Parem de confundir educação com ensino. Eduquem-se.


Parem de confundir educação com ensino.
Eduquem-se. Assistam aos vídeos de Bruno Garschagen (exclusivo) e José
Monir Nasser sobre a vida intelectual no Brasil

Por:
Felipe Moura Brasil




Bruno Fashion Mondays Foto oficial 1 

Mestre
em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade
Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student) e
formado em Direito, o professor, podcaster e escritor capixaba Bruno Garschagen
falou sobre as dificuldades e oportunidades relacionadas à vida
intelectual no Brasil, em edição de 7 de abril do Fashion Mondays, uma
série de palestras realizadas às segundas-feiras no São Conrado Fashion
Mall, no Rio de Janeiro, com curadoria de Alexandre Borges, que entrou
no fim para mediar as perguntas da plateia.
Bruno e Alexandre são agora meus colegas de editora Record – e seus
livros, assim como o meu, estão previstos para 2015. Estive presente no
Fashion Mall e filmei pelo celular a metade final da excelente palestra
de Bruno, que compartilho aqui, com exclusividade. Assistam.






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E já que ele falou da diferença entre educação e ensino, vamos a ela também.




Fashion Mondays Bruno Alexandre Pim Foto Oficial 

Enquanto
nas escolas brasileiras Walesca Popozuda vira uma “grande pensadora
contemporânea” em questão de prova de filosofia do Centro de Ensino
Médio 3 de Taguatinga, no Distrito Federal, e o professor de geografia
do oitavo ano revela à turma do filho de Fernanda Torres no Rio de
Janeiro que a palavra lucro vem de outra, logro, que quer dizer roubo,
de modo que se um pipoqueiro emprega alguém ele se apropria do esforço
alheio, o que é reprovável, nada melhor que ouvir um dos grandes mestres
que o Brasil já teve, José Monir Nasser (morto aos 56 anos em março de 2013),
colocar as coisas nos seus devidos lugares. Transcrevo este seu vídeo
fundamental, com parte de sua palestra na ocasião do lançamento da
edição brasileira do “Trivium“, da irmã Miriam Joseph (1898-1982), do qual ele escreveu o prefácio. Voltarei ao assunto em breve.



É um assunto tão importante, tão grande,
tão extraordinariamente urgente que eu me sinto assim cumprindo uma
espécie de obrigação pública ao fazê-lo. Quando você fica pensando como
foi que nós esquecemos a educação, como é que nós a perdemos, e aí
ficamos elegendo essas bobagens como educação… Quer dizer, esse conjunto
de ideários modernos que se chama de educação é um pouco dessa
autoilusão.



Quem foi compreender onde é que foi
parar a educação foi o padre Ivan Illich (1926-2002). O que o padre Ivan
Illich faz, na verdade, é propor o seguinte: “Para com esse negócio de
escola. Escola nenhuma. A única coisa que interessa é que aqueles que
querem aprender alguma coisa se encontrem com aqueles que querem ensinar
alguma coisa. E isso que nós chamamos aí de educação não é educação de
jeito nenhum, é alguma coisa próxima do conceito de Ensino.”



Então o que o padre faz, logo de cara, é
destruir essa falsa equação entre educação e Ensino, como se essas
coisas não tivessem nenhuma ligação uma com a outra. E de fato, se você
prestar atenção, se você não destrói essa ligação, você não entende nada
mesmo desse assunto. A pré-condição para entender o que está
acontecendo e o que pode acontecer nos assuntos educacionais é nós
destruirmos essa pseudoequação chamada Ensino = Educação.



Continua o padre Ivan Illich dizendo que
isso que se chama de Ensino não tem nada a ver com educação porque ele é
basicamente uma metodologia de distribuição de posições sociais. Não se
imagina de fato que alguém vai aprender alguma coisa. É apenas um
método pelo qual você distribui entre as pessoas privilégios que podem
depois servir para fins de todos os tipos, mas sobretudo profissionais.



E agora vocês imaginam então a situação
de alguém que está lidando com o departamento de pessoal de uma firma
grande: ascensorista, por exemplo. Se você não estabelecer uma enorme
quantidade de obstáculos de qualificação, você irá ter uma lista de
pessoas para analisar o currículo que vai demorar uns cinco anos para
você chegar no último. Então o que acontece? Essa turma de RH vai lá e
põe assim no jornal: para ser ascensorista, tem que ter o segundo grau
completo. Daqui a pouquinho tem que ter curso de administração de
empresas, porque o único objetivo disso é reduzir a quantidade de
pessoas candidatas àquele determinado curso [cargo].



Essencialmente é isso que nós temos que
resolver com o Ensino moderno. O Ensino moderno é apenas um meio de você
separar as pessoas com perspectivas diferentes de capacidade de obter
emprego. E é por isso que todo debate de qualidade de Ensino é um debate
vazio, porque no fundo, no fundo, esse assunto não tem nada a ver com
educação, é apenas um assunto de “promoção social”, digamos assim entre
aspas. Essa é a tese do padre Ivan Illich, de que nós nos enganamos
profundamente ao imaginar o que tem aí no assunto Ensino.



E quando eu chamo de Ensino são esses
rituais de natureza governamental, porque, mesmo quando é privado,
obedece aos rituais estabelecidos pelo governo federal, ou o governo
estadual, o governo municipal, enfim, o que for… Esse conjunto de
rituais não tem nada a ver com educar alguém. Essa é a realidade que a
gente precisa entender.



Então, por exemplo: há todo ano um
debate sobre se deve ou não, como é que se diz?, aprovar automaticamente
os alunos. A turma que acha que tem que aprovar automaticamente é
composta fundamentalmente dos cínicos, que acham que é isso mesmo que eu
estou descrevendo, e acham: “Ah, já que é uma coisa mesmo de
faz-de-conta, qual é o problema de aprovar automaticamente então os
alunos?” E o pessoal que acha que não deve aprovar automaticamente são
os otimistas que acham que isso tem a ver com educação e ainda imaginam
que possa haver alguma educação no sistema de Ensino. Eles só têm
interesse em preencher papelzinho e lista de presença e isso e aquilo
outro, então ele permite que um professor qualquer dê a aula que bem
entender…



Olha, faz 20 anos que eu fui professor
de tudo quanto é jeito: fui professor de inglês do segundo grau, fui
professor de economia, sou professor de pós-graduação, faço tudo quanto é
coisa. Nunca na minha história de professor apareceu alguém para
discutir a aula que eu estava dando.



Mas o problema desses indivíduos é que
eles precisam saber alguma coisa antes de ensinar aos outros e, se eles
vieram do mundo do Ensino, provavelmente vieram já contaminados com os
defeitos do próprio Ensino. O que nós temos aí é um caso perdido. O
Ensino é completamente irrecuperável. Para conseguir um sujeito que
saiba alguma coisa para dar aula é um investimento terrivelmente grande e
só se pode fazer com uma pequena parcela dos professores e também a de
fato uma pequena parcela de alunos que gostariam de empreendê-lo. Mas,
fora isso, o resto se contenta com esse mise-en-scene, com essa espécie
de farsa geral chamada Ensino, e que é mais ou menos…



A escola pública no Brasil, por exemplo,
é um negócio que só existe para contestar a tese de que não existe
nada, de que não existe mais. Há boas escolas aqui e acolá, mas a média é
muito terrível. Você imagina que, depois de 8 anos, em que nós raptamos
as crianças 5 horas por dia, durante 8 anos, gastamos um quarto do
orçamento com isso, até por lei…



Todo mundo é burro? Ninguém sabe ler?
Não parece a vocês haver alguma coisa terrivelmente errada nisso? A
eficiência de um negócio desse é altamente ridícula. Nós não sabemos o
que estamos fazendo. Mas a nossa rebelião vai até o ponto em que a gente
entende que se trata simplesmente de Ensino, e não se trata de
educação. E educação não pode existir nesta base em que ocorre o tal do
Ensino brasileiro.



Pois se a gente não entende essa
diferença de educação e Ensino, também nós não entendemos o que o
Trivium quer nos mostrar. Porque o Trivium é de fato um instrumento de
educação. Não só o Trivium, como o Quadrivium, aquilo que se chama de 7
Artes Liberais. A própria expressão 7 Artes Liberais quer nos dizer que –
a parte liberal do título – quer nos dizer que há uma liberdade
intrínseca nesse assunto, ou seja, esses conhecimentos que o Trivium e o
Quadrivium permitem que nós tenhamos são conhecimentos livres, você os
obtêm SE você bem entender.



E essa é a primeira condição para que
haja alguma educação. A educação tem de ser necessariamente voluntária.
Não pode ser de modo nenhum forçada por nenhuma espécie de método e é
por isso que eu sempre digo para todo mundo que eu sou o professor mais
feliz que se possa conceber, porque eu tenho 600 alunos voluntários. E é
muito pouca gente capaz de ter a mesma quantidade de alunos
voluntários.



Os meus alunos vêm todos porque querem. E
isso é a garantia de que eu tenho realmente a possibilidade de educar
alguém, porque eu estou de certo modo protegido por essa vontade, esse
desejo, que é o que não existe no mundo do Ensino, porque o mundo do
Ensino precisa fazer o ritual da presença. E o ritual da presença é esse
ritual de que nós conhecemos os resultados aí.



Em suma:


Parem de confundir educação com ensino. Eduquem-se.


Felipe Moura Brasil – http://www.veja.com/felipemourabrasil








fonte:

Parem de confundir educação com ensino. Eduquem-se. Assistam aos vídeos de Bruno Garschagen (exclusivo) e José Monir Nasser sobre a vida intelectual no Brasil | Felipe Moura Brasil | VEJA.com

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