Cientificismo: Todas as decisões devem ser tomadas através do método científico?



Os extremos do cientificismo

Muitas vezes, alguns indivíduos adotam uma versão extrapolada da Ciência, onde ela deve abarcar TODA realidade. Assim, Deus também teria que ser avaliado de acordo com princípios científicos. Não raro, alguns ateístas dizem que “só podemos conhecer as coisas pelo método científico” ou ainda “Deus deve ser provado cientificamente”. Resumindo a ideia:

(A)
A única forma correta de tomar uma decisão, de forma coerente, é com o método científico;
 
(B) Uma definição de posição quanto à existência de Deus é uma tomada de decisão;
 
(C) Se a pessoa não embasar sua decisão sobre Deus em provas científicas, então ele está necessariamente errada;

Para quebrarmos essa lógica, devemos lembrar que existem vários planos de conhecimento (científico, filosófico, etc). O plano do método científico se refere a conhecimentos obtidos através de experimento testáveis, reproduzíveis e controláveis sobre relações causais entre entes empíricos. Ex.: testar se remédios são eficientes no controle de doenças. O problema é que Deus, por definição, NÃO é um ser físico/empírico (material) nem “reproduzível” em laboratório. Portanto, a discussão sobre Deus está um plano acima do método científico. Deve ser feita pela lógica e pela filosofia, assim como são feita as discussões sobre existência de outras mentes, juízos morais e… juízos de conhecimento! A frase, por exemplo, “todas as tomadas de decisão devem ser feitas pelo método científico” não é resultado de uma tomada de decisão baseada em conhecimento? Se é assim, como testar essa ideia de acordo com os padrões científicos? Impossível. Ou seja, de cara já achamos uma contradição lógica. Juízos sobre conhecimento são feitos pela filosofia também. Quem utilizar métodos que servem para um fim “x”, em uma situação “y”, totalmente diferente, acabará por produzir erros.

Imagine que um indivíduo consiga um cargo de gerente jr em uma empresa que faz consultoria e auditoria. No primeiro dia ele já resolve confrontar o gerente, de forma totalmente arrogante, e sugerir vários modificações na estrutura interna de administração (que, naturalmente, vão despender dinheiro). Como ele ainda não tem o “skill” de um gerente de projetos, ele vai ser DEMOLIDO caso não consiga validar as necessidades para as mudanças propostas perante um “set” de princípios de ceticismo corporativo. O trauma de falhar nessa primeira tentativa é tão grande que ele fica CONVENCIDO que ele deve usar o ceticismo corporativo para TODA e QUALQUER decisão que ele deva fazer a partir daí, já que o gerente de projetos demonstrou (de forma quase humilhante) porque a decisão dele seria errada por esse método. Agora imaginei também que ele tivesse um encontro com a garota de seus sonhos dois dias após esse fato ocorrer (e, portanto, já pretende usar ceticismo corporativo, cujo um das regras é tornar PÚBLICO o motivo pelo qual a ideia está sendo rejeitada, além de ser sempre firme).

A senhorita com quem ele vai sair pretende pede, gentilmente, para irem em algum local descontraído, como um shopping, para bater um papo e aproveitar um lanche leve. Histericamente, ele responde: “NÃO! Já defini, analisando nossa situação de acordo com os objetivos S.M.A.R.T. , que devemos ir para um restaurante tomar um VINHO, entendeu?” A garota, meio envergonhada, aceita a proposta e vai até o local definido por ele. Chegando lá, o garçom apresenta a carta de vinhos ao casal. A moça olha e pede: “Por favor, me traga um Chianti Colli Fiorentini, se puder.” Ao que o garçom diz: “É pra já!” O gerente jr traumatizado levanta, dá um murro na mesa e grita: “O QUÊ? Não percebeu que eu ainda não analisei o VESTED INTEREST na escolha dela desse vinho? Caramba! Seu BURRO!” Digamos que a garota ainda tenha uma paciência de Jó e, quando estiver voltando para casa, ainda resolva pedir um abraço ou um beijo pelo encontro. Ao que ele responde: “NEGATIVO! Não avaliei as possíveis consequências desse ato de acordo com o método SIX SIGMA, então nem pensar em alguma coisa dessas! Sempre devemos avaliar ANTES, pelo ceticismo corporativo.” Detalhe: ele realmente queria namorar (e talvez até casar) com a garota. Considerando isso, será que essa seria uma boa atitude a ser tomada? É claro que esse fanfarrão vai levar, mais cedo ou mais tarde, um (merecido) pé-na-bunda. Motivo?

Simplesmente porque ele não aplicou o método de conhecimento no local onde ele FUNCIONA. Aí, os resultados foram desastrosos. Da mesma forma, quem quiser validar um princípio lógico pelo método científico ou um administrar uma empresa pela teologia, também vai conseguir resultados PÍFIOS. Cada coisa deve ser avaliada e utilizada pela finalidade a qual serve. O método científico não é diferente. Não podemos usar o método científico para avaliar uma questão não-científica se não quisermos cair em erro. Logo, podemos concluir que:

(1) Apenas questões que estão no escopo do método científico devem ser analisadas através dele.
 
(2) Deus é uma discussão metafísica, feita pela lógica e filosofia.

(3) Logo, Deus deve ser evidenciado através da metafísica.
Então, temos que:

(A)
Não podemos tomar todas as decisões, de forma coerente, pelo método científico, pois ele só permite o acesso a um tipo específico de conhecimento (que já exclui o conhecimento da frase “Decisões devem ser tomadas pelo método científico”, por exemplo);
 
(B) Deus, por suas características, não pode nem deve ser provado pelos padrões do método científico;
 
(C) Se (A) e (B) estão errados, logo (C), na condição de premissa conclusiva, também está;
 
(D) Logo, a objeção falhou completamente;

Conclusão:

Esse estratagema consiste na visão cientificista do mundo. Embora este conceito seja facilmente refutado, ainda há pessoas que vendem essa ideia, portanto, uma hora ou outra ela acaba ganhando adeptos entre usuários da internet. A mera pergunta “Então como você tomou a decisão que as decisões devem ser todas tomadas pelo método científico” já é suficiente, do ponto de vista lógico, para refutar esta ideia.
 
fonte: http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2014/09/cientificismo-todas-as-decisoes-devem.html

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