Nazismo: Esquerda ou Direita?




adolfhitler









As
discussões políticas da Internet têm uma batata quente que é jogada de
colo em colo. Seu nome é Nazismo. Ninguém quer ficar com ela; a direita
diz que o nazismo era de esquerda, socialista, filo-comunista; a
esquerda acusa-o de direita, capitalista, liberal. E aí, quem tem razão?
O último lance
desse jogo veio da Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, que
naturalmente vê o nazismo como algo da direita; mais especificamente, um
movimento capitalista, posto que financiado por capitalistas.
“A
ascensão do nazismo de Adolf Hitler na Alemanha e do fascismo de Benito
Mussolini na Itália durante os anos 1920, 1930 e 1940 só foi possível
com a colaboração e o suporte financeiro de grandes corporações ainda
hoje poderosas: BMW, Fiat, IG Farben (Bayer), Volkswagen, Siemens, IBM,
Chase Bank, Allianz… Sem contar, é claro, com os grupos de mídia.”
Tudo verdade. Mas daí a chamar o fascismo de “capitalista” vai um salto enorme.
É um
infortúnio, não totalmente acidental, que o termo “capitalista”
signifique duas coisas diferentes. Originalmente, “capitalista” é o
detentor do capital, dos meios de produção: os donos de empresas, bancos
e terras, os acionistas, etc. Mas desde que “capitalismo” passou, no
século 19, a significar um sistema econômico (nome dado por seus
opositores), “capitalista” significa também o defensor dessa causa
política, que é, em poucas palavras, a liberdade de mercado.
Segundo
Marx, a defesa do capitalismo era uma ideologia – uma construção teórica
enganadora que justifica interesses de classe – burguesa, ou seja, da
classe detentora do capital. Assim, os capitalistas – barões das
empresas e das finanças – seriam naturalmente defensores do capitalismo,
ideologia que justificava o sistema exploratório no qual eles lucravam.
A verdade, contudo, é mais complexa. A tendência geral é que os grandes empresários não sejam defensores da liberdade de mercado; pois ela não é de seu interesse.
Eles querem garantir para si o direito de monopólio e o auxílio
estatal, e estão numa situação melhor para influenciar a política do que
seus competidores menores. Sem dúvida, eles raramente serão
socialistas; a expropriação das empresas também não lhes interessa.
Fascismo e
nazismo, bem como outros movimentos da época, iam ao encontro dos
interesses de grandes empresas: garantiam-lhes privilégios via
apadrinhamento estatal ao mesmo tempo em que continham a ameaça
socialista. Por isso mesmo receberam apoio de tantas corporações.

hitler

Fascismo e
socialismo sempre brigaram entre si. Mas era uma briga entre duas
formas de coletivismo, nenhuma das quais era capitalista, ou seja,
defensora do livre mercado. Brigavam tanto justamente por disputarem o
mesmo público-alvo. Eram movimentos coletivistas numa época em que o
liberalismo e o individualismo estavam quase mortos como proposta
política. Muitos fascistas, aliás, vieram da militância socialista
(Mussolini é o maior exemplo) e do movimento sindical. Diversos
sindicatos eram fascistas e desempenharam papel importante na primeira
fase do regime, que terminou por extingui-los.
É um erro,
contudo, dizer que o fascismo ou o nazismo eram socialistas. Há
diferenças importantes. O socialismo via na classe econômica,
independentemente de fronteiras nacionais, a unidade social relevante; o
fascismo, na raça ou na nação. O socialismo pregava a luta de classes, a
derrubada do poder burguês; o fascismo pregava a harmonia entre classes
no Estado e a luta contra o inimigo externo ou seus agentes
infiltrados. Na economia, não queria estatizar tudo como fez a URSS;
queria proteger a indústria, promover a autarquia produtiva ao invés do
comércio internacional, formar grandes cartéis, coordenar as negociações
entre trabalhadores e empresários, impor leis trabalhistas rígidas,
investir pesado em obras estatais e exército. O modelo econômico do
fascismo, mais do que socialista, era corporativista. Cada um no seu
lugar, relações harmônicas entre os blocos com o Estado permeando tudo.
Os dois
movimentos rivais tinham, aliás, um inimigo em comum: a economia
liberal, a velha ordem “decadente”, o individualismo, os especuladores,
os comerciantes, os banqueiros não-aliados ao regime. A perseguição
nazista aos judeus tinha muito desse ódio à suposta classe especuladora e
usurária (cobradora de juros).  Opunham-se frontalmente ao livre
comércio e à livre iniciativa e a todas as relações voluntárias e
não-direcionadas a objetivos estatais. Em seu lugar, a identificação
entre sociedade e Estado, o partido como definidor dos rumos da nação.
“Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”, como diria
Mussolini.

Apesar da
derrota militar do fascismo, é curioso notar que a URSS e outros
socialistas adotaram diversas características do antigo rival: o regime
que começou com uma retórica internacionalista e revolucionária no campo
dos costumes virou, sob Stalin, nacionalista, militarista, conservador e
exaltador do grande líder, do pai da nação.

E então,
nazismo é direita ou esquerda? Depende de como definimos os termos.
Aliás, o livre mercado é direita ou esquerda? (Resposta: nenhum dos
dois). Acho que há diferenças relevantes entre socialismo e nazismo para
que eles não sejam identificados; embora haja também semelhanças que
não devemos perder de vista. Seja como for, uma coisa podemos dizer com
toda a certeza: nazismo e fascismo não tinham nada de capitalistas;
combatiam o livre mercado com todas as forças. Não eram liberais nem na
economia, nem nos costumes, nem na filosofia. Assim como muitos
capitães de indústria também não eram e não são. Via de regra,
capitalistas não são capitalistas. Tá na hora de atualizar nosso
vocabulário.
 
 
 

fonte: Nazismo: Esquerda ou Direita? – resposta a Cynara Menezes - LiberzoneLiberzone

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