maior que a de 29, porém o presidente  Warren G. Harding se recusou a dar ouvidos a um de seus secretários,  Herbert Hoover, e intervir na economia. Pelo contrário, Harding confiou  no mercado e em menos de um ano a crise já não existia.
A crise de 29 tinha tudo para ser mais um ciclo econômico, porém a brisa se transformou em um furacão. O culpado? O governo.
 Você pode conferir maiores detalhes sobre a crise de 20 nessa palestra de Tom Woods.

2. Coolidge Imprimiu Dinheiro Que nem um Louco;

 

Sanada a  crise de 1920-21, Coolidge iniciou uma onda inflacionária – mais  especificamente a partir de 1924. Os bancos americanos, então  controlados pelo FED (Banco Central Americano), passaram a imprimir  dinheiro para estimular a economia.
A Alemanha, uma das principais credoras dos EUA, estava debilitada pela I  Guerra Mundial. Os banqueiros americanos e os governos europeus pediam  por uma redução da taxa de juros para os bancos americanos financiarem a reconstrução europeia.
Para isso, o governo reduziu as reservas compulsórias dos bancos comerciais  (quantia que os bancos devem deixar com o FED para “garantir” o poder de compra da moeda), o que estimulou a retirada de depósitos à vista  (conta corrente), para depósitos à prazo (poupança). É dos depósitos a  prazo (poupança) que os bancos delimitam suas reservas fracionárias.  Assim, quando se aumenta a poupança, o mesmo ocorre com a quantidade de  dinheiro que pode ser emitido.
Resultado: de 1921-29 a oferta de moeda aumentou em US$ 28 bilhões, um incremento  de 62% num espaço de 8 anos. Isso representa uma média anual de 7,7% de  aumento, um grau respeitável de inflação. O preço das hipotecas  dispararam, visto que a população possuía meios de conseguir crédito  fácil, expandindo, no período de 1921-29, de US$16,8 bilhões, em 1921,  para US$27,1 bilhões, em 1929. A indústria também sentiu os efeitos da  expansão de crédito. Os preços dos títulos emitidos por indústrias, de  acordo com o índice da Standard & Poor’s, aumentou de 59,4 em junho
de 1922 para 195,2 em setembro de 1929.  As ações das empresas  ferroviárias aumentaram de 189,2 para 446,0, ao passo que as empresas de utilidade pública subiram de 82 para 375,1.

Tudo se  valorizou graças à expansão monetária promovida pelo governo.  Entretanto, se tornou impossível manter a euforia no mercado e a bolha  estourou. Quando todos correram para vender suas ações em 24 de outubro  de 1929 viram que elas já não valiam mais nada.

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3. O Pré-New Deal de Hoover;

 

Hoover  comumente é tido como um presidente pró-mercado, equivocadamente. Além  de sempre ter sido a favor de uma maior subordinação do mercado ao  estado – e no governo Coolidge ter incessantemente proposto a  intervenção do estado americano na economia – seu legado econômico
atesta contra essa afirmação.

O presidente Hoover promoveu um pré-New Deal com aumento dos gastos públicos e sufocamento  de uma instável classe empresarial.Sob a influência da “nova economia”, que preconizava o  planejamento central, o presidente incitou empresários a não cortarem os preços e a não reduzirem salários. Particularmente, Hoover estipulou que eles aumentassem as  despesas com capital, aumentassem os salários e intensificassem os  outros gastos, tudo sob a crença de que isso estaria mantendo o poder de compra.
Não fosse  suficiente, Hoover embarcou numa política de déficits orçamentários e  apelou aos governos locais para que estes se endividassem ainda mais e  gastassem seus empréstimos em obras públicas. Por meio da Comissão da  Agricultura, que Hoover havia organizado no segundo semestre de 1929, o  governo federal tentou incansavelmente sustentar os preços do trigo, do  algodão e de outros produtos agrícolas. A tradição do velho Partido  Republicano, que defendia a restrição de importações, foi invocada com  afinco.
A tarifa Smoot-Hawley, aprovada em junho de 1930, elevou as tarifas de importação a níveis sem precedentes, o que praticamente fechou as fronteiras dos  EUA para os produtos estrangeiros.  De acordo com a maioria dos  historiadores econômicos, esta foi a loucura suprema de todo o período
que vai de 1920 a 1933, e início da real depressão.


A tarifa  Smoot-Hawley conseguiu enfraquecer ainda mais a indústria  norte-americana, impedindo a importação. Como resposta, outros países  também adotaram medidas protecionistas que acabariam prejudicando as  exportações americanas e levando milhares de agricultores à falência: as exportações americanas caíram de US$5,5 bilhões em 1929 para US$1,7  bilhão em 1932.  A agricultura americana habitualmente exportava mais de 20% de seu trigo, 55% de seu algodão, 40% de seu tabaco e de sua banha  de porco, e vários outros produtos. Quando o comércio internacional foi
interrompido, a agricultura americana desmoronou. 


Os bancos  rurais dependiam diretamente daqueles agricultores que foram à falência. Após a falência dos agricultores mais de 2 mil bancos rurais fecharam  as portas intensificando a crise bancária. A crise se agravou pela  Europa, fazendo com que os bancos americanos que haviam emprestado  dinheiro a juros baixos para países europeus – ainda no governo Coolidge – vissem seus devedores darem calote, enfraquecendo ainda mais o setor  bancário.
Até o  começo das medidas intervencionistas, a taxa de desemprego não havia  ultrapassado os dois dígitos. A partir de 1931, o desemprego se tornou  epidêmico, afetando 8 milhões de americanos. Mesmo com o governo  subsidiando dezenas de obras públicas e aumentado progressivamente seu
gasto, no ano seguinte, 1932, o imposto de renda seria duplado. Com o  aumento de uma série de impostos, o chamado Renevue Act, para manter  seus altos déficits públicos, o governo contribuiria ainda mais com o  desemprego, atingindo 12,4 milhões de americanos.


 4. O New Deal Só Piorou a Crise

 

Se o pré-New Deal de Hoover só prolongou e piorou a crise de 29, o New  Deal de Keynes e Roosevelt foi uma versão intensificada das presepadas  protagonizadas por Hoover.
Roosevelt  primeiro tinha que seguir seu guru Keynes. Para isso, o presidente quis  estimular a demanda agregada da economia emitindo mais dinheiro.  Roosevelt desvalorizou de todas as formas o dólar, tanto aumentando a  quantidade, quanto confiscando o ouro que lastreava a moeda. O resultado foi que em menos de 100 dias o dólar já havia sido desvalorizado em  40%.
O  presidente então conseguiu que o Congresso aprovasse o NIRA (National  Industry Recovey Act), que daria origem ao NRA (National Recovery  Administration), visando cartelizar o mercado estabelecendo controle de  preços, salários, horas e condições de trabalho. O NRA introduziu um  salário mínimo e acabou com o trabalho adolescente – tudo isso visando  aumentar o poder de compra da população.
Porém, o aumento dos custos de produção advindos do NRA, “surpreendentemente” aumentaram o desemprego para o patamar mais alto da crise, quando cerca de 13 milhões de pessoas se encontravam no desemprego.

Para  compensar o estrago feito por Hoover com os agricultores e os bancos  agrícolas, Roosevelt conseguiu aprovar o AAA (First Agricultural  Adjustement). A pretensão do AAA era aumentar a renda agrícola por meio  de uma redução da área plantada ou da destruição de safras, pagando aos  agricultores para não plantarem nada, e da organização de acordos de mercado para melhorar a distribuição.

De onde  sairia os subsídios para manter o AAA com os déficits públicos  estourados? De um imposto sobre processamento de produtos que sairia do  fragilizado setor industrial.
  
Em 1933,  com o NRA tabelando um série de preços e o AAA sugando os recursos da  indústria, que repassava para os agricultores não produzirem nada, a  economia sentiu os efeitos das desastrosas medidas. Em menos de um ano,  segundo o próprio FED, houve uma redução industrial de 28%.

Vendo os  fracassos do NRA e do AAA, com um orçamento anual de US$ 3  bilhões, Roosevelt decidiu gastar ainda mais. Em 1934, o presidente  americano prometeu um gasto de US$10 bilhões. Os impostos sobre renda e  propriedade subiram em 1934-35 enfraquecendo novamente a indústria.

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5. Momentos de Lucidez

 

As abominações do NRA e do AAA acabaram assassinadas pela Suprema Corte Americana, em 1935 e 1936. O resultado foi um declínio do desemprego.
  
Note o  leitor que muitos professores dizem que o New Deal amenizou a crise ou  mesmo que a curou, mas foi com o fim de seus carros chefes que o  desemprego pode ser reduzido.
Com o fim  do NRA os preços se reajustaram, já no fim do AAA os impostos sob a  indústria foram reduzidos e os agricultores foram forçados a voltar a  produzir. Em 1935, o desemprego caiu para 9,5 milhões, ou 18,4% da força de trabalho, e em 1936 caiu para apenas 7,6 milhões, ou 14,5%.

 

6. Parecia Que Ia Melhorar, Mas…

 

Em resposta ao fim do NRA, Roosevelt conseguiu instaurar o Wagner Act, ainda em 1935, que dava amplos poderes aos sindicatos para julgar tudo  aquilo que fosse “desleal” à classe trabalhadora americana.

Fosse por  meio de ameaças, boicotes, greves, confisco de instalações e violência  aberta cometida sob inviolabilidade jurídica, o plano coagiu diversos  trabalhadores a se tornarem membros. O resultado do Wagner Act foi um desemprego de 10 milhões de trabalhadores em 1938, próximo ao auge da crise.

Além do Wagner Act, ainda houve o imposto sobre Lucros Não Distribuídos, de 1936, que além de redistribuir a riqueza alheia também incidia sobre a produção industrial.
Em 1938, foi publicado o Decreto Sobre Salários e as Horas. Além de reduzir as horas de trabalho para 40 horas semanais, também forçou aumento de 50% em todos os salários.
Resultado: a partir de 1937 o desemprego voltou a subir exponencialmente seguido de um desemprego de 10 milhões de pessoas.

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7. Sim Foi A Guerra Que Tirou Os EUA Da Crise;

 

Em 1941, a base de Pearl Harbor foi atacada pelo Japão. Os EUA entraram na II  Guerra Mundial. Os livros do MEC e muitos professores gostam de colocar  que foi o aumento dos gastos com material bélico – incentivando a  demanda agregada – o responsável por aumentar o número de empregos  proporcionados pela grande crise.

Entretanto, o governo americano não vinha aumentando progressivamente os gastos  públicos e emitindo dinheiro e mesmo assim, como vimos acima, só  conseguiu prolongar a crise. Por que logo após quase 10 anos as teorias  de Keynes surtiram o efeito desejado?
Se  analisarmos a fundo, os EUA exportaram para a II Guerra Mundial cerca de 10 milhões de homens saudáveis, que faziam parte da população  economicamente ativa. Além disso, em 1940 houve um abandono das  políticas do New Deal e, comicamente, coincidiu com a recuperação  econômica.
A II  Guerra foi, sim, quem pôs fim à crise de 29, não pelo aumento dos gastos públicos, mas, sim, por um abandono das políticas do New Deal e da  exportação de homens para a guerra.

 

8. Os 7 Itens Acima Mostram

 

A crise de 29 foi ocasionada por culpa, exclusivamente, do estado e do sistema de  reservas fracionárias que permitiram aos políticos emitirem dinheiro de  forma quase pornográfica. O liberalismo econômico ficou como o grande  culpado da Grande Depressão, porém basta analisarmos os itens acima para notarmos a impressão digital do governo americano em todas as partes da crise, seja na sua gênese, seja no seu prolongamento.
O  keynesianismo, com seus aumentos de gastos públicos e a impressão  descontrolada de dinheiro, foi uma afronta à inteligência humana e até  hoje posa com prestígio como salvador do capitalismo mundial.
Aumentar  os custos para a produção industrial e a inflação só resultará em  desemprego e perda progressiva do poder de compra da moeda. A lógica e  os fatos listados acima estão aí para provar isso.




fonte:
8 coisas que não te contaram na escola sobre a Crise de 29 - Liberzone

A ortodoxia ateísta que me trouxe à fé

Megan  Hodder era uma jovem e ávida leitora do neoateísmo, mas sua vida mudou
quando ela leu o trabalho dos seus inimigos católicos

Cena do filme da vida de Edith Stein, do ateísmo para os altares.Na última Páscoa, quando eu estava começando a explorar a
possibilidade de que deveria haver algo a mais na fé católica, além do
que eu tinha acreditado e sido levada a crer, eu li "Cartas a um jovem
católico", de George Weigel01. Uma passagem em particular chamou-me a atenção.




Falando dos milagres do Novo Testamento e do significado de fé, Weigel escreve: "No  jeito católico de ver as coisas, andar sobre as águas é algo totalmente sensato a se fazer. Ficar no barco, atendo-se tenazmente às nossas  pequenas comodidades, é loucura."


Nos meses seguintes, aquela vida fora do barco – a vida da fé – começou a fazer bastante sentido para mim, a ponto de eu não poder mais justificar ficar parada. No último fim de semana eu fui batizada e
confirmada na Igreja Católica.


Megan Hodder


É claro, isso não deveria acontecer. Fé é algo que a minha geração não considera, mas deixa de lado e ignora. Eu cresci sem nenhuma religião e tinha oito anos quando aconteceu o atentado de 11 de
setembro. A religião era irrelevante na minha vida pessoal e, durante meus anos na escola, a religião só proporcionava um fundo de notícias de violência e extremismo. Eu lia avidamente Dawkins, Harris e Hitchens, cujas ideias eram tão parecidas com as minhas que eu empurrava quaisquer
dúvidas para o fundo da minha mente. Afinal, qual alternativa existia para o ateísmo?


Como uma adolescente, eu percebi que precisava ler além dos meus polemistas favoritos, como começar a pesquisar as ideias dos mais egrégios inimigos da razão, os católicos, a fim de defender com mais propriedade minha visão de mundo. Foi aqui, ironicamente, que os problemas começaram.


Eu comecei lendo o discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, ciente de  que tinha gerado controvérsia na ocasião e era uma espécie de tentativa – fútil, é claro – de reconciliar fé e razão. Também li o menor livro de sua autoria que pude encontrar, On Conscience02. Eu esperava – e  desejava – achar preconceitos e irracionalidade para sustentar meu ateísmo. Ao contrário, fui colocada diante de um Deus que era o Logos; não um  ditador sobrenatural esmagador da razão humana, mas o parâmetro de  bondade e verdade objetiva que se expressa a Si mesmo e para o qual  nossa razão se dirige e no qual ela se completa, uma entidade que não  controla nossa moral roboticamente, mas que é a fonte de nossa percepção moral, uma percepção que requer desenvolvimento e formação por meio do  exercício consciente do livre-arbítrio.


Era uma percepção da fé mais humana, sutil e fiável do que eu esperava. Não me conduziu a uma epifania espiritual dramática, mas animou-me a buscar mais no catolicismo, a reexaminar com um olhar mais crítico alguns dos problemas que tinha com o ateísmo.


Primeiro, moralidade. Para mim, uma moralidade ateísta conduzia a duas áreas igualmente problemáticas: ou era subjetiva a ponto de ser insignificante ou, quando seguida racionalmente, implicava resultados intuitivamente repulsivos, como a postura de Sam Harris sobre a tortura.
Mas as mais atraentes teorias que poderiam contornar esses problemas, como a ética das virtudes, geralmente o faziam a partir da existência de Deus. Antes, com minha compreensão caricata de teísmo, eu acharia isso absurdo. Agora, com o discernimento mais profundo que eu tinha começado a
desenvolver, eu não tinha tanta certeza.

Depois, metafísica. Eu percebi rapidamente que confiar nos  neoateístas para argumentar contra a existência de Deus era um erro:  Dawkins, por exemplo, dá um tratamento dissimuladamente superficial a  Tomás de Aquino em "Deus, um delírio", abordando apenas o resumo das  cinco vias de São Tomás – e distorcendo as provas resumidas, para  variar. Informando-me melhor sobre as ideias aristotélico-tomistas, eu as considerei uma explanação bastante válida do mundo natural, contra a qual os filósofos ateístas não tinham conseguido fazer um ataque coerente.


O que eu ainda não entendia era como uma teologia que operava em harmonia com a razão humana poderia ser, ao mesmo tempo, nas palavras de Bento XVI, "uma teologia fundamentada na fé bíblica". Eu sempre supus que a sola scriptura, com suas evidentes falácias e deficiências, era a
maneira segundo a qual todos cristãos firmes e fiéis liam a Bíblia. Então eu fiquei surpresa ao descobrir que esta visão poderia ser refutada com veemência tanto pelo ponto de vista católico – lendo a Bíblia através da Igreja e de sua história, à luz da Tradição – como pelo ateu.


Eu procurei por absurdos e inconsistências na fé católica que pudessem descarrilhar minhas ideias da inquietante conclusão à qual eu me dirigia, mas o irritante do catolicismo é sua coerência: uma vez que você aceita a estrutura básica de conceitos, todas as outras coisas se ajustam com uma rapidez incrível. "Os mistérios cristãos são um todo indivisível", escreveu Edith Stein em "A ciência da cruz"03. "Se entramos em um, somos levados a todos os outros". A beleza e autenticidade até das mais aparentemente difíceis partes do catolicismo, como a moral sexual, se tornaram claras quando não eram mais vistas como uma lista descontextualizada de proibições, mas como componentes
essenciais no corpo complexo do ensinamento da Igreja.

Havia um último problema, porém: minha falta de familiaridade com a fé como algo vivido. Para mim, toda a prática e a língua da religião – oração, hinos, Missa – eram algo totalmente estranho, em direção ao qual eu relutava em dar o primeiro passo.


Minhas amizades com católicos praticantes finalmente convenceram-me que eu tinha que fazer uma decisão. Fé, no fim das contas, não é meramente um exercício intelectual, um assentimento a certas
proposições; é um radical ato da vontade, que engendra uma mudança total da pessoa. Os livros levaram-me a ver o catolicismo como uma conjectura plausível, mas o catolicismo como uma verdade viva eu só entendi  observando aqueles que já serviam a Igreja por meio da vida da graça.


Eu cresci numa cultura que tem amplamente virado as costas para a fé.  Por isso eu era capaz de levar minha vida adiante com meu ateísmo mal concebido e incontestado, e isso explica pelo menos parcialmente a grande extensão de apoio popular que têm os neoateístas: para  cada ateu ponderado e bem informado, existirão outros com nenhuma  experiência pessoal de religião e nenhum interesse em argumentar  simplesmente indo na onda da maré cultural.


No entanto, à medida que a popularidade do ateísmo beligerente e pretensamente "sabe-tudo" for decaindo, cristãos sérios capazes de explicar e defender sua fé se tornarão uma presença cada vez mais vital na esfera pública. Eu espero que eu seja um pequeno exemplo da força de atração que o catolicismo ainda carrega em uma época que lhe parece às vezes irascivelmente oposta.






Fonte: The Catholic Herald | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere


fonte: A ortodoxia ateísta que me trouxe à fé - padrepauloricardo.org

Cientificismo: Todas as decisões devem ser tomadas através do método científico?



Os extremos do cientificismo

Muitas vezes, alguns indivíduos adotam uma versão extrapolada da Ciência, onde ela deve abarcar TODA realidade. Assim, Deus também teria que ser avaliado de acordo com princípios científicos. Não raro, alguns ateístas dizem que “só podemos conhecer as coisas pelo método científico” ou ainda “Deus deve ser provado cientificamente”. Resumindo a ideia:

(A)
A única forma correta de tomar uma decisão, de forma coerente, é com o método científico;
 
(B) Uma definição de posição quanto à existência de Deus é uma tomada de decisão;
 
(C) Se a pessoa não embasar sua decisão sobre Deus em provas científicas, então ele está necessariamente errada;

Para quebrarmos essa lógica, devemos lembrar que existem vários planos de conhecimento (científico, filosófico, etc). O plano do método científico se refere a conhecimentos obtidos através de experimento testáveis, reproduzíveis e controláveis sobre relações causais entre entes empíricos. Ex.: testar se remédios são eficientes no controle de doenças. O problema é que Deus, por definição, NÃO é um ser físico/empírico (material) nem “reproduzível” em laboratório. Portanto, a discussão sobre Deus está um plano acima do método científico. Deve ser feita pela lógica e pela filosofia, assim como são feita as discussões sobre existência de outras mentes, juízos morais e… juízos de conhecimento! A frase, por exemplo, “todas as tomadas de decisão devem ser feitas pelo método científico” não é resultado de uma tomada de decisão baseada em conhecimento? Se é assim, como testar essa ideia de acordo com os padrões científicos? Impossível. Ou seja, de cara já achamos uma contradição lógica. Juízos sobre conhecimento são feitos pela filosofia também. Quem utilizar métodos que servem para um fim “x”, em uma situação “y”, totalmente diferente, acabará por produzir erros.

Imagine que um indivíduo consiga um cargo de gerente jr em uma empresa que faz consultoria e auditoria. No primeiro dia ele já resolve confrontar o gerente, de forma totalmente arrogante, e sugerir vários modificações na estrutura interna de administração (que, naturalmente, vão despender dinheiro). Como ele ainda não tem o “skill” de um gerente de projetos, ele vai ser DEMOLIDO caso não consiga validar as necessidades para as mudanças propostas perante um “set” de princípios de ceticismo corporativo. O trauma de falhar nessa primeira tentativa é tão grande que ele fica CONVENCIDO que ele deve usar o ceticismo corporativo para TODA e QUALQUER decisão que ele deva fazer a partir daí, já que o gerente de projetos demonstrou (de forma quase humilhante) porque a decisão dele seria errada por esse método. Agora imaginei também que ele tivesse um encontro com a garota de seus sonhos dois dias após esse fato ocorrer (e, portanto, já pretende usar ceticismo corporativo, cujo um das regras é tornar PÚBLICO o motivo pelo qual a ideia está sendo rejeitada, além de ser sempre firme).

A senhorita com quem ele vai sair pretende pede, gentilmente, para irem em algum local descontraído, como um shopping, para bater um papo e aproveitar um lanche leve. Histericamente, ele responde: “NÃO! Já defini, analisando nossa situação de acordo com os objetivos S.M.A.R.T. , que devemos ir para um restaurante tomar um VINHO, entendeu?” A garota, meio envergonhada, aceita a proposta e vai até o local definido por ele. Chegando lá, o garçom apresenta a carta de vinhos ao casal. A moça olha e pede: “Por favor, me traga um Chianti Colli Fiorentini, se puder.” Ao que o garçom diz: “É pra já!” O gerente jr traumatizado levanta, dá um murro na mesa e grita: “O QUÊ? Não percebeu que eu ainda não analisei o VESTED INTEREST na escolha dela desse vinho? Caramba! Seu BURRO!” Digamos que a garota ainda tenha uma paciência de Jó e, quando estiver voltando para casa, ainda resolva pedir um abraço ou um beijo pelo encontro. Ao que ele responde: “NEGATIVO! Não avaliei as possíveis consequências desse ato de acordo com o método SIX SIGMA, então nem pensar em alguma coisa dessas! Sempre devemos avaliar ANTES, pelo ceticismo corporativo.” Detalhe: ele realmente queria namorar (e talvez até casar) com a garota. Considerando isso, será que essa seria uma boa atitude a ser tomada? É claro que esse fanfarrão vai levar, mais cedo ou mais tarde, um (merecido) pé-na-bunda. Motivo?

Simplesmente porque ele não aplicou o método de conhecimento no local onde ele FUNCIONA. Aí, os resultados foram desastrosos. Da mesma forma, quem quiser validar um princípio lógico pelo método científico ou um administrar uma empresa pela teologia, também vai conseguir resultados PÍFIOS. Cada coisa deve ser avaliada e utilizada pela finalidade a qual serve. O método científico não é diferente. Não podemos usar o método científico para avaliar uma questão não-científica se não quisermos cair em erro. Logo, podemos concluir que:

(1) Apenas questões que estão no escopo do método científico devem ser analisadas através dele.
 
(2) Deus é uma discussão metafísica, feita pela lógica e filosofia.

(3) Logo, Deus deve ser evidenciado através da metafísica.
Então, temos que:

(A)
Não podemos tomar todas as decisões, de forma coerente, pelo método científico, pois ele só permite o acesso a um tipo específico de conhecimento (que já exclui o conhecimento da frase “Decisões devem ser tomadas pelo método científico”, por exemplo);
 
(B) Deus, por suas características, não pode nem deve ser provado pelos padrões do método científico;
 
(C) Se (A) e (B) estão errados, logo (C), na condição de premissa conclusiva, também está;
 
(D) Logo, a objeção falhou completamente;

Conclusão:

Esse estratagema consiste na visão cientificista do mundo. Embora este conceito seja facilmente refutado, ainda há pessoas que vendem essa ideia, portanto, uma hora ou outra ela acaba ganhando adeptos entre usuários da internet. A mera pergunta “Então como você tomou a decisão que as decisões devem ser todas tomadas pelo método científico” já é suficiente, do ponto de vista lógico, para refutar esta ideia.
 
fonte: http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2014/09/cientificismo-todas-as-decisoes-devem.html

Nascidos para o amor: teoria defende a sobrevivência do mais bondoso


Yasmin Anwar




O Gene Altruísta

Cientistas estão desafiando crenças aceitas há décadas - na época apresentadas como descobertas científicas - de que os seres humanos seriam fisiologicamente constituídos para serem egoístas.

Esta noção ganhou a adesão de grande parte da comunidade científica principalmente através dos trabalhos do cientista e pregador ateu Richard Dawkins, através de seu livro "O Gene Egoísta". Hoje, grande parte dos próprios geneticistas discorda das conclusões de Dawkins.

Evolução para a compaixão

Pesquisadores da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, depois de realizarem uma vasta gama de estudos, afirmam ter coletado um grande conjunto de evidências que demonstra que nós estamos evoluindo para nos tornarmos mais cheios de compaixão e mais colaborativos em nossa busca para sobreviver e prosperar.

Nascidos para o amor: teoria defende a
Em contraste com o "cada um por si" de muitas interpretações da teoria
da evolução pela seleção natural, os cientistas defendem que os seres
humanos são tão bem-sucedidos como espécie precisamente por causa do
nosso carinho, altruísmo e compaixão.[Imagem: Wikimedia]
Em contraste com o "cada um por si" de muitas interpretações da teoria da evolução pela seleção natural, o psicólogo Dacher Keltner e seus colegas defendem que os seres humanos são tão bem-sucedidos como espécie precisamente por causa do nosso carinho, altruísmo e compaixão.

"Eles chamam esse mecanismo de "sobrevivência do mais bondoso." O trabalho resultou no livro "Nascido para ser Bom: A Ciência da Vida Plena," ainda sem tradução no Brasil.

Habilidade para cuidar dos outros

"Como nossas crianças são muito vulneráveis, a tarefa fundamental para a sobrevivência humana e para a replicação dos nossos genes é tomar conta dos outros," afirma Keltner. "Os seres humanos têm
sobrevivido como espécie porque nós evoluímos nossa capacidade de cuidar das pessoas que necessitam e para cooperar. Como Darwin há muito tempo supôs, a simpatia é o nosso instinto mais forte."

A equipe de Keltner está estudando como a capacidade humana de cuidar e cooperar com os outros está implantada em regiões específicas do cérebro e do sistema nervoso. Um estudo recente descobriu evidências convincentes de que muitos de nós somos geneticamente predispostos a sermos compreensivos e termos empatia.

Este estudo, feito Laura Saslow e Sarina Rodrigues, da Universidade Estadual do Oregon, descobriu que pessoas com uma variação particular do gene do receptor de oxitocina (ou ocitocina) são mais aptas à leitura  do estado emocional dos outros e tornam-se menos estressados em circunstâncias tensas.

Informalmente conhecido como "hormônio do aconchego", a oxitocina é secretada na corrente sanguínea e no cérebro, onde ela promove a interação social, a educação e o amor romântico, entre outras funções.

"A tendência a ser mais compreensivo pode ser influenciada por um único gene," diz Rodrigues.

Como a bondade garante a sobrevivência?

Enquanto estudos mostram que o estabelecimento de conexões e relacionamentos sociais pode contribuir para uma vida mais significativa e saudável, a grande pergunta que os pesquisadores agora estão fazendo é, "Como é que estas características garantem a nossa sobrevivência e elevam nosso status entre os nossos pares?"

Uma resposta, de acordo com o psicólogo e sociólogo Robb Willer, é que, quanto mais generosos formos, mais respeito e influência exerceremos.

Em um estudo recente, Willer e sua equipe deram uma pequena quantia em dinheiro a voluntários que participavam de uma pesquisa. A seguir, levou-os para participar de jogos de complexidade variada, cujos resultados apontavam para benefícios para o "bem comum".

"Os resultados, publicados na revista American Sociological Review, mostram que os participantes que agiram mais generosamente receberam mais presentes, mais respeito e mais cooperação de seus pares e exerceram maior influência sobre eles."

"Os resultados sugerem que qualquer pessoa que age apenas em seu próprio interesse será evitada, desrespeitada, e mesmo odiada", disse Willer. "Mas aqueles que se comportam generosamente com os outros são tidos em alta estima por seus pares e, portanto, têm seu status  elevado."

Psicologia positiva

Os benefícios da generosidade são tão grandes que os cientistas não estão mais se preocupando em por que as pessoas são generosas, mas invertendo a lógica para pesquisar o que parece ser mais patológico - por que algumas pessoas se tornam egoístas.

Esses resultados validam os resultados da "psicologia positiva", inaugurada por Martin Seligman, um professor da Universidade da Pensilvânia, cujas pesquisas, no início dos anos 1990, deslocaram-se das doenças mentais e das disfunções para investigar os mistérios da alegria e do otimismo humanos.

Embora grande parte da psicologia positiva atual esteja focada na realização pessoal e na felicidade individual, os pesquisadores da Universidade de Berkeley estreitaram suas pesquisas, estudando como ela contribui especificamente para o bem-comum.

Criando filhos mais felizes

Christine Carter, por exemplo, diretora-executiva Centro de Ciências para o Bem Maior, é criadora  do site "Ciência para Criar Crianças Felizes," numa tradução livre.

O objetivo do site Raising Happy Kids, entre outras coisas, é apoiar e promover a criação de crianças "emocionalmente alfabetizadas".

Carter traduz as pesquisas cheias de rigor científico em conselhos práticos para os pais. Ela diz que muitos pais estão se afastando das atividades materialistas e competitivas e repensando o que vai trazer a verdadeira felicidade e bem-estar para as suas famílias.

"Eu descobri que os pais que começam conscientemente a cultivar a gratidão e a generosidade em seus filhos veem rapidamente seus filhos tornarem-se mais alegres e mais felizes", disse Carter, que é autora do livro Criando felicidade: 10 etapas simples para filhos mais alegres e pais mais felizes, que estará nas livrarias em fevereiro de 2010.

"O que é muitas vezes surpreendente para os pais é o quanto mais felizes eles próprios podem  tornar-se," diz ela.





fonte: Nascidos para o amor: teoria defende a sobrevivência do mais bondoso

Dez anos depois, autor de 'O Monge e o Executivo' volta ao mosteiro



da Livraria da Folha


Um fenômeno editorial, "O Monge e o Executivo" vendeu mais de 3 milhões de exemplares no Brasil desde a sua publicação, em 2004. Dez anos depois, James C. Hunter, autor no best-seller retorna às livrarias do Brasil com "De Volta ao Mosteiro".


No lançamento, Hunter traz um novo encontro entre o monge e o executivo no mesmo mosteiro em que se conheceram no primeiro livro. Na conversa, outros cinco personagens se unem a eles.


Como resultado, descobrem que apenas um integrante do retiro anterior colocou em prática os ensinamentos sobre liderança. O autor usa o episódio para refletir o quanto conseguimos colocar em prática o que aprendemos.


"De Volta ao Mosteiro" retoma o valor do desempenho, do trabalho em equipe e do crescimento pessoal. Abaixo, leia um trecho.



Livro ensina os passos necessários para o desenvolvimento das habilidades de liderança
Livro ensina os passos para o desenvolvimento da liderança

 


NA PRIMAVERA DE 2005, recebi um telefonema de minha editora brasileira, a  Sextante, informando-me de que O monge e o executivo tinha se tornado um campeão de vendas. Levei um susto na ocasião e até hoje continuo admirado com a popularidade que o livro alcançou no país.

Desde então, estive diversas vezes no Brasil, onde fiz 70 palestras em 30 cidades diferentes, de São Luís a Blumenau, de Cuiabá a Natal, de Fortaleza a Florianópolis, de Gramado a Belém e de Manaus a Macaé. Passei a amar o país e seu povo!


Em minhas viagens, as pessoas sempre me perguntam por que meus textos fazem tanto sucesso no Brasil. Nos dez anos decorridos desde a publicação de O monge e o executivo, ainda não encontrei nenhuma explicação razoável para esse fenômeno. Para vocês terem uma ideia, o livro vendeu milhões de exemplares no mundo inteiro, sendo que 80% foram só no Brasil.


A resposta que costumo dar é que "Deus deve ter algum plano para o Brasil! Afinal, de acordo com a sabedoria popular, se você sabe explicar o milagre, não foi obra de Deus!". Quando anunciei que estava escrevendo De volta ao mosteiro, as pessoas começaram a me fazer outra pergunta: "Por que mais um livro sobre o monge e o executivo?" A resposta mais curta é: "Continuo a crescer e a descobrir coisas novas, com o mesmo vigor que recomendo aos leitores, por isso quero compartilhar esta nova aprendizagem com meu público."

Em meus 36 anos de carreira, fiz consultorias para mais de 400 organizações no mundo inteiro. Durante esse período, tive o privilégio de trabalhar com alguns dos melhores profissionais que existem, e também com alguns dos piores. Aprendi muito com meus clientes.

Além disso, já faz 17 anos desde que concluí o manuscrito de O monge e o executivo, e cheguei a uma compreensão mais profunda e mais rica da liderança servidora. Tenho também novas percepções de como as pessoas mudam, inclusive dos passos necessários para o desenvolvimento das habilidades de liderança. A primeira metade deste livro é dedicada a muitas dessas novas percepções.


Já a segunda trata da cultura e da formação de equipes de alto desempenho, tema sobre o qual fiz apenas uma breve alusão em meus dois livros anteriores. Nos últimos anos, venho adquirindo uma visão mais clara de como a cultura, o trabalho de equipe e o "companheirismo" (o que chamo de "comunidade") são importantes para as organizações. De fato, a cultura é um ingrediente fundamental (talvez o ingrediente-chave) do que torna excelente uma organização.

Antes de seguir adiante, porém, gostaria de definir melhor esses termos.

Quando uso a palavra "organização", refiro-me a qualquer grupo de duas ou mais pessoas reunidas com uma finalidade. Assim, os princípios de construção de uma cultura de excelência aplicam-se ao casamento, à família, aos esportes, aos negócios, às forças armadas, à educação - praticamente a qualquer grupo que se possa imaginar.


Ao discutir a "cultura", refiro-me à maneira como funciona a organização, incluindo suas crenças, seus valores, suas atitudes, seus comportamentos e, em última análise, seus traços e hábitos singulares. Em outras palavras, cultura é "nosso jeito de fazer as coisas". Toda organização tem sua cultura característica.


Gosto de pensar na cultura como uma águia gigantesca, com potencial para elevar qualquer organização ao nível de excelência e a novas alturas. As asas da águia que lhe permitem voar alto são a liderança servidora e um forte senso de companheirismo e comprometimento.

Ao longo dos anos, conheci muitos líderes bastante sólidos, mas que não conseguiam criar coesão e comprometimento em suas equipes. Também conheci outros que eram excelentes na formação de equipes e no estabelecimento de laços afetivos, porém incapazes de compreender a liderança ou exercê-la com competência. Quando se consegue fazer as duas asas da águia funcionarem de forma harmônica, ela voa muito mais longe. E chega ao seu destino muito mais rápido.


Minha experiência me convenceu de que esse potencial latente de excelência encontra-se adormecido em mais de 90% das organizações, incluindo empresas, casamentos e famílias. Isso é triste, porque praticamente qualquer organização tem capacidade de criar uma cultura de excelência ao se comprometer com alguns princípios simples.


A boa notícia é que dispomos da metodologia para a construção tanto de grandes líderes quanto de companheirismo e comprometimento. Na verdade, essa metodologia já existe há muito tempo!

Fico bastante surpreso ao ver como são poucos os que tiram proveito desse enorme potencial em suas organizações. E o custo é irrisório. Basta ter vontade de crescer. Vontade de mudar. Vontade de melhorar.

Construir líderes e formar uma comunidade é a chave para criar e sustentar uma grande organização e uma cultura de excelência. E os passos são simples, como você vai ver neste livro.

O filósofo e poeta Ralph Waldo Emerson dizia que, quando se assume um compromisso, o Universo conspira para fazê-lo acontecer. Rogo para que vocês assumam o compromisso de criar excelência em qualquer organização de que façam parte.


Portanto, é com grande alegria que compartilho estas novas descobertas com vocês, meus queridos leitores brasileiros! Que Deus os abençoe imensamente em sua jornada.



James C. Hunter

1º de julho de 2014
*
DE VOLTA AO MOSTEIRO
AUTOR James C. Hunter

EDITORA GMT


fonte: Folha de S.Paulo - Livraria da Folha - Dez anos depois, autor de 'O Monge e o Executivo' volta ao mosteiro - 16/07/2014

Só idiotas idolatram Che, diz fugitivo de Cuba

da Livraria da Folha

O mais famoso guerrilheiro latino-americano, Ernesto Guevara de la
Serna, é também uma das figuras mais controversas do século 20. Líder
revolucionário libertador para uns, para outros, como Humberto Fontova,
um assassino cruel idolatrado por "idiotas úteis".


Divulgação
Livro acompanha o documentário
Livro acompanha o documentário "Guevara: Anatomia de um Mito" Jornalista, cientista político e mestre em estudos latino-americanospela Universidade de Tulane, Fontova fugiu de Cuba com sua família em 1961.


Em "O Verdadeiro Che Guevara", livro que acompanha o documentário "Guevara: Anatomia de um Mito", Fontova descreve o revolucionário como um médico fracassado e um estrategista militar incompetente.

Segundo o autor, a maior parte do que sabemos sobre a vida de Guevara se fundamenta em uma biografia escrita pelo Partido Comunista do México e nos arquivos do Departamento de Propaganda de Cuba, controlado por Fidel Castro e pela viúva de Che.


Para contestar a versão mais conhecida dessa história, ele conversou com membros da revolução e refugiados, testemunhas diretas da ascensão de Fidel e da ação de Guevara. Fontova também é autor de "Fidel: O Tirano Mais Amado do Mundo".


Filho mais velho de uma família de cinco irmãos, Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de maio de 1928, na Argentina. A viagem com o amigo Alberto Granado –episódio retratado no filme "Diários da Motocicleta" (2004), do brasileiro Walter Salles– impressionou o argentino.


Execução de Che Guevara completa 45 anos
Ernesto Guevara de la Serna


O "comandante" foi condecorado pelo então presidente Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul, honraria concedida pelo governo brasileiro.

Depois de participar de revoluções e guerrilhas na América Latina e na África, ele foi executado com oito tiros por militares bolivianos no dia 9 de outubro de 1967. A morte aconteceu na aldeia de La Higuera.


*
O VERDADEIRO CHE GUEVARA

AUTOR Humberto Fontova
EDITORA É Realizações



fonte: 
Folha de S.Paulo - Livraria da Folha - Só idiotas idolatram Che, diz fugitivo de Cuba - 26/05/2014

Escola sem limites: o papel das universidades na crise da autoridade docente

 

Se a Europa criou o Estado do bem-estar social, o Brasil consolida o  Estado do mal-estar geral – que começa com a pedagogia do Marquês de  Sade nas escolas, onde a razão, vista com desconfiança pela esquerda,  cede lugar aos instintos.

“A verdadeira ciência não é a que se in­crusta para ornato, mas a que se  assimila para nutrição.” Essa máxima de Machado de Assis, “o gênio  brasileiro”, na precisa definição de um de seus biógrafos, o jornalista  Daniel Piza, precocemente falecido, revela a essência do conhecimento,  que é o principal nutriente da humanidade desde os seus primórdios,  definindo o homo sapiens diante das demais espécies. Nessa frase,  Machado usa o termo “ciência” como sinônimo de “educação”, vista não só
em sentido amplo, como um aprendizado que permeia a vida, mas também em  sentido estrito, como sinônimo de ensino formal, ou de instrução  pública, como se dizia em seu tempo.
E, ao dizer que a ciência não po­de ser mero ornato, o escritor critica a  sociedade brasileira, que, historicamente, dá mais valor aos títulos que ao conhecimento – tema que Ma­chado desenvolve num de seus contos  antológicos, “A Teoria do Me­da­lhão”, em que um pai ensina ao filho  como transformar-se num vencedor não por mérito, mas pelo cultivo das  aparências. É que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…” – como
também ensina Machado, em outro conto, em que explica a inelutável
dualidade do ser, que só é capaz de se enxergar como “eu” porque se vê
no espelho dos “outros”.
Essa irônica visão machadiana do homem antecipa o pensamento do francês  Émile Durkheim, fundador da sociologia como ciência empírica e também  pioneiro da sociologia da educação. Para Durkheim, em cada um de nós  existem dois seres. “Um – constituído de todos os estados mentais que  não se relacionam senão conosco mesmo e com os acontecimentos de nossa  vida pessoal – é o que se poderia chamar de ‘ser individual’. O outro é  um sistema de ideias, sentimentos e hábitos que exprimem em nós, não a  nossa personalidade, mas os diferentes grupos de que fazemos parte, como as crenças religiosas, as práticas morais, as tradições nacionais ou  profissionais, as opiniões coletivas de toda a espécie. Esse conjunto  forma o ‘ser social’”.
Durkheim observa que os vestígios da autoridade moral da sociedade sobre o  indivíduo estão por toda parte na história humana, a começar pela  mitologia dos mais diferentes povos. Uma prova do que diz o sociólogo  pode ser encontrada na mitologia hebraica (que veio a ser a literatura  sagrada do Ocidente, através da Bíblia), em que a primeira sanção no  âmbito da humanidade (já que a Queda de Adão e Eva ainda se inscreve no  plano divino do Éden) foi o banimento de Caim depois que ele assassina  Abel. Expulsar o indivíduo de seu meio social é, sem dúvida, uma dura  punição, que se repete, ao longo do tempo, nas mais diversas culturas.  Sócrates, por exemplo, preferiu a cicuta ao banimento, rendendo-se a
autoridade moral da sociedade grega para melhor condená-la como mártir.
A rigor, banir o indivíduo do seu meio social pode ser até mais doloroso  do que privá-lo da liberdade. Na prisão, o indivíduo ainda mantém os  laços sociais, seja com familiares, seja com os demais presos. Mas se o  banimento pudesse ser total, privando a pessoa do contato físico ou  psicológico com outras pessoas, isto é, se em vez de banir o indivíduo  da sociedade se pudesse banir do indivíduo o seu ser social, sem dúvida, nada poderia haver de mais doloroso e perceber-se-ia o quanto Durkheim  tem razão ao enfatizar que o homem é, no que tem de melhor, uma criação  da sociedade. A própria linguagem, que nos faz humanos, é uma construção social e histórica, que herdamos da coletividade.
Um dos mais pungentes contos da literatura em língua portuguesa, o belo “A Terceira Margem do Rio”, do escritor mineiro Gui­ma­rães Rosa, ilustra a tragédia do “ba­ni­mento”, com o relato de um pai que se exila do mundo em uma ca­noa, mas não vai a parte alguma, “só executava a invenção de  se per­ma­necer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro  da canoa, para dela não mais saltar, nunca mais”.
Esquerda adere ao totalitarismo de Esparta 

Durkheim explica que a finalidade da educação é constituir em cada indivíduo  este ser social, ou seja, a educação é, por excelência, a tentativa de  conjugar o “eu” com os “outros” formando o “nós”, que é a sociedade. O  sociólogo constata que cada sociedade, considerada em uma determinada  época de seu desenvolvimento, possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos de modo geralmente irresistível. Durkheim é taxativo: “É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. Há costumes com relação aos quais somos obrigados a nos conformar”. Por  isso, não existe a educação perfeita, atemporal, apropriada a todos os  homens indistintamente – o que existe, de concreto, é uma educação  histórica que varia conforme a época e o meio.
Para Durkheim, “quando se estuda historicamente a maneira pela qual se  formaram e se desenvolveram os sistemas de educação, percebe-se que eles dependem da religião, da organização política, do grau de
desenvolvimento das ciências, do estado das indústrias, etc; separados  de todas essas causas históricas, os sistemas educacionais tornam-se  incompreensíveis”.
O historiador da educação Paul Monroe conta que na Grécia Antiga, a  educação tinha como objetivo formar guerreiros, cuja principal virtude  era a bravura, moderada pela reverência. Em Esparta, a educação era  ainda mais rígida: no século IX antes de Cristo, o Estado espartano,  governado por Licurgo, instituiu uma rígida educação das crianças, que, a partir dos sete anos de idade, eram retiradas da guarda direta da mãe e iam morar em casernas públicas, custeadas pelo Estado. Como se vê, a  esquerda brasileira, que impôs o ensino obrigatório a partir dos quatro  anos, é, de certo modo, herdeira do totalitarismo militar de Esparta.
Os sistemas educacionais geralmente atendem a uma necessidade social.  Roma, por exemplo, educava as crianças para que se tornassem homens de  ação, apaixonados pela glória militar, necessária à propagação e  manutenção do Império. Por isso, Durkheim afirma que, se a educação  romana tivesse tido um caráter individualista comparável ao das  sociedades contemporâneas, a cidade romana viria por terra e, com ela, a própria civilização latina.
Ensino formal é aprendizagem e iniciação

 Com base no estudo da educação real, que permeia a história, Dur­kheim  define a educação como sendo “a ação exercida pelas gerações adultas  sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida  social”, e seu objetivo é desenvolver na criança “certo número de  estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade  política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança,   particularmente, se destine”. Nas sociedades menos complexas, como as  tribos primitivas, a educação da criança se dá de modo quase natural,  pela imitação livre da vida adulta, caçando, pescando, engendrando jogos e lutas que simulam guerras, até que os ritos de passagem se  encarreguem de sacramentar seu ingresso na sociedade dos adultos.
Mesmo nas antigas comunidades rurais, a infância, tal como a conhecemos hoje, praticamente não existia. A criança, tão logo conseguia firmar-se nos  próprios pés, começava a ajudar os adultos nas lides domésticas ou na  lavoura, conforme o sexo. No sertão brasileiro, um filho de peão de  fazenda, aos 7, 6 ou até mesmo aos 5 anos de idade, já trabalhava como  candeeiro de carro de boi, guiando pelas estradas a parelha de animais – uma atividade que exigia destreza e astúcia para compreender a
psicologia dos bois de carro, que, mesmo propensos à mansidão, podiam se assustar e causar um acidente, ferindo o jovem candeeiro. Nesse tipo de sociedade primitiva, tribal ou rural, a sociedade, para se perpetuar  nas novas gerações, praticamente prescinde de escola – a educação se dá  pelo trabalho.
Já nas complexas sociedades urbanas que surgiram com a Revolução  Industrial, a educação escolar não só é imprescindível, como se  caracteriza pela diversidade, permitindo a existência das mais diversas
especializações, que atendem a diferentes segmentos sociais. Todavia,  Durkheim sustenta que, por mais diversificada que seja uma sociedade,  ela só pode subsistir se entre seus membros existirem laços comuns – e a função essencial da educação é justamente perpetuar esses laços,  inculcando na criança valores essenciais à vida coletiva.
Explica o sociólogo que, se um grupo social vive em guerra com sociedades  vizinhas, sua educação tende a refletir um forte espírito nacionalista,  capaz de forjar os guerreiros necessários à sua defesa. Se, no entanto,  sua competição externa se dá pacificamente no campo econômico, a
educação de suas escolas tende a ser mais geral e humanista, reforçando a solidariedade orgânica, que, segundo Durkheim, caracteriza as  sociedades modernas, calcadas no aprofundamento da divisão social do  trabalho.
A sociedade moderna, ao emancipar o homem da solidariedade mecânica da  horda, que anula sua condição de indivíduo, possibilita a emergência de  um conceito universal de humanidade. E para que surja este homem  universal, é preciso que os valores que o norteiam não sejam apenas  sociais no sentido de “históricos”, mas sociais no sentido de “humanos”, isto é, suficientemente universais para captar a natureza transcendente da humanidade — aquela que, para Durkheim, reside na consciência
coletiva da sociedade moderna.
Por isso, o filósofo da educação Olivier Reboul afirma que o ensino formal, escolar, é um misto de aprendizagem e iniciação – ele não apenas  possibilita à criança o aprendizado de determinados conteúdos e  técnicas, como também a introduz na ética da sociedade adulta.
Educação divorciada da realidade

 E assim chegamos ao cerne do problema da educação brasileira – que se  agravou com a doutrinação esquerdista, mas está longe de se limitar a  esse fenômeno. A rigor, o ensino brasileiro sempre foi ideológico, mais  preocupado em imitar modismos importados do que em refletir sobre a  realidade, constituindo o ser social que o país requer.
A educação brasileira sempre foi divorciada da realidade da nação e, por  isso, nem sempre foi um meio de edificação intelectual e moral do  indivíduo – quase sempre foi um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o  saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil, costuma  ocorrer o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar  tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo
ignorante.
Essa tendência vem desde os tempos coloniais, quando os jesuítas, segundo o
sociólogo Gilberto Freyre, incutiram nos rapazes brasileiros, desde  cedo, o gosto pelo bacharelismo. Analisando o ensino jesuíta na França,  Durkheim observa que os jesuítas, procurando ser homens do seu tempo,  valorizavam o humanismo e seu culto aos gregos e latinos antigos, mas,  sabendo que essa cultura podia pôr em perigo a fé cristã, esvaziavam-na  de seu conteúdo pagão, limitando-se a usá-la como instrumento de  retórica. Vem daí a vocação do ensino brasileiro para o bacharelismo, a  discursividade, o apego aos títulos.
Essa tendência só se agravou com o tempo. Raymundo Faoro, no clássico “Os  Donos do Poder”, afirma que, na época do Império, “o letrado se torna  letrado para conquistar o cargo, para galgar o parlamento, até que o  assento no Senado lhe dê o comando partidário e a farda ministerial,  pomposa na carruagem solene”. Enquanto isso, segundo ele, reinava na  base da pirâmide a apatia, a indiferença, o alheamento, periodicamente  acordados pelos capangas, no interior, ou pelos capoeiras, nas cidades.  Os bacharéis, diz Faoro, criaram um Estado maior do que a nação, em que a caça febril ao emprego público não tinha correspondência com a  atividade econômica. Qualquer semelhança com o nosso tempo não é mera
coincidência.
Segundo o professor e crítico Hélio de Seixas Guimarães, autor do livro “Os  Leitores de Machado de Assis”, ao longo de todo o século XIX, o índice  de alfabetizados nunca ultrapassou 30% da população brasileira. E, de acordo com o primeiro censo realizado no país, publicado em 1872, apenas 18% da população livre e 15% da população total, incluindo os escravos, sabia ler e escrever. Ou seja, entre 70% e 80% da população brasileira  permaneceu analfabeta até o alvorecer do século XX. En­quanto isso, em
1878, a Ingla­ter­ra já tinha alfabetizado 70% de sua po­pulação e a  França, 77%. Já os Estados Unidos, bem antes disso, em meados do século  XIX, já era considerado uma nação de leitores, com 90% da população  branca alfabetizada, centenas de jornais e revistas e edições de livros  que su­pe­ravam a casa dos 225 mil exemplares vendidos, cifra que até  hoje um escritor brasileiro raramente alcança.
Historicamente, as elites brasileiras nunca se preocuparam em educar a população, daí o completo descaso a que sempre foi relegado o ensino público. O jornalista e escritor carioca Benjamin Costallat, em um crônica  publicada em 3 de março de 1927, no “Jornal do Brasil”, descreve uma  escola pública do Rio de Janeiro, em que as crianças conviviam com  animais, entulhos e esgoto a céu aberto, “sem as mais elementares regras de higiene, na promiscuidade sórdida”, como ele próprio afirma.  In­dignado com as pocilgas que se faziam passar por estabelecimentos de  ensino, obrigando as crianças a chafurdarem na sujeira, Benjamin  Costallat não hesitou em defender o fechamento das escolas públicas de  seu tempo, fazendo uma dura afirmação: “Melhor é ver aumentar o número  de brasileiros analfabetos do que ver aumentar o número dos porcos  brasileiros”.
Cenário promissor para o marxismo
O promissor Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, liderado em 1932 por  Fernando Aze­ve­do, Anísio Teixeira e Lourenço Filho, que defendia a  implantação do ensino público e gratuito no país, não foi suficiente  para reverter a situação calamitosa da educação brasileira, que, para  usar um vocábulo caro a pensadores de esquerda, como Pierre Bour­dieu,  continuou excludente.
As boas escolas públicas da época eram redutos das classes média e alta. A maioria dos pobres era expulsa pelo funil do exame de admissão, chamado de “primeiro cemitério” pelo padre e educador José Vieira de  Vasconcelos. Esse exame foi extinto pela reforma educacional de 1971,  promovida pelo regime militar, que criou o 1º grau de oito anos,  tornando o ensino obrigatório dos 7 aos 14 anos e dando aos pobres uma  sobrevida de quatro anos a mais de escolaridade.
Mas a educação brasileira continuou elitista, enganando os pobres com um  ensino profissionalizante que não funcionava, por falta de recursos  técnicos e humanos, e reservando à classe média e aos ricos as boas  universidades públicas e gratuitas, como a USP e as universidades  federais, numa completa inversão de prioridades.
Não poderia haver um cenário mais promissor para a propagação das ideias  marxistas, que começaram a se infiltrar no ensino superior já na década  de 1930, com Caio Padro Junior, um rico representante da nobreza  paulista, e na década de 1940, com Florestan Fernandes, oriundo de uma  família paupérrima, que começou a trabalhar aos seis anos de idade para  ajudar a mãe, que era lavadeira. Florestan Fernandes tornou-se um dos  mais respeitados intelectuais do país e elegeu-se deputado federal pelo
PT de São Paulo, exercendo dois mandatos consecutivos, até 1994.  Publicou, em 1946, uma tradução da “Crítica da Economia Política”, de  Karl Marx, e foi o fundador da “sociologia crítica” no Brasil, calcada
no marxismo, tendo sido professor de Fernando Henrique Cardoso.
Esses antigos marxistas ortodoxos, entre os quais se incluem o fervoroso  machadiano Astrogildo Pereira e o sociólogo e crítico literário Antonio  Candido, decano da USP, que está completando 96 anos hoje [quinta-feira, 24], eram todos filhos do iluminismo, como o próprio Marx, e  acreditavam na alta cultura, sendo eles próprios leitores de  Shakespeare, de Balzac, de Eça, de Zola e até da Bíblia.
Hoje, quando a universidade brasileira tornou-se obcecada por essa estranha  mistura de Paulo Freire com Michel Foucault, a esquerda já não quer  saber de reivindicar para o proletariado o acesso à alta cultura – o que esses marxistas pós-modernos querem é simplesmente destruir a cultura,  transformando a escola numa terra devoluta, onde esperam cultivar o  homem novo, fazendo das crianças verdadeiras cobaias de seus  experimentos revolucionários. A guerra selvagem contra o sexo biológico,
travada pelos corrosivos estudos de gênero, é um exemplo cabal dessa  transformação das crianças em cobaias dos engenheiros sociais.
Hoje, nas escolas, impera a pedagogia do Marquês de Sade. A razão é vista com desconfiança. Em seu lugar, a esquerda universitária entronizou o  desejo e, por consequência, os instintos, como se viu no recente evento  “Xereca Satânica”, promovido na Universidade Federal Flu­minense, em que uma mulher teve a vagina costurada como atividade pedagógica de uma  disciplina acadêmica. Esse ataque sistemático à razão enfraquece o papel do professor da educação básica. Se a mente já não conta e tudo se  reduz ao desejo, para que serve o professor? Sua autoridade deixa de ser um mandato social exercido em nome dos pais e da sociedade para se  tornar uma instável concessão dos próprios alunos.
A esquerda, que outrora acusava a burguesia de ministrar uma educação  sexista, hoje impõe uma educação pornográfica. Os textos paradidáticos  adotados na educação básica muitas vezes submetem as crianças a um  verdadeiro festival de violência, que vai da chacina à tortura, passando pelo estupro e o incesto, sem contar a indefectível e deletéria  discussão sobre drogas, que ocupa o lugar dos modelos positivos, tão  necessários à formação das crianças. Para a universidade, a infância é  uma invenção burguesa, que precisa ser destruída. A morte da infância  dispensa a autoridade paterna; com isso, crianças, jovens e adolescentes tornam-se presas fáceis da ideologia revolucionária – sempre em busca
de marionetes humanas.
Nada escapa à sanha destruidora dessa esquerda revolucionária. Se a Europa  criou o Estado do bem-estar social, o Brasil está consolidando o Estado  do mal-estar geral. Todas as políticas públicas do País desde a  redemocratização têm como principal objetivo fomentar um sentimento de  culpa nas pessoas normais, acusadas injustamente de excluir  homossexuais, mulheres, negros, índios, loucos, drogados, mendigos,  menores de rua, deficientes físicos, deficientes mentais e toda sorte de excluídos reais e imaginários que povoam a mística esquerdista.
Até os jovens – que são ostensivamente privilegiados em todos os quadrantes da sociedade brasileira – também foram transformados em oprimidos de  manual pela esquerda, que, com o malfadado Estatuto da Juventude, deu um golpe etário na Constituição e, em vez de reduzir a maioridade penal,  como esperam quase todos os brasileiros, fez foi adiar a infância até a  idade de 29 anos. Quem duvida, leia o artigo 227 da Constituição,  modificado pela chamada Emenda Constitucional nº 65, a PEC da Juventude.

Aluno se tornou o verdadeiro regente de sala 

Hoje, esse culto à juventude que emana das universidades tende a transformar o aluno no verdadeiro regente de sala. O psicólogo Yves de la Taille,  professor da USP, tece críticas às correntes  pedagógicas que, no afã de  cativar o aluno, olvidam os limites necessários à educação. A tentativa
de facilitar o aprendizado interfere até no conteúdo dos currículos e no modo de ministrá-lo em sala de aula.


La Taille observa que muitas “perspectivas educacionais ditas  construtivistas”, que procuram alicerçar o ensino na experiência do  estudante, acabam reduzindo a história e a geografia às “experiências  íntimas” dos alunos e “aos diâmetros que seus pés ou carros podem  percorrer”; passam à criança “a idéia de que suas teorias espontâneas  têm tanto valor quanto as teorias científicas; dizem ao aluno que “suas
formas de falar têm tanta beleza e estilo quanto as formas literárias”.
“Alegando ter o cuidado de respeitar a inteligência infantil, alguns educadores  procedem a uma verdadeira ‘sonegação de informações’, a uma sacralização dos erros, a uma proibição quase religiosa da apresentação de modelos”, afirma Yves de la Taille. O psicólogo deixa claro que educação se faz
com limites – título de um de seus livros. Afirma La Taille: “A  colocação de limites, no sentido restritivo do termo, faz parte da  educação, do processo civilizador, e, portanto, a ausência total dessa  prática pode gerar uma crise de valores, uma volta a um estado selvagem  em que vale a lei do mais forte”.
Yves de La Taille mostra que o limite é fundamental para o amadurecimento do indivíduo e é ferramenta essencial da pedagogia: respeitando limites, o aluno reconhece o outro e aprende a viver em sociedade; transpondo  limites, o aluno alcança a maturidade e a excelência, superando suas  próprias fraquezas; impondo limites, o aluno garante seu direito à  intimidade, à privacidade, tão necessário ao seu  autoconhecimento.
É por essa via que o aluno deixa de ser o mimado “sujeito de direitos” da pedagogia progressista e do Estatuto da Criança e do Adolescente para  se tornar senhor de si – consciente de que a liberdade custa o caro  preço da responsabilidade. A isso se chama mérito, infelizmente banido  da escola brasileira, onde a ciência já não é nem mesmo ornato, pois se  tornou bandeira da mais nociva ideologia – a que sacrifica o homem  concreto no altar de uma humanidade utópica.



Publicado no Jornal Opção.


José Maria e Silva é sociólogo e jornalista.
(Texto apresentado no 1º Congresso Nacional sobre Doutrinação Política e Ideológica nas Escolas, realizado em Brasília pela ONG Escola Sem Partido, com o apoio da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares.)



fonte:
Mídia Sem Máscara - Escola sem limites: o papel das universidades na crise da autoridade docente
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