Sobre a diferença salarial entre homens e mulheres




NOTA

O Congresso brasileiro aprovou uma lei (ainda a ser sancionada pela presidente) que proíbe empresas de pagar salários menores para as mulheres em relação aos homens.  As empresas que descumprirem esta lei serão multadas.  Segundo o IBGE,
As mulheres receberam, em média, 72,3% do salário dos homens em 2011, segundo o estudo 'Mulher no mercado de trabalho: perguntas e respostas', divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. O número repete a proporção encontrada nos levantamentos de 2009 e 2010.
O estudo mostrou ainda que a jornada de trabalho das mulheres foi inferior à dos homens. Em 2011, as mulheres trabalharam, em média, 39,2 horas semanais, contra 43,4 horas dos homens, uma diferença de 4,2 horas. Entretanto, segundo o IBGE, 4,8% das mulheres ocupadas em 2011 gostariam de aumentar a carga horária semanal.
Observe que não é preciso ser um gênio econômico para entender que, em média, os salários das mulheres de fato têm de ser menores, uma vez que mulheres trabalham em média menos que os homens.
Mas é claro que a lógica nunca foi o forte nem de feministas e nem de esquerdistas, que sempre operaram em conjunto.  O raciocínio marxista-feminista por trás desta lei totalitária é o de que o capitalismo é inerentemente discriminatório e machista, e que, portanto, é necessário o governo impor regulamentações salariais para se alcançar a "igualdade" e a "justiça social" (daqui a pouco vão exigir quotas femininas para a construção civil e para o setor de mineração, sob o rótulo de 'diversidade'). 
Afinal, toda e qualquer disparidade salarial sempre será explicada unicamente pelo inerente sexismo presente no capitalismo, que seria um sistema amplamente masculino.
No entanto, há outras explicações mais profundas sobre o porquê desta divergência salarial entre os gêneros.  Walter Block faz o serviço.
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salario_mulher.jpgEm primeiro lugar, quero deixar claro que, em um mercado de trabalho com liberdade de contratação e demissão, é impossível haver divergências salariais entre homens e mulheres em decorrência unicamente de discriminação.  E isto por um motivo puramente econômico: se houvesse tal discriminação, qualquer empregador iria obter lucros fáceis contratando mulheres e dispensando homens, uma vez que as mulheres poderiam receber um salário menor para fazer exatamente o mesmo trabalho.  A concorrência entre os empregadores iria, então, elevar os salários das mulheres e, assim, abolir qualquer diferença salarial que porventura exista.
Logo, sempre e em qualquer ocasião que houver qualquer tipo de discriminação salarial — e isto vale não apenas para gêneros, mas também para cor de pele, religiões, etnias etc. —, o capitalismo irá abolir tal situação, e não aprofundá-la.  E o motivo essencial é que um empregador que permite que seus preconceitos turvem seu juízo de valor estará assim criando uma oportunidade de lucro para seus concorrentes.  Uma mulher que produz $75.000 por ano em receitas para seu patrão, mas que recebe, digamos, $20.000 a menos que um empregado masculino igualmente produtivo, poderá ser contratada por um concorrente por, digamos, $10.000 a mais do que recebe hoje e ainda assim permitir que este novo empregador embolse os $10.000 de diferença.  À medida que este processo concorrencial for se aprofundando ele irá, ao fim e ao cabo, elevar os salários femininos ao ponto de paridade com os salários masculinos caso a concorrência salarial seja vigorosa o bastante.
Esta questão da "disparidade salarial" vem sendo abordada há décadas não só pelo economista Prêmio Nobel Gary Becker (meu orientador de teses quando estava na Columbia University), como também por vários outros economistas, sob um mesmo prisma: o casamento afeta a capacidade de renda futura de homens e mulheres de maneira substancialmente distinta.  Há exceções, é claro, mas, em termos gerais, a probabilidade de as mulheres saírem da força de trabalho por um período de tempo — por causa de gravidez, criação e educação de filhos e outras tarefas (das quais a maioria dos homens se esquiva) — é maior que a dos homens.  As mulheres são muito mais propensas que os homens a se ausentar do mercado de trabalho por um período de tempo (anos) para se dedicar à família.  E mesmo que não façam isso, elas tendem a gastar muito mais tempo que os homens cuidando das crianças e das tarefas domésticas.  Consequentemente, elas ficam atrás de seus colegas homens em termos de acumulação de capital, produtividade e salários.
Não estou fazendo nenhum juízo de valor, não estou dizendo se isso é justo ou injusto, se é correto ou enviesado; estou apenas citando um fato da vida.  E isto ajuda a esclarecer um dos motivos por trás da diferença salarial entre homens e mulheres.
Em termos puramente econômicos, chamamos este fenômeno de "efeitos assimétricos do casamento".  Em um casamento convencional, cabe à mulher fazer a maior parte dos serviços domésticos, como cozinhar, varrer, limpar, fazer compras e cuidas dos filhos.  E isto, esta divisão de tarefas, por si só é algo que acentua o rendimento masculino e reduz o feminino.  Trata-se de um exemplo do mais básico axioma econômico do 'custo de oportunidade'.  Quando uma pessoa se dedica a fazer alguma coisa, ela o faz à custa de estar fazendo outra coisa qualquer.
Podemos ilustrar esta indelével realidade econômica utilizando o exemplo de Michael Phelps, campeão mundial de natação.  Ele jamais poderia, por exemplo, ser um bom violoncelista, dado que ele gasta de 8 a 10 horas por dia em uma piscina em vez de estar praticando suas habilidades musicais.  O custo de oportunidade de ser um atleta olímpico é a abdicação de todas as outras oportunidades de carreira.  Da mesma maneira, o custo de oportunidade da alegria da maternidade é a abdicação de um salário potencialmente maior no mercado de trabalho.  A maternidade e o casamento fazem com que as mulheres se ocupem de várias outras atividades além de ofertar mão-de-obra ao mercado de trabalho.  Daí sua produtividade neste setor ser menor do que aquela que poderiam ofertar caso jamais se casassem.
E isto pode ser comprovado por várias estatísticas que demonstram que, quando você compara apenas homens e mulheres solteiros, a divergência salarial virtualmente desaparece.  Da mesma maneira, quando você utiliza uma amostra composta unicamente de jovens entre 18 e 24 anos, a divergência salarial também não é encontrada, uma vez que a maioria deles jamais se casou.  E isto faz completo sentido.  Afinal, embora a produtividade feminina, em média, de fato possa ter sido menor que a dos homens durante os séculos passados, quando a força física era algo extremamente importante, no século atual isto não mais é válido.  Ademais, caso (todas) as mulheres de fato apresentassem hoje a mesma produtividade que os homens (não apresentam por causa do casamento), então, como dito, haveria uma oportunidade de maiores lucros para qualquer empresa que se especializasse na contratação de mulheres.  Certamente esta é uma situação que não perduraria por muito tempo.
No que tange às barreiras à ascensão da mulher no mercado de trabalho, há também outra explicação, só que mais radical e, logo, mais politicamente incorreta.  Embora homens e mulheres, em média, tenham produtividade semelhante no mercado (desconsiderando aqui as influências do casamento), sua variância não é a mesma de forma alguma.  Os homens são as "criaturas aleatórias" de Deus ou da natureza: em termos de habilidades e capacidades, sua distribuição estatística está completamente dispersa no espectro.  Em comparação, as mulheres são as "apólices de seguro" de Deus ou da natureza: sua frequência de distribuição está bem mais concentrada na média, tanto em termos de QI quanto de produtividade.  Seu desvio padrão é muito baixo. 
Pensemos na famosa "curva em forma de sino" que representa o fenômeno estatístico da distribuição normal.  Peguemos, primeiramente, o lado esquerdo desta curva.  Os homens excedem vastamente as mulheres em números de prisioneiros, de mendigos, de pacientes em manicômios e demais instituições psiquiátricas, e de mortes precoces (ou seja, os homens morrem antes das mulheres não apenas de causas naturais, mas também como vítimas de homicídios).  Do outro lado do espectro, no lado direito, há muito poucas mulheres.  São pouquíssimas as mulheres campeãs de xadrez, vencedoras de Prêmio Nobel em ciências exatas ou economia, ou reconhecidas físicas, químicas ou matemáticas.  O ex-reitor de Harvard, Lawrence Summers, foi demitido de seu posto por ter especulado que parte da explicação para este estado de coisas era de origem biológica.  Vou mais além do que ele e digo que isto é uma importante parte da explicação, pois, em termos sócio-biológicos, foi esta baixa variância feminina o que permitiu que nossa espécie fosse superior a todas as outras.  Por exemplo, se as mulheres, assim como os homens, pudessem hoje ser encontradas em números desproporcionalmente altos em prisões, nas ruas como sem-teto, em instituições mentais etc., elas teriam sido incapazes, milhões de anos atrás, de criar filhos.  Tal espécie não teria durado, ao contrário da nossa, na qual são muito poucas as mulheres que não são capazes de criar e educar a próxima geração.
Por outro lado, explicações muito mais explosivas sobre diferenças salariais podem ser encontradas no livro do professor James T. Bennett, do departamento de economia da George Mason University, intitulado The Politics of American Feminism: Gender Conflict in Contemporary Society.  Neste livro, o professor Bennett enumera, utilizando paráfrases, mais de vinte motivos por que os homens ganham mais que as mulheres.  Cumulativamente, tais explicações respondem por completo a existência de qualquer "disparidade salarial", embora o próprio Bennett acredite que a discriminação salarial por gênero não seja algo inexistente.  Os motivos, baseados em generalizações respaldadas por volumosas estatísticas, são:
  • Homens têm mais interesse por tecnologia e ciências naturais do que as mulheres.
  • Homens são mais propensos a aceitar trabalhos perigosos, e tais empregos pagam mais do que empregos mais confortáveis e seguros.
  • Homens são mais dispostos a se expor a climas inclementes em seu trabalho, e são compensados por isso ("diferenças compensatórias" no linguajar econômico).
  • Homens tendem a aceitar empregos mais estressantes que não sigam a típica rotina de oito horas de trabalho em horários convencionais.
  • Muitas mulheres preferem a satisfação pessoal no emprego (profissões voltadas para a assistência a crianças e idosos, por exemplo) a salários mais altos.
  • Homens, em geral, gostam de correr mais riscos que mulheres.  Maiores riscos levam a recompensas mais altas.
  • Horários de trabalho mais atípicos pagam mais, e homens são mais propensos que as mulheres a aceitar trabalhar em tais horários.
  • Empregos perigosos (carvoaria) pagam mais e são dominados por homens.
  • Homens tendem a "atualizar" suas qualificações de trabalho mais frequentemente do que mulheres.
  • Homens são mais propensos a trabalhar em jornadas mais longas, o que aumenta a divergência salarial.
  • Mulheres tendem a ter mais "interrupções" em suas carreiras, principalmente por causa da gravidez, da criação e da educação de seus filhos.  E menos experiência significa salários menores.
  • Mulheres apresentam uma probabilidade nove vezes maior do que os homens de sair do trabalho por "razões familiares".  Menos tempo de serviço leva a menores salários.
  • Homens trabalham mais semanas por ano do que mulheres.
  • Homens apresentam a metade da taxa de absenteísmo das mulheres.   
  • Homens são mais dispostos a aturar longas viagens diárias para o local de trabalho.
  • Homens são mais propensos a se transferir para locais indesejáveis em troca de empregos que pagam mais.
  • Homens são mais propensos a aceitar empregos que exigem viagens constantes.
  • No mundo corporativo, homens são mais propensos a escolher áreas de salários mais altos, como finanças e vendas, ao passo que as mulheres são mais predominantes em áreas que pagam menos, como recursos humanos e relações públicas.
  • Quando homens e mulheres possuem o mesmo cargo, as responsabilidades masculinas tendem a ser maiores.
  • Homens são mais propensos a trabalhar por comissão; mulheres são mais propensas a procurar empregos que deem mais estabilidade.  O primeiro apresenta maiores potenciais de ganho.
  • Mulheres atribuem maior valor à flexibilidade, a um ambiente de trabalho mais humano e a ter mais tempo para os filhos e para a família.
Portanto, caso as mulheres queiram salários maiores, elas deveriam prestar mais atenção a estes determinantes e se concentrar menos em cruzadas quixotescas como legislações sobre "diversidade e igualdade" que demonizam empregados e patrões homens.
A sugestão de que atributos sexuais são utilizados na escolha de um empregado, ou que eles são determinantes para o contra-cheque, nada diz a respeito dos gostos sexuais do empregador.  Diz apenas sobre escassez.  Empregadores não têm como saber qual a produtividade de um empregado antes de sua contratação.  Mais ainda: a produtividade deste empregado pode não ser prontamente perceptível após sua contratação.  O processo de contratação utiliza recursos.  Adicionalmente, o período de teste e adaptação é custoso; ele também consome recursos da empresa na forma de monitoramento, supervisão e materiais.  E empregadores têm um incentivo para economizar todos estes custos.  Logo, uma contratação não pode ser algo guiado unicamente pelo sexo do indivíduo.  Vários outros possíveis atributos e possíveis ocorrências futuras têm de ser considerados pelo empregador.
Porém, tal lógica econômica é normalmente suprimida por grupos politicamente corretos que julgam ser muito mais fácil e produtivo simplesmente difamar aqueles que tentam explicar que há motivos economicamente racionais para a existência de eventuais divergências salariais entre homens e mulheres.

Walter Block é membro sênior do Mises Institute e professor de economia na Loyola University, Nova Orleans.

IMB - Sobre a diferença salarial entre homens e mulheres

A degradação do papel do mestre

Cesar Alberto Ranquetat Júnior*
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A situação do sistema educacional brasileiro é no mínimo preocupante. Os dados estatísticos, as reportagens em jornais e na televisão, as inúmeras pesquisas e os testes internacionais nas mais diversas áreas do conhecimento demonstram explicitamente a decadência intelectual e cultural que devasta a sociedade brasileira. Diante deste quadro assombroso precisamos, antes de tudo, sondar as “raízes do mal” e tomarmos outros rumos, pois como frisava o crítico literário Otto Maria Carpeaux, o destino intelectual das nações depende fundamente da qualidade das universidades. Seguem algumas experiências pessoais, pistas, reflexões e proposições que podem contribuir para este debate.
Lembro-me, quando cursava a faculdade de Direito, de minha atitude respeitosa e de sincera admiração pelos (poucos) professores dedicados ao seu ofício de educar. Impressionava-me com aqueles que desfilavam em suas aulas erudição e vasta cultura científica e humanística, bem como paciência e sensibilidade no trato com o aluno. Eram eles a perfeita expressão do verdadeiro mestre, do homem dotado de lucidez intelectual, do sábio de outrora. Tratavam-se de figuras modelares que ainda servem para mim como uma luz inspiradora e orientadora em meio ao caos, à mediocridade e à estupidez característicos do nosso tempo.

O professor, o mestre, o educador, era visto em épocas passadas como uma espécie de sacerdote; seu papel e sua atividade revestiam-se de um caráter sacramental, sua função era de ordem espiritual. Conforme demonstra o historiador das ciências Georges Gusdorf, a função do professor na modernidade guarda semelhanças com o papel do xamã, do mago, do curandeiro nas culturas primitivas. Eram estes os depositários das tradições sagradas, os mestres dos rituais de iniciação. Era papel deles assegurar a continuidade da vida social pela transmissão dos saberes e “segredos” que lhe servem de base. Desse modo, o mestre, o verdadeiro professor, é aquele que inicia o neófito na vida adulta, no longo e tortuoso caminho da construção da personalidade. Ele é como um “artesão” que forja a si mesmo, edifica sua própria individualidade para que então, num segundo momento, possa dedicar-se inteiramente na árdua tarefa de transmitir “as armas e ferramentas” para que os alunos, “discípulos”, conheçam a si próprios e assim se tornem senhores de seu universo interior.

A relação entre o mestre e seus aprendizes é marcada pela necessidade da criação de liames, laços afetivos e cognitivos. É uma relação de mútua dependência que se funda no confronto e no diálogo face a face, num contato duradouro e íntimo. O verdadeiro professor é aquele que conduz seus discípulos na direção da conquista de suas próprias vocações, acendendo na alma dos alunos a chama imorredoura da busca pela sabedoria. Esta dimensão iniciática da função docente é ressaltada por Gusdorf: “A palavra do mestre é uma palavra mágica: um espírito desperta ao apelo de outro espírito; pela graça do encontro uma vida foi mudada. Não que essa vida deva daqui para frente devotar-se a imitar a alta existência que, num dado momento, cruzou e iluminou a sua. Uma vida mudou, não à imagem da outra vida que a visitou, mas à sua própria e singular semelhança. Jazia na ignorância e passou a conhecer-se e pertencer-se, a depender unicamente de si mesma, a sentir-se responsável por sua própria realização”. Quão distantes estamos deste ideal de maestria, de algum modo a função docente perde seu halo de sacralidade e, por conseqüência, a autoridade professoral definha.

É bastante preocupante e entristecedor ver como, atualmente, muitos alunos portam-se no ambiente acadêmico. Diante de professores preocupados com o conhecimento e a sabedoria, perfilam-se atitudes quase sub-humanas, caracterizadas pela total passividade, indiferença e até mesmo desrespeito. Atitudes que sinalizam para o predomínio de um tipo humano pueril, infantilizado e imaturo. A mudança ocorrerá apenas quando o aluno tomar a dura decisão de comprometer-se realmente, de corpo e alma, com o desenvolvimento intelectual, deixando de lado esta atitude egoísta e letárgica.

O professor, por sua vez, encontra-se sufocado por uma miríade de atividades burocráticas e administrativas, acossado pela lógica produtivista da “fabricação em massa” de papers, e por uma obsessão especializante que o conduz a um estado de “miopia intelectual”. Como aprimorar seus conhecimentos, expandir seu universo de consciência e adquirir alta cultura se praticamente hoje o professor não mais dispõe de tempo para o ócio? Importa ressaltar aqui o sentido original e etimológico da palavra ócio, para evitar mal entendidos. Esta expressão deriva do latim otium que significava para os antigos romanos o tempo dedicado à atividade intelectual, à vida interior, à ocupação com as artes, à ciência, à filosofia e ao lazer em geral. O ócio opunha-se ao negócio, do latim nec-otium, que relacionava-se às atividades de subsistência, ao trabalho. A expressão escola, por seu turno, deriva do termo grego scholé, que significava justamente o ócio em sua acepção original. A escola, bem como o ambiente acadêmico e universitário, era visto pelos “antigos” como o espaço onde os indivíduos deixavam de lado suas ocupações rotineiras e triviais para ocuparem-se com a reflexão, o estudo e a busca da verdade. Conforme explica o cientista político e educador inglês Michael Oakeshott, a idéia da escola e da universidade é de um lugar à parte, onde os herdeiros de uma cultura tomam contato com a sua herança moral e intelectual. É neste ambiente único onde por meio do estudo são criados e cultivados os hábitos da atenção, concentração, exatidão, coragem, paciência e reconhecimento da excelência, quer no pensamento, quer na conduta.

Agora, a pergunta que faço é a seguinte: como desenvolver virtudes éticas e intelectuais e fazer do ambiente escolar e universitário um local devotado ao conhecimento e à reflexão em salas abarrotadas de alunos? Estudo e atenção exigem silêncio, calma e serenidade, e não a agitação e o barulho perturbador que se costuma verificar em salas de aula com um número excessivo de alunos.

Diante deste quadro declina e cada vez mais se torna escassa a figura modelar e paradigmática do verdadeiro mestre. Este perturbante problema de nossa época já foi perfeitamente apontado há algumas décadas atrás pelo filósofo espanhol Julián Marías em um brilhante artigo intitulado O Respeito à Universidade; asseverava ele: “Cada vez que vejo mais de perto professores universitários, pondo de lado sua competência científica, que pode ser considerável, surpreende-me a freqüência com que pertencem a um tipo humano que em nada se parece com o que se costumava entender por ‘intelectual’. São mais semelhantes aos chamados executivos, ou a técnicos ou administradores. Têm pressa — o que não significa forçosamente que façam muito; não parecem interessar-se por nada que não tenha relação muito direta com seus trabalhos; não se lançam avidamente em busca de alguma idéia atraente; não dão impressão de prazer — ainda que seja um prazer tenso e doloroso — ao escrever (e provavelmente ao ensinar). Será possível, nessas condições, contagiar os estudantes com o entusiasmo das disciplinas intelectuais? Será fácil despertar neles sua vocação? O exercício do pensamento — essa operação humana que consiste em perguntar-se pelas coisas e procurar entendê-las — poderá florescer com tais pressupostos, em instituições estreitamente utilitárias, sem luxo vital, em suma, prosaicas?”

Palavras proféticas, verdadeiras e duras. O fato inconteste é que a proliferação tumoral de atividades burocráticas e meramente formais, o número excessivo de disciplinas, a avaliação do professor pelo número e a quantidade de artigos produzidos são coisas que colaboram decisivamente para o declínio intelectual do professor, para seu embrutecimento moral, e para a perda de sensibilidade para questões e temas de ordem superior. O reflexo disto é a péssima formação moral e cultural de boa parte dos alunos, que redunda na reprodução de valores e idéias que fomentam a desordem espiritual da sociedade moderna e a própria barbarização do homem. Diante desse quadro, cabe restaurar o papel do professor como um “agente de civilização”. Segundo Oakeshott, cabe a ele, principalmente, aliviar os seus alunos da servidão imposta pelos sentimentos, emoções, idéias e crenças dominantes, não através da doutrinação e do proselitismo ideológico, mas tornando possível aos seus alunos uma progressiva aproximação com a totalidade de sua herança cultural.

Por fim, ressalto que a culpa por tal estado de coisas, não é apenas dos alunos, dos professores, dos coordenadores de cursos e reitores, mas é de todos nós. Todos temos responsabilidade pela degradação moral e intelectual de nossa época, e para isto só há uma solução: uma profunda e radical revolução cultural que parte do centro do nosso ser. É preciso primeiro ordenar a nossa alma, através do cultivo do intelecto e das virtudes morais, para que, a partir dela, possamos irradiar, de forma muito parcial e limitada, novos e “arcaicos” valores que possam de algum modo despertar homens adormecidos. Paideia – educação, para os gregos – era a “arte de virar (periagoge)”, uma mudança de direção, uma torção radical, a adoção de uma nova atitude diante da existência, ativando a capacidade de discernir o essencial do acessório, o perene do transitório. Ensinar não é, assim, informar sobre coisas e treinar e aperfeiçoar determinadas habilidades específicas, mas formar homens maduros, responsáveis, com a mente cultivada, ampla e aberta à totalidade do real. Precisamos voltar a ler e estudar os clássicos gregos, que mostravam o que é realmente a educação e a formação integral do homem.


 (*)Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); professor de Ciências Humanas na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)/Campus Itaqui.


fonte: Revista Vila Nova

11 formas de criar uma relação saudável com a Internet

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Posso dizer desde já que sempre que escrevo sobre Internet e aparelhos digitais, meu tom de discurso caminha para o lado mais preocupado, para dizer o mínimo. Mas, como minha esposa pode atestar rapidamente, nem sempre eu pratico o que prego. Para mudar isso, eu criei uma lista de disciplinas digitais que eu tentarei levar a sério.
Claro, eu não acho que todos esses pontos são aplicáveis universalmente. Eles podem soar completamente inviáveis para seu estilo de vida, ou em alguns casos podem apenas parecer desnecessários. Tudo que eu quero com eles é simples: dadas minhas prioridades e minhas circunstâncias de vida, eu considero bem útil articular e implementar essas formas para deixar minha relação com a cultura da Internet bem mais saudável.

Eis a lista.

1. Não acorde direto na Internet. Tome um café da manhã, passeie com o cachorro, leia um livro/revista/jornal… Tanto faz, faça alguma coisa antes de ficar online. Pense nisso como uma forma de se preparar – fisicamente, mentalmente, emocionalmente, moralmente etc. – para o que lhe aguarda na rede.
2. Não fique conectado de forma natural e ambiental à sua conta de email. Feche o app ou a aba de seu email. Cheque-o duas ou três vezes por dia por pelo menos um tempo. O mesmo se aplica ao Facebook, Twitter e outras redes que usamos demais.
3. Fique com aquele link bacana na cabeça por algumas horas ou até um dia antes de compartilhá-lo por aí. Se depois de algum tempo de reflexão ele não tiver o mesmo impacto, ele não merece ser compartilhado. Não colabore com o excesso de ruído.
4. Não faça refeições junto com a Internet. Desligue, deixe os aparelhos para trás (ou no bolso), e aprecie a comida como uma forma de se regenerar, mental e fisicamente. Se você passa o dia dentro de algum lugar, leve seu almoço para fora. Aprecie a companhia de outras pessoas, ou aproveite o momento para sentir como alguns minutos de silêncio sepulcral podem ser bons.
5. Respire. Sério.
6. Faça uma coisa – uma só coisa, uma coisa completa – por vez, seja lá o que for. Se for para escrever um email, escreva-o de uma vez. Se for para ler um artigo, devore-o. Se uma tarefa não pode ser completada em uma temporada na frente do computador, pelo menos trabalhe um bom tempo suficiente nela, sem nenhuma interrupção. Em outras palavras, resista à tentação do mito do multitarefa. Ele é o canto da sereia de nossa geração, e pode transformar seu cérebro em um Titanic partido ao meio.
7. Limpe e zere seu feed de RSS no fim de cada dia. Se as coisas não foram lidas, vida que segue. Essa é difícil para mim: eu quero ler tudo, ficar sabendo de tudo etc. Mas se eu não limpar o feed, eu termino o dia com uma pilha de informação em proporções impossíveis de lidar. Além disso, eliminar potenciais e interessantes itens não lidos ou consumidos todos os dias é um gesto de felicidade, algo como uma libertação catártica.
8. Desligue todas as notificações que ameaçam lhe interromper ou distrair. Mentalmente, tendemos a responder às notificações com uma impulsão Pavloviana. Emocionalmente, elas são nossas pequenas versões do farol verde de Gatsby. De qualquer forma, é um hábito horrível.
9. Desligue seus aparelhos quando estiver com seus amigos. Além disso, abaixe a tela de seu laptop quando estiver falando com alguém. Isso pode soar exótico, antiquado, nostálgico, grosseiro, tanto faz. Mas eu vejo isso mais como uma forma de me manter minimamente civil e decente, mesmo que eu não esteja recebendo a mesma decência e civilidade em troca. Se você precisa atender uma ligação ou responder uma mensagem de texto, deixe isso claro de forma polida e educada. Muito melhor do que pegar seu aparelho de forma sorrateira e ficar olhando de canto de olho para a tela enquanto finge que ainda dá sinais de prestar atenção. Isso é inútil e feio, e todo mundo sabe disso.
10. Faça logoff nos sites de redes sociais após visitá-los. O passo extra de fazer login diminui sutilmente a facilidade em abri-los quando a sede por distração surge. Não subestime o poder dessas pequenas lombadas digitais.
11. Não vá para a cama com a Internet. De novo, sério.
Anos atrás, Umberto Eco disse: “Nós gostamos de listas porque nós não queremos morrer”. Talvez isso seja um pouco melodramático demais para essa lista. Certamente não há nenhum caso de vida ou morte nos 11 pontos, espero. Mas eu realmente acredito que seguir estas disciplinas digitais melhorarão meu uso de Internet, e farão com que eu tenha mais prazer vivendo nela.



Michael Sacasas é autor de um livro de ensaios sobre tecnologia e cultura chamado The Tourist and the Pilgrim (sem edição no Brasil). Ele escreve sobre tais assuntos no thefrailestthing.com e você pode encontrá-lo no Twitter no @FrailestThing.
Crédito da imagem: Shutterstock/Peshkova


fonte: 11 formas de criar uma relação saudável com a Internet |
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