O Bebê e a Água do Banho



Dom Fernando Arêas Rifan*




Tem havido ultimamente insultos à Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, que me atingem também, pois dela faço parte por ser Bispo
católico, pela graça de Deus, em plena comunhão com a Santa Igreja. A
CNBB é o conjunto dos Bispos do Brasil que, exercem conjuntamente certas
funções pastorais em favor dos fiéis do seu território (CIC cân. 447).
Conforme explicou São João Paulo II na Carta Apostólica Apostolos suos,
é “muito conveniente que, em todo o mundo, os Bispos da mesma nação ou
região se reúnam periodicamente em assembleia, para que, da comunicação
de pareceres e experiências, e da troca de opiniões, resulte uma santa
colaboração de esforços para bem comum das Igrejas”. “O Espírito Santo
vos constituiu Bispos para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu
com o seu próprio sangue” (At 20, 28).
Quero deixar bem claro
que, por ser Bispo da Santa Igreja Católica, dou minha adesão a tudo o
que ensina o seu Magistério, nas suas diferentes formas e na proporção
da exigência de suas expressões doutrinárias, sem restrições mentais ou
subterfúgios.
Em matéria de política ou questões sociais,
minha posição é a da Doutrina Social da Igreja. Por isso, defendo a
subordinação da ordem social à ordem moral estabelecida por Deus, a
dignidade da pessoa humana, a busca do bem comum, a atenção especial aos
pobres, a rejeição do socialismo e do marxismo, nas suas diferentes
formas, o direito de propriedade, o princípio da subsidiariedade

e os legítimos direitos humanos, principalmente a defesa da vida desde a concepção até o seu término natural.

Ademais, ainda na questão agrária, compartilho com a posição de São
João Paulo II quando ensinou: “É necessário recordar a doutrina
tradicional de que a posse da terra ‘é ilegítima quando não é valorizada
ou quando serve para impedir o trabalho dos outros, visando somente
obter um ganho que não provém da expansão global do trabalho humano e da
riqueza social, mas antes de sua repressão, da exploração ilícita, da
especulação e da ruptura da solidariedade no mundo do trabalho’
(Centesimus Annus 43). Mas recordo, igualmente, as palavras do meu
predecessor Leão XIII quando ensina que ‘nem a justiça, nem o bem comum
consentem danificar alguém ou invadir a sua propriedade sob nenhum
pretexto’ (Rerum Novarum, 30). A Igreja não pode estimular, inspirar ou
apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por
invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das
propriedades agrícolas” (Discurso aos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB,
na sua visita ad limina, 21março de 1995).
Assim, quem quer que
defenda partidos ou grupos que pregam a revolução social, a luta de
classes, o igualitarismo total, a negação do direito de propriedade e a
ideologia de gênero, não me representa nem pode falar em meu nome nem em
nome da Igreja.
Ademais, conforme ensina a Igreja, como Bispo,
quero ter sempre uma “prudente solicitude pelo bem comum” (Laborem
exercens, 20), “não estou ligado a qualquer sistema político
determinado” (Gaudium et Spes, 76), não me intrometo no trabalho
político, “por este não ser competência imediata da Igreja”, “nem me
identifico com os interesses de partido algum”, ensinando, porém, os
grandes critérios e os valores irrevogáveis, orientando as consciências e
oferecendo uma opção de vida que vai além do âmbito político” (Bento
XVI, Aparecida, 13-5-2007, Disc. Inaug. do CELAM).
Defendo a mesma
posição do Catecismo da Igreja Católica quando diz: “Não cabe aos
pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na
organização da vida social. Essa tarefa faz parte da vocação dos fiéis
leigos, que agem por própria iniciativa com seus concidadãos” (n. 2442).

Compartilho também com a posição do Papa Bento XVI, hoje emérito,
quando ensinou que “a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e
não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, mas tem
uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo...”
(Caritas in Veritate, 9).
É claro que, na crise atual, há quem não
siga nessa matéria o critério do Magistério da Igreja. Mas são vozes
fora do caminho, mesmo que muitas. Não se pode apoiá-las.
Se
há pessoas na Igreja que não seguem seus ensinamentos, temos a
obrigação de não segui-las e, se tivermos ciência e competência para
tal, de respeitosamente manifestar isso aos Pastores da Igreja (CIC cânon 212, §3), ressalvando a reverência que lhes é devida.

É nesse último ponto que pecam gravemente alguns que se intitulam
católicos. Na ânsia de defender coisas corretas, perdem o respeito
devido às autoridades da Igreja e as desprestigiam, para alegria dos
inimigos dela.
Junto com o combate ao erro, até querendo fazer o
bem, acabam destruindo a autoridade, com ofensas, exageros, meias
verdades e até mentiras, caindo assim em outro erro. A meia verdade pode
ser pior do que a mentira deslavada.
Não quero dizer que não existam os erros que combatem. O que é preciso é evitar as generalizações,
ampliações e atribuições indevidas e injustas, onde acontecem faltas ou
excessos. A justiça e a caridade, mesmo no combate, são imprescindíveis.
Qualquer pessoa não católica que lesse certos sites e postagens de
alguns católicos críticos, injuriando os Bispos e autoridades da Igreja,
certamente iria raciocinar: “é impossível que tais pessoas sejam
católicas, pois não se fala assim da própria família!”.
Como diz o provérbio: “Não se pode jogar fora o bebê, junto com a água suja do banho!”.


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/




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